terça-feira, novembro 09, 2010

Nacos de Prosa Saramaguiana (3)

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?

Carlos Drummond de Andrade


E agora, José?

Há versos célebres que se transmitem através das idades do homem, como roteiros, bandeiras, cartas de marear, sinais de trânsito, bússolas – ou segredos. Este, que veio ao mundo muito depois de mim, pelas mãos de Carlos Drummond de Andrade acompanha-me desde que nasci, por desses misteriosos acasos que fazem do que viveu já, do que vive e do que ainda não vive, um mesmo nó apertado e vertiginoso de tempo sem medida. Considero privilégio meu dispor deste verso, porque me chamo José e muitas vezes na vida me tenho interrogado: “E agora, José?” Foram aquelas horas em que o mundo escureceu, em que o desânimo se fez muralha, fosso de víboras, em que as mãos ficaram vazias e atónitas. “E agora, José?” Grande, porém, é o poder da poesia para que aconteça, como juro que acontece, que esta pergunta simples aja como um tónico, um golpe de espora, e não seja, como poderia ser, tentação, o começo da interminável ladainha que é a piedade por nós próprios.
Em todo o caso, há situações de tal modo absurdas (ou o que o pareceriam vinte e quatro horas antes), que não se pode censurar a ninguém um instante de desconforto total, um segundo em que tudo dentro de nós pede socorro, ainda que saibamos que logo a seguir a mola pisada, violentada, se vai distender vibrante e verticalmente afirmar. Nesse momento veloz tocara-se o fundo do poço.
Mas outros Josés andam pelo mundo, não o esqueçamos nunca. A eles também sucedem casos, desencontros, acidentes, agressões, de que saem às vezes vencedores, às vezes vencidos. Alