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segunda-feira, novembro 30, 2009

Sugestões

Dizia Álvaro de Campos que "a melhor maneira de viajar é sentir". Embora seja mais adepta da viagem que implica a deslocação física entre um e outro ponto, admito que há muita verdade na afirmação. Não há viagem sem sentimentos e sem sentir tudo, muito, intensamente. Talvez inspirada por este e outros aforismos ou afirmações, surgiu o livro ideal para os amantes da leitura, de Fernando Pessoa em especial e de viajar. O Livro de Viagem reúne textos do poeta português sobre a mesma temática: a viagem. Podem encontrar-se excerptos de Fernando Pessoa ortónimo, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro. Estou mesmo tentada a escrever uma cartinha ao velhote das barbas brancas para ver se ele se lembra de me deixar este livro no sapatinho. E ainda: cumprem-se hoje 74 anos sobre a morte de Fernando Pessoa. Tinha apenas 47 anos quando partiu.



quarta-feira, dezembro 10, 2008

Sugestões de leitura

Com o Natal aqui tão perto, trago-vos hoje uma sugestão de leitura ou de presente, os livros são sempre óptimos presentes de natal. Desta feita trago-vos um livro inovador, não tenho conhecimento de que tenha sido escrito algo assim antes. Trata-se de Porto versus Lisboa, escrito a quatro mãos por um lisboeta, António Costa Santos, e um habitante do Porto, António Eça de Queiroz. Os Antónios, um de Lisboa e outro do Porto, juntaram-se e deste encontro - ou deverei dizer duelo?- nasceu um livro muito bem escrito, não há livros, no verdadeiro sentido do termo, se não forem bem escritos, muito bem disposto, bem humorado e muito informativo. Recomendo vivamente. Eu já li e também vou oferecer outro. De que é que está à espera?

sexta-feira, maio 23, 2008

Meu Portugal Brasileiro

Os duzentos anos da partida da corte de D. João VI para o Brasil tem sido comemorados de várias formas, tanto em Portugal como no Brasil A literatura, já se sabe, não é indiferente às efemérides. Servem também como inspiração para o nascimento de mais livros. Nós, os amantes da leitura e dos livros, agradecemos, já se sabe. Surgiram livros de história, naturalmente, mas a ficção foi também contemplada. Com publicação recente destaco Meu Portugal Brasileiro de José Jorge Letria. Confesso que ainda vou nas primeiras páginas, mas a prosa é escorreita e a história apaixonante. Deixo-vos com a sinopse do livro que consta na badana:

A bordo de uma das naus da frota que leva a família real para o Brasil, em finais de 1807, vai um jovem oficial que tudo deixa em Lisboa - família, noiva e muitos sonhos - para cumprir o seu dever de militar. Os anos que se seguem vão ser de emoção, sofrimento e permanente descoberta. Estando perto da família real, conhece as suas grandezas e misérias, mas também observa de perto o drama da escravatura.
Dessa experiência nasce um livro de memórias ficcionadas que tem o tempero forte da aventura, da intriga de corte, das amizades que nascem para durar e das paixões que o tempo não deixa morrer.
Meu Portugal Brasileiro é um livro comovido e comovente, no qual realidade e ficção se misturam numa verdadeira celebração da História e da vida que liga dois povos: um filho que o pai já perdera a esperança de conhecer, os ideais que mudam vidas inteiras, os feitiços que os escravos de origem africana sabem fazer e desfazer, as perversidades de uma rainha que nunca gostou do Brasil, as conspirações e boatos sobre a sexualidade ambígua de um rei que gosta de música e de frango assado, a personalidade única de um príncipe que se torna imperador do Brasil.
Um livro que apetece ler e reler, em Portugal ou no Brasil, porque é uma longa viagem de ida e volta ao fundo da memória de um homem que nunca desiste de sonhar e de acreditar. Uma verdadeira celebração da História e da vida que une dois povos e duas culturas.

quinta-feira, maio 15, 2008

Gaveta de papéis

José Luis Peixoto foi recentemente agraciado com o Prémio Daniel Faria 2008. Para os fans do leitor só a notícia de que o livro chegou agora às bancas será suficiente, para os outros recomendo mesmo a leitura. Gaveta de Papéis, assim se chama, tem uma estrutura curiosa, como se abríssemos uma gaveta onde se encontram bilhetes, fotografias e outros objectos pessoais. Muito bom.

