domingo, novembro 21, 2010

Receita de Leitura (25) - Edição Especial 'Mês Saramago'

Dose de Amostra

Chegando assim ao lugar de que o senhor lhe tinha falado, abraão construiu um altar e acomodou a lenha por cima dele. Depois atou o filho e colocou-o no altar, deitado sobre a lenha. Acto contínuo, empunhou a faca para sacrificar o pobre rapaz e já se dispunha a cortar-lhe a garganta quando sentiu que alguém lhe segurava o braço, ao mesmo tempo que uma voz gritava, Que vai você fazer, velho malvado, matar o seu próprio filho, queimá-lo, é outra vez a mesma história, começa-se por um cordeiro e acaba-se por assassinar aquele a quem mais se deveria amar, Foi o senhor que o ordenou, foi o senhor que o ordenou, debatia-se abraão, Cale-se, ou quem o mata aqui sou eu, desate já o rapaz, ajoelhe e peça-lhe perdão, Quem é você, Sou caim, sou o anjo que salvou a vida a isaac. Não, não era certo, caim não é nenhum anjo, anjo é este que acabou de pousar com um grande ruído de asas e que começou a declamar como um actor que tivesse ouvido finalmente a sua deixa, Não levantes a mão contra o menino, não lhe faças nenhum mal, pois já vejo que és obediente ao senhor, disposto, por amor dele, a não poupar nem sequer o teu filho único, Chegas tarde, disse caim, se isaac não está morto foi porque eu o impedi. O anjo fez cara de contrição, Sinto muito ter chegado atrasado, mas a culpa não foi minha, quando vinha para cá surgiu-me um problema mecânico na asa direita, não sincronizava com a esquerda, o resultado foram contínuas mudanças de rumo que me desorientavam.

José Saramago, (2009), Caim, Alfragide, Caminho.

Composição
Caim, o último livro de José Saramago, contém princípios activos potenciadores de uma boa polémica. Além da exegese e da conotação metafórica, Saramago constrói a narrativa com base na história de Abel e Caim e outros episódios biblícos do Velho Testamento. Causador de uma discussão acesa em vários sectores da sociedade, Caim foi recebido com reacções extremas pela leitura quase literal da Bíblia, linguagem desassombrada e, por vezes, excessiva como o próprio escritor reconheceu publicamente.

Indicações
Caim está recomendado sem restrições aos leitores dedicados do universo saramaguiano. Está particularmente indicado aos amantes de prosas livres sem imperativos morais ou religiosos. Os apreciadores de uma escrita imaginativa experimentaram sensações de bem-estar após a leitura e soltaram amiúde gargalhadas libertadoras. Leitores de mente aberta rejubilaram com a escrita livre e ousada do escritor.

Precauções
Potenciador de reacções contraditórias, Caim deve ser lido com restrições pelos leitores incapazes de olhar a Bíblia apenas como um livro, passível de tantas interpretações quantos os leitores. Indivíduos sensíveis em matéria de questões religiosas experimentaram sensações de cólera furiosa ao lerem as acusações feitas a um deus presente e de desígnios nem sempre claros aos olhos do comum dos mortais. Em leitores interessados foi observada frequentemente uma curiosidade intensa pelo Velho Testamento. Se der por si a procurar a Bíblia nas estantes lá de casa, não desista, saiba que a literatura tem o condão de nos levar mais além na descoberta de mundos fantásticos e que não se compadece com cânones rígidos de interpretações oficiais.

Outras apresentações
Se gostou de Caim e é apreciador de histórias em torno da Bíblia aventure-se. Ler faz sempre bem. Experimente outras prosas de autores diferentes e mergulhe no belíssimo A Mulher que escreveu a Bíblia de Moacyr Scliar e O Novíssimo Testamento de Mário Lúcio Sousa. Leia. Ouse.


Leonor Barros

2 comentários:

avenalve disse...

A 25a. receita foi extraordinária. Parabéns!

LBarros disse...

Muito obrigada, Aventino! Que bom vê-lo por cá. Beijinhos