Sexta-feira, Dezembro 04, 2009

O Dia da Morte de Fernando Pessoa...

foi comemorado na nossa Escola. Ora espreitem aqui. O Diogo esteve muito bem. Parabéns pela iniciativa.

Quinta-feira, Dezembro 03, 2009

Leituras

Não sei como se chamaria o medo de não ter o que ler. Existem as conhecidas claustrofobia (medo de lugares fechados), agorafobia (medo de espaços abertos), acrofobia (medo de altura), collorfobia (medo do que ele vai nos aprontar agora) e as menos conhecidas ailurofobia (medo de gatos), iatrofobia (medo de médicos) e até treiskaidekafobia (medo do número treze), mas o pânico de estar, por exemplo, num quarto de hotel, com insónia, sem nada para ler não sei que nome tem. É uma das minhas neuroses. O vício que lhe dá origem é a gutembergomania, uma dependência patológica na palavra impressa. Na falta dela, qualquer palavra serve, já saí de cama de hotel no meio da noite e entrei no banheiro para ver se as torneiras tinham «Frio» e «Quente» escritos por extenso, para saciar minha sede de letras, já ajeitei o travesseiro, ajustei a luz e abri a lista telefónica, tentando me convencer que, pelo menos no número de personagens, seria um razoável substituto para um romance russo. Já revirei cobertores e lençóis, à procura de uma etiqueta, qualquer coisa.
Alguns hotéis brasileiros imitam os americanos e deixam uma Bíblia no quarto, e ela tem sido a minha salvação, embora não no modo pretendido. Nada como um best-seller numa hora dessas. A Bíblia tem tudo para acompanhar uma insónia: enredo fantástico, grandes personagens, romance, o sexo em todas as suas formas, ação, paixão, violência - e uma mensagem positiva. Recomendo «Génesis» pelo ímpeto narrativo, «O cântico dos cânticos» pela poesia e «Isaías» e «João» pela força dramática, mesmo que seja difícil dormir depois do Apocalipse.


Luis Fernando Veríssimo, "Fobias" in Comédias para se ler na Escola.

Quarta-feira, Dezembro 02, 2009

75 anos da Mensagem

O MOSTRENGO

O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
A roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,

E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:

«El-Rei D. João Segundo!»
«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,

Três vezes rodou imundo e grosso.
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»

E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-Rei D. João Segundo!»
Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,

E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme

E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»

Fernando Pessoa


Comemoraram-se ontem 75 anos da publicação da Mensagem de Fernando Pessoa,
um dos textos mais emblemáticos sobre a alma portuguesa

Terça-feira, Dezembro 01, 2009

Dia Mundial da Luta contra a Sida


imagem daqui

Segunda-feira, Novembro 30, 2009

Sugestões

Dizia Álvaro de Campos que "a melhor maneira de viajar é sentir". Embora seja mais adepta da viagem que implica a deslocação física entre um e outro ponto, admito que há muita verdade na afirmação. Não há viagem sem sentimentos e sem sentir tudo, muito, intensamente. Talvez inspirada por este e outros aforismos ou afirmações, surgiu o livro ideal para os amantes da leitura, de Fernando Pessoa em especial e de viajar. O Livro de Viagem reúne textos do poeta português sobre a mesma temática: a viagem. Podem encontrar-se excerptos de Fernando Pessoa ortónimo, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro. Estou mesmo tentada a escrever uma cartinha ao velhote das barbas brancas para ver se ele se lembra de me deixar este livro no sapatinho. E ainda: cumprem-se hoje 74 anos sobre a morte de Fernando Pessoa. Tinha apenas 47 anos quando partiu.



Sexta-feira, Novembro 27, 2009

Dia de Acção de Graças


Norman Rockwell, "Freedom from want" (1943)

O Dia de Acção de Graças é um dos feriado mais intensamente comemorado nos Estados Unidos da América. Celebra a primeira colheita que foi feita após a chegada dos colonos à e que só foi possível com a colaboração dos Índios.

Quinta-feira, Novembro 26, 2009

Receita de Leitura (18)


Dose de Amostra
Quando eu sair daqui, vamos nos casar na fazenda da minha feliz infância, lá na raiz da serra. Você vai usar o vestido e o véu da minha mãe, e não falo assim por estar sentimental, não é por causa da morfina. Você vai dispor dos rendados, dos cristais, da baixela, das jóias e do nome da minha família. Vai dar ordens aos criados, vai montar no cavalo da minha antiga mulher. E se na fazenda ainda não houver luz eléctrica, providenciarei um gerador para você ver televisão. Vai ter também ar condicionado em todos os aposentos da sede, porque na baixada hoje em dia faz muito calor. Não sei se foi sempre assim, se meus antepassados suavam debaixo de tanta roupa. Minha mulher, sim, suava bastante, mas ela já era de uma nova geração e não tinha a austeridade da minha mãe. Minha mulher gostava de sol, voltava sempre afogueada das tardes no areal de Copacabana. Mas nosso chalé em Copacabana já veio abaixo, e de qualquer forma eu não moraria com você na casa de outro casamento, moraremos na fazenda da raiz da serra. Vamos nos casar na capela que foi consagrada pelo cardeal arcebispo do Rio de Janeiro em mil oitocentos e lá vai fumaça. Na fazenda você tratará de mim e de mais ninguém, de maneira que ficarei completamente bom. E plantaremos árvores, e escreveremos livros, e se Deus quiser ainda criaremos filhos nas terras de meu avô.

Chico Buarque, (2009), Leite Derramado, Lisboa, Dom Quixote.

Composição
Leite Derramado contém princípios activos potencialmente causadores de incómodo: um homem centenário, a braços com a sua memória, falido e doente em estado terminal num hospital modesto. E é neste estado que o outrora garboso e bem sucedido Eulálio d’Assumpção reconta a sua vida num longo monólogo. Através dele assistimos a dois séculos de transformações políticas e sociais e ao desenrolar das vidas de várias gerações d’Assumpção que se despenham do seu estatuto privilegiado para aterrar na decadência. E a Matilde. Matilde que perpassa o texto. Quem será Matilde?

Indicações
Recomenda-se a leitura de Leite Derramado a todos os amantes da leitura. Indivíduos que tenham seguido a escrita do grande músico brasileiro devem ler o livro sem quaisquer restrições. Os amantes da literatura brasileira experimentaram sensações de regozijo. Leitores com forte pendor histórico observaram sensações gerais de bem-estar. Leitores fervorosos da arquitectura sentiram o apelo de confirmar no Rio de Janeiro as metamorfoses urbanísticas da Cidade Maravilhosa. Leitores românticos foram vistos à procura de Matilde e outros curiosos a espreitar a última casa de Eulálio nos fundos de uma Igreja Evangélica.

Precauções
Indivíduos preconceituosos em relação à velhice não devem ler este livro sob pena de serem traídos por Eulálio d’Assumpção. Astuto e bem-falante o centenário não poupa no pedantismo nem dá tréguas aos seus interlocutores. Caso seja sugestionável e comece a sentir um desejo miudinho de verificar in loco o relato do velho d’Assumpção deve descontinuar a leitura ou poderá acordar na Cidade Maravilhosa na senda do casarão de Botafogo. Indivíduos familiarizados com sagas familiares de decadência experimentaram pontualmente ansiedade e ocasionalmente identificação com o velho Eulálio d’Assumpção.

Outras apresentações
Se gostou de Leite Derramado aventure-se nos outros três romances de Chico Buarque. Ler não tem contra-indicações. Quanto mais, melhor.