sexta-feira, janeiro 25, 2008

O carteiro

Carteiros. Sempre vi algum encanto nos carteiros, uma espécie de Mercúrios contemporâneos trazendo novidades de casa a casa, e, mesmo que o correio electrónico tenha tomado conta de uma parte substancial das comunicações interpessoais escritas, continuo a admirar estes emissários que nos dias que correm abandonaram maioritariamente as caminhadas a pé e se deslocam em veículos motorizados. Duvido que este carteiro se deslocasse através de qualquer outro meio que não fossem os seus próprios pés, não sei se por fazer jeito à ideia romanceada de carteiro que me ocupa o imaginário, se por assim ser quando se lê um texto alheio e se lhe vão juntando peças e preenchendo os espaços naturalmente deixados em branco por quem escreve para quem lê.
A pé ou de motociclo, a verdade é que este era um carteiro especial. Maldizia o peso dos livros e, certo dia, encetando conversa com o narrador em virtude da quantidade de livros que lhe deixava, descobriu para seu desencanto que não, o destinatário de todas as cartas e livros não os lia sempre e nem os lia completamente e que, além da falta pela ausência de leitura, redistribuía as encomendas por amigos, assim mesmo, se lhes ler o miolo, vocábulo usado para o conteúdo dos livros. Delicioso. O carteiro não se conformava. Como não ler? Se entrega, tem de ler. A não leitura constituía um pecadilho imperdoável, um desrespeito para com o remetente. O narrador não cede e argumenta que para o escritor é igual a leitura ou não das obras colocando um ponto final na contenda e postulando lacónico que o esvaziamento de alma a que a escrita obriga será por si só suficiente. O carteiro riposta, o narrador riposta, o carteiro surpreende o narrador com uma revelação velada acerca do ofício que lhe preenchia a vida além dos afãs de carteiro, apontando na direcção de outro carteiro também a braços com um escritor de renome, Pablo Neruda. Se Carlos Drummond de Andrade esvaziou a alma não se deixa adivinhar, espero, não obstante, que sim, a contrapartida mais do que merecida para a crónica brilhante com que nos brinda, uma das muitas que habitam nas páginas de Boa Companhia.
Imagem: Van Gogh

sexta-feira, dezembro 07, 2007

Boca do Inferno, por exemplo

Na sequência do post anterior, aqui uma das minhas sugestões e que estou certa agradará a muitos. Sou fiel seguidora das crónicas do Ricardo Araújo Pereira, sobejamante conhecido como um dos integrantes dos Gato Fedorento, na revista "Visão". Todas as quintas-feiras procuro avidamente a última página da revista e deleito-me com o humor e sarcasmo das crónicas. Os temas variam. Ora sobre o quotidiano ora sobre assuntos políticos da actualidade nacional ou internacional ou sobre futebol, as crónicas provocam sempre umas gargalhadas sonoras, um ingrediente fundamental para um quotidiano mais saudável e risonho. Agora as crónicas passadas encontram-se compiladas num só volume. O livro tem o título da crónica semanal Boca do Inferno e a edição é da Tinta da China. Se quiserem ler um bocadinho antes de se decidirem pela compra do livro, podem espreitar aqui.

domingo, maio 20, 2007

Como o gato

Há dias sabes em que gostava de ser como o gato e que me tocasses sem desejar encontrar quaisquer sentimentos a não ser o que se exprime num espreguiçar muito lento - um vago agradecimento? - e que depois me deixasses deitado no sofá sem que nada pudesses levar da minha alma, pois nem saberias o que dela roubar...

Pedro Paixão, Viver todos os dias cansa, Cotovia

foto: minha

Este texto é um dos meus preferidos de Pedro Paixão. Sou uma amante confessa de felinos, é certo, mas gosto da simplicidade da escrita e da forma como os descreve, usando as suas características para falar das nossas.
E quem é que nunca desejou, secreta ou assumidamente, ser como o gato: livre, belo, sedutor, elegante e independente?
Se gostaste deste texto, descobre mais sobre
Pedro Paixão.
Se gostas de felinos, sugiro a leitura de Amados Gatos de José Jorge Letria. Caso prefiras os fiéis amigos, foi lançado há pouco do mesmo autor Amados Cães pela Oficina do Livro.

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

Leituras

Karla Suárez foi uma das presenças na 8ª edição das Correntes d´Escritas, na Póvoa do Varzim. A escritora cubana, nascida em 1969 em Havana, reside actualmente em Paris, regressando, no entanto, a Havana todos os anos, tem publicado entre nós Os Rostos do Silêncio, o seu primeiro romance, premiado em Espanha em 1999 e 2000 e A Viajante, publicado em 2006.
A Viajante é uma narrativa apaixonante centrada em duas amigas, Circe e Lucía, juntas e separadas pelo rumo das suas vidas, tendo como ponto de partida comum o seu país natal, Cuba, e como pano de fundo recorrente mas subtil, a cubanidade matricial de ambas. Circe procura incessantemente o seu lugar, uma cidade que seja sua, e vai percorrendo nesta demanda vários países e cidades, São Paulo, Cidade do México, Madrid, Paris e Roma, mantendo contacto com a amiga Lucía, entretanto radicada em Roma, através de postais enviados no seu périplo. Circe, simbolicamente assim chamada, considera que cada cidade tem o seu tempo e, à medida que as percorre, compra um relógio novo, um para cada cidade, em sintonia com esse mesmo tempo, que ela espera sempre diferente. Para saber mais, nada como ler o livro...


Karla Suárez, (2006), A Viajante, Edições Asa.