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quinta-feira, dezembro 23, 2010

terça-feira, dezembro 07, 2010

Es weihnachtet

Não gosto de chuva. Não gosto de tempo cinzento. Não gosto de vento. Não gosto de frio. Odeio Inverno. Contudo, quando pela primeira vez fui ao mercado de Natal em Munique, no ano seguinte ao de Budapeste, depois ao de Praga e no ano a seguir ao de Viena, a minha vida mudou e passei a saber apreciar a vida estranha de uma encasacada entre iluminações, tendas de artesanato, anjos e coroas de flores secas aromatizadas com laranja, canela e cravinho e uma caneca de Glühwein, escaldante e perfumado, titubeantemente aconchegada entre as mãos gélidas, enganosamente cobertas de luvas invernosas. E não há sol nem calor. Há uma magia oculta, quem sabe reminiscências de Natais passados e felizes, no calcorrear de ruelas estreitas que sossobram às barraquinhas coloridas e decoradas com cuidado, a nuvem de ar espesso e branco que se eleva das verbalizações quase monossilábicas dos vendedores, conversa apenas no indispensável para que ocorram pequenas trocas comerciais, o dinheiro contado na palma da mão enluvada, rostos brilhantes encafuados em gorros pungentes e o pescoço envolto no carinho aconchegante de um cachecol volumoso, um obrigado e um adeus. A luz estridente que se propaga no contraste das noites precoces e assustadoramente negras de um Dezembro final, aromas que se desprendem das mais diversas iguarias, o restolhar mansinho dos passos vagarosos e da roupa volumosa dos transeuntes e o bater de perna mercado acima e abaixo sempre acompanhado da constatação tão óbvia do frio omnipresente. Estranhos prazeres para uma alma estival. Doce contradição. 

 Praga
fotografia minha

quinta-feira, dezembro 17, 2009

A Christmas Poem

At Christmas little children sing and merry bells jingle,
The cold winter air makes our hands and faces tingle
And happy families go to Church and cheerly they mingle
And the whole business is unbelievable dreadful, if you’re single


Wendy Cope, (2008), Two Cures for Love, London, Faber and Faber

sábado, dezembro 12, 2009

Natal

E agora que o Natal está à porta deixo-vos com este clip. Dá que pensar.

quarta-feira, dezembro 24, 2008

Feliz Natal

foto: minha

Christmas Life

If you don't have a real tree you don't bring the Christmas life into the house." Josephine Mackinnon, aged 8

The Christmas life

Bring in a tree, a young Norwegian spruce,
Bring hyacinths that rooted in the cold.
Bring winter jasmine as its buds unfold -
Bring the Christmas life into this house.


Bring red and green and gold, bring things that shine,
Bring candlesticks and music, food and wine.
Bring in your memories of Christmas past.
Bring in your tears for all that you have lost.


Bring in the shepherd boy, the ox and ass,
Bring in the stillness of an icy night,
Bring in the birth, of hope and love and light.
Bring the Christmas life into this house.

Wendy Cope

Para ouvir Wendy Cope a declamar o poema clicar aqui.

quarta-feira, dezembro 17, 2008

Mercados de Natal

Algures entre os finais de Novembro e o início de Dezembro surgem nos países de expressão alemã, nomeadamente Alemanha e Áustria, e em outros países da Europa Central e de Leste, Mercados de Natal. Na Alemanha, por exemplo, cada uma das cidades, vilas e aldeias tem um Mercado de Natal que variará de acordo com as dimensões da terra que o acolhe. Os de Munique e de Nuremberga são os mais famosos e chamam muitos turistas às cidades.
Muito populares, eles oferecem a oportunidade de conviver com os amigos. É comum verem-se grupos de pessoas a confraternizar, entreter os sentidos com as iguarias tradicionais e doçaria típica e a fazer compras. A oferta é variada, porém, não podem faltar decorações de natal artesanais feitas de produtos naturais entre os quais se destacam canela e cravinho e que libertam um aroma quente e adocicado, o contributo precioso para o ambiente natalício e o antídoto contra o frio cortante que se faz sentir.
A acompanhar a doçaria é obrigatório, não há Mercado de Natal sem ele, beber um vinho quente aromatizado com especiarias. Na Alemanha chama-se Glühwein e é muitíssimo popular. Para os abstémios ou para as crianças existem ponches quentes à disposição. Posso garantir-vos que são absolutamente deliciosos e obrigatórios.
Nenhuma destas experiências natalícias está completa sem música. Assim cada um dos Mercados, tem um programa específico, onde actuam grupos corais ou de instrumentos para dar o toque especial de magia à quadra.
Passear pelos Mercados é uma experiência muito curiosa e uma explosão de cor, regra geral, proveniente das decorações de Natal em exposição nas bancas.
E tudo assim fica até dia 24 de Dezembro. Depois dessa data só nos resta esperar para o ano seguinte. Até lá entretenham-se com um passeio entre as bancas, ao som da música de Natal, bebendo um Glühwein.

Christkindlmarkt, Viena
foto: minha

sexta-feira, dezembro 14, 2007

Uma Escola, muitas culturas

Longe vai o tempo em que a Escola se vestia apenas de uma cor, apenas de uma língua e apenas de uma forma de estar. Com o advento de novas realidades sociais, a escola tornou-se o cadinho de culturas onde a diferença convive saudavelmente e onde podemos aprender ainda mais sobre outros hábitos, culturas e países. A nossa Escola não é excepção, portanto, se querem saber mais, leiam os textos abaixo, recolhidos para o placard organizado pela patrona da nossa Biblioteca e que podem ler e contemplar à porta da Biblioteca/Centro de Recursos. Quem não pode cá vir ou já leu, tem agora a oportunidade de (re)ler os textos na íntegra aqui no nosso blogue.

Norwegian Christmas

You can say that the Christmas in Norway starts at the first of December. Because that’s when we start the “countdown” to the 24th of December, we start to decorate the streets with Christmas trees and Christmas decorations. We also start to bake Christmas cookies, hang up the Christmas calendar (a special calendar that starts at the 1st of December and counts down to the 24th of December, and every day you have to open the calendar and there you get a little gift, usually chocolate or candy). Also almost all of the TV canals start to send Christmas cartoons.
Then at the 23 of December the whole family is usually together, and we decorate the Christmas tree, and put all the presents under it.
Then on the 24th of December, we celebrate Christmas. We usually start the day by going to church (not everybody does that) and then go home and watch Christmas cartoons, and eat the candy from our Christmas stockings. At lunch it’s normal to eat a traditional Norwegian porridge. And we sometimes have a little game that is called “find the almond in the porridge”. We put only one almond in the porridge before serving the porridge, and then the person who get’s the almond in the porridge, wins a marzipan pig. It’s kind of an old tradition, so not many people really know why we do this.
Then at around 6 o’clock we have the traditional Christmas dinner, it usually consist of salted and dried rib of mutton, potatoes, sausages, mashed potatoes, and foxberry jam.
Then after the dinner we open all the presents, and then we have dessert. And the rest of the evening we have fun, enjoying the company of our family, and maybe watch a little bit TV. (it’s always a lot of Christmas cartoons and series on TV at Christmas, and a lot of them are series they send every Christmas, so it is kind of a tradition to watch some of them).


Ingvild Slevolden, 12º A, aluna do Programa Intercultura

O Natal do Brasil

O Natal do Brasil é diferente do de Portugal por razões variadas:
• no Brasil é verão;
• a noite toda é festa;
• a comida é variada com churrasco, maionese e arroz branco e com frutos secos que não podem faltar;
• há uma mesa com frutas variadas e decoradas: mamão, melancia, etc.;
O Natal no Brasil é uma época do ano que representa alegria e muita festa.
Na noite do dia 24 de Dezembro há muita alegria. O calor é motivo de grandes celebrações em todo o lado, em casa, na rua ou em casa dos amigos.
Os pratos principais são o churrasco e maionese (uma salada parecida com a salada russa). Come-se também pavê e panettone que é o bolo típico do Natal, muito parecido com o bolo-rei, e que não pode faltar na noite de Natal e na passagem de ano. À meia-noite há troca de prendas, como em Portugal, e depois continua-se com as danças. A festa continua até amanhecer.
Como se pode ver, o clima é o principal motivo de festa no Brasil, pois podemos escolher lugares ao ar livre, ao contrário de Portugal que, nesta época do ano, está muito frio e toda a gente está dentro de casa.
Mas, apesar de todas as diferenças, acreditamos nas mesmas coisas, o que torna o Natal parecido no sentido espiritual. É um período que tem como objectivo unir as famílias e os amigos.

Glicyan Lima, 12º G

Natal

Para confirmar o que é o Natal
Consultei há dias o dicionário
E lá estava… o que eu já sabia
É a festa do nascimento do filho de Maria
Que mais tarde… foi para o calvário.

Natal para mim… é família
É partilha… união… solidariedade
É olhar todas as crianças com Amor
É não ficar indiferente à dor
É dar as mãos aos de mais idade.

É não pensar só em si
É ter no outro… um irmão
É estar sempre inquieto
Enquanto houver alguém por perto
Que necessite de Pão.

E o Pão… não é só alimento
Não é só estômago aconchegado
É não estar só neste Mundo
É olhar p’ra dentro bem no fundo
É ser-se melhor … que no passado.

Mas Natal… também é esperança
É ternura… é sonho… é fé
Poderá ser ainda encanto e magia
Se acreditarmos no filho de Maria
E no Homem… que foi José…


Maria Lucinda F. Gomes Silva Santos, Auxiliar de Acção Educativa

Natal na Moldávia

A República da Moldávia tem as suas tradições muito variadas, ricas e originais, as mais interessantes são relativas aos feriados de Inverno.
Na Moldávia, os ortodoxos reúnem-se para celebrar o dia de Natal no dia 7 de Janeiro, enquanto os católicos celebram o Nascimento de Cristo nos dias 24-25 de Dezembro. No dia 7 de Janeiro fazemos um jantar diferente, trocando presentes entre as pessoas mais queridas e mais próximas da família. A árvore de Natal, que simboliza para nós a vida e saúde, também está presente nas casas. Normalmente é uma árvore natural.
Na noite do Fim do Ano, no dia 31 de Dezembro, reúne-se, por fim, toda a família e os amigos para comemorar a passagem do Ano. Nesta noite temos uma tradição especial onde as crianças andam nas casas das pessoas (vizinhos) a cantar "pluguşorul", o canto especial para Ano Novo a desejar às pessoas muita saúde e felicidades para o ano novo que está a chegar, às vezes usando a campainha e, em troca, recebendo doces e dinheiro.
Também temos o Avô Gelo (Moş Crăciun), que simboliza o Inverno e a velhice do ano que está a acabar. É ele que "deixa" os presentes para todos membros da família, com especial atenção as crianças. Há pessoas que se vestem de Avô Gelo. À meia-noite há fogo de artifício e as pessoas brindam ao Ano Novo.
O Ano Novo e o Natal são muito diferentes na Moldávia. Faz muito frio, chega aos 25-30° abaixo de zero, e fica tudo branquinho por causa da neve.
Como há muitos moldavos em Portugal e como estão a habituar-se a uma cultura diferente, passam cá dois Natais: um Natal português e outro moldavo.


Cristina Martnos
12º I

sexta-feira, dezembro 07, 2007

Livros, claro!

E agora que o Natal se aproxima vertiginosamente de nada adiantará dizer que, infelizmente, a festividade se veste com todas as cores do consumismo. É uma verdade, mas um lugar-comum também, tão comum que poucos pararão para pensar e continuarão a fazer compras desmesuradamente, comendo além do razoável e praticando alguns excessos que nada têm a ver com o espírito cristão da época mas que tudo têm a ver com a prática que se foi instituindo ao longo do tempo.
Cá no De Mês em Quando, o Natal é sóbrio, sem excessos, mas obviamente não ficamos de fora e, portanto, aqui vimos fazer sugestões de presentes. E qual será o melhor presente nesta época? Livros, claro. Os livros não se esgotam numa leitura, não passam de moda, são um belíssimo antídoto para a solidão, uma maneira óptima de crescermos, viajarmos, aprendermos e, claro, de nos divertirmos também. É certo que o preço dos livros é o seu único senão. Estão caros, não há qualquer dúvida, mas se pensarmos que o podemos ler uma vez, deixar o pai ou mãe, um irmão ou uma irmã, fazê-lo também, a seguir emprestá-lo a um amigo ou amiga ou colega de escola para depois, se assim o entendermos, a ele voltar, o investimento compensa. O prazer imenso que um livro nos dá compensa logo à partida, já se sabe. Pensem nisto. Um livro é para sempre.

quinta-feira, dezembro 06, 2007

Nikolaustag

ou seja Dia de São Nicolau. Na Alemanha, Áustria, Suiça e na Holanda hoje é o dia dedicado a este santo. Da história sabe-se que São Nicolau viveu no século IV, em Myra, na Antália, uma cidade da Anatólia, território pertencente hoje à Turquia, provinha de famílias abastadas e que se dedicou a ajudar os pobres. A lenda vai mais longe e conta que São Nicolau terá salvo abnegadamente três jovens mulheres de uma vida de mágoa, sacrifício e sofrimento. Do mito e da realidade nasceu o costume e o hábito de dedicar este dia às crianças. Espera-se que São Nicolau faça uma visita às crianças na noite de 5 para 6 de Dezembro. Se se portaram bem durante o ano, São Nicolau encarregar-se-á de as compensar e deixa-lhes nas botas, que as crianças colocaram para o efeito à porta do quarto, guloseimas. Mas nem tudo são rosas e se se portaram mal, Ruprecht, o ajudante de São Nicolau trata de as castigar, deixando, às vezes, um pau no lugar das esperadas guloseimas.
As semelhanças entre o Pai Natal dos tempos modernos e o São Nicolau são algumas: ambos se vestem de vermelho, são amigos das crianças e correm de casa a casa distribuindo alegria e presentes. Não obstante, cada um tem o seu lugar nas festividades de Natal que se aproxima e, nos países mencionados, hoje é um dia de grande alegria.

sexta-feira, dezembro 15, 2006

Merry Christmas

Esse tempo não chegara ainda. Ela sabia, não obstante, que ele chegaria. Se calmo ou impetuoso desconhecia porém. Sabia apenas que quando chegasse, ela amaldiçoar-se-ia por um dia ter desejado que houvesse saltos no calendário e que, dessa forma, se excluíssem meses, festividades e celebrações que secretamente começava a odiar. Detestava obrigações.
Estava certa que, nesse tal tempo vindouro, três coisas lhe faltariam: o aroma da canela a espraiar-se pela casa, o sorriso complacente e carinhoso do pai, a euforia infantil e contagiante da mãe. Se mais lhe faltaria não se lhe permitia agora adivinhar. O futuro deve permanecer incerto para que o presente se torne suportável.
Enquanto esse tempo desenhado no futuro se mantinha distante, repartia os dias numa pacata existência com sobressaltos esporádicos reflexos de outros sobressaltos passados.
Apaziguava-se com a vida nos dias de sol e calor. Amargurava-se com o viver nos meses de frio e chuva. A canícula do zénite não lhe toldava o sentir, uma brisa mais áspera amarrotava-lhe, por vezes, o ser. O Inverno deixara há muito de ser um período de tempo balizado por dois momentos exactos no calendário do qual arrancava pequenas folhas mentalmente, apenas presas por um picotado indelével. Desejava amiúde poder arrancar, de igual forma, as memórias tortuosas do calendário da sua memória. Tal não lhe era permitido, contudo. Sem memória deixamos de ser quem fomos para passar a ser quem somos, pensava, e assim deslizava por entre a invernia e o estio com o que era e o que fora.
Mal se aproximavam as primeiras chuvas e o sol se escondia abrupto e sem timidez lá ao fundo no horizonte platinado que avistava da janela da cozinha e se, no alpendre de casa, os pés lhe arrefeciam sem aviso nos chinelos veraneantes, decretava ser daí em diante Inverno.
Com o Inverno surgiam as castanhas assadas na praça da vila piscatória, sovada pelo mesmo mar que lhe acenava da janela da cozinha, o chilrear dos pássaros nessa mesma praça e a bruma obstinada, ora como uma cortina esvoaçante, ora como uma manta opaca e pesada, suspensa meses a fio. No início do seu Inverno comprava sempre uma abóbora, e esventrando-a sobre a bancada da cozinha, reduzia-a a doce, distribuindo-o posteriormente pelos vizinhos. A linguagem dos afectos raramente se socorre de palavras.
No decorrer de todos os Invernos surgia invariavelmente com o desconforto do frio, que sem cerimónias se lhe instalava na alma, uma data incontornável no calendário cristão. Em criança agradara-lhe esta data. Havia alegria e despreocupação no ar. Os dias eram contados com esmero e ansiedade. O dia propriamente dito, quando chegava, era tão desejado que mal se podia fazer esperar e todos os minutos e horas pareciam eternidades inatingíveis. Tudo isto lugares-comuns, tão comuns e banais como a própria existência. Questionava-se se, caso na sua vida não habitassem todos estes lugares comuns revestidos da menor importância para o decurso da humanidade, a própria vida teria sentido. Esperando um momento de excelência acima do comum dos mortais arriscava-se a ver a vida passar a seu lado, passear-se ali mesmo, rapioqueira e displicente. Imaginava-se estática no cais de embarque e a vida sorridente, acenando-lhe da janela do comboio em movimento.
No início desse mesmo Inverno decidiu que talvez pudesse ser diferente e, por assim ser, povoando-lhe a mente o sonho de que, noutras paragens, seria decerto diverso o sentir e fazer da tal data comemorativa, fez as malas e partiu à descoberta.
Partir era uma eterna vontade, um chamamento constante e incessante. Nesta partida estava contida a curiosidade e o desejo desse Natal que ao longo da vida lhe parecera mais autêntico, mais genuíno e espiritual, o Natal dos cânticos, das crianças vestidas a rigor de gorros e luvas, em tons de verde e vermelho com uns salpicos de dourado e uns farrapos de neve alva nos cocurutos das casas e das árvores altaneiras, não o Natal branco imortalizado pelos cantores americanos esbanjando charme e glamour, antes o Natal mais soturno e acolhedor ao jeito do Velho Continente, o Natal de Dickens decididamente, iluminado com velas e candeias seguras por pequenas mãos enluvadas contra a inclemência do Inverno, cantado um uníssono por vozes imberbes.
Quando acordou na capital britânica estava leve e renovada. Para trás, as obrigações e responsabilidades, as contas do mês e as compras do supermercado, os detergentes e branqueadores, o papel higiénico e os guardanapos. Saiu para a rua feliz e despreocupada. Consigo, além do companheiro de viagens e de vida, apenas o júbilo dos irresponsáveis.
Havia gente, gente e mais gente. Turistas de cores e linguajares diferenciados coloriam as ruas, preenchiam os mercados como um imenso pontilhado numa tela, povoavam os parques desnudados como uma pincelada mais brilhante contra o cinzento pastoso, assombravam os cantos mais recônditos da cidade, deixando-a desvelada perante os olhares perscrutadores, privada da sua própria intimidade. Uns carregavam sacos, quase todos apressados e de passo estugado, outros detinham-se em frente dos monumentos e, esboçando um sorriso ou articulando uma pose consentânea com a ocasião, deixavam-se fotografar para na posteridade recordar tais dias, talvez, se na posteridade memória deste passado existir ou exibir, num tempo mais imediato e próximo, no escritório a colegas e conhecidos como atestado da incursão à velha Albion.
A imensa mole humana avançava como uma torrente para as lojas, cuja música, entrecortada pelo o barulho persistente da máquina registadora, se esvaía no turbilhão de vendilhões. Depressa concluiu que o Natal dos livros que lera era mais belo que o que se pavoneava na sua frente e a arrastava a espaços numa enxurrada de compras, sacos e pacotes, lembranças e presentes. O aroma da canela a espraiar-se pela casa, o sorriso complacente e carinhoso do pai, a euforia infantil e contagiante da mãe surgiram-lhe na memória. Confirmou que dessas sentiria falta um dia.
E foi assim que numa encruzilhada alguém vindo não se sabe de onde os abordou. Ela olhou-o de soslaio. Era um homem magro de feições vincadas e rosto longo. Trazia no semblante um sorriso aberto e nos gestos um desembaraço gingão. Destacava-se no meio da multidão. Era alto ainda que algo curvo, carcomido pelo tempo decerto, talvez por um tempo incerto. As vestes pardacentas repeliram-na instintivamente. Ele permaneceu imperturbável, aparentando nada lhe afectar a manifesta falta de à-vontade dela. Abeirou-se afável. Ambos pararam expectantes. Ao que viria permanecia um mistério.
Ele não se mostrou minimamente incomodado perante a rigidez dos passeantes. Abeirou-se do rapaz e pediu-lhe um cigarro no seu linguajar anglófono. De seguida, aconchegou-se na rapariga e, quase segredando-lhe ao ouvido, proferiu algo que até hoje não se deixou divulgar. Ela sorriu algo tímida, ruborizando levemente em sintonia com a cor do casaco que envergava. O rapaz a seu lado assistia complacente. Pegou então na mão enluvada da rapariga e colocou-lhe um beijo mesmo na palma da mão, fechando-a carinhosamente. Despediu-se do rapaz, agarrou-o, deu-lhe um abraço vigoroso como só os homens sabem fazer e enquanto se afastava ligeiro entre a diabólica multidão, soltou um “merry christmas”.
Leonor Barros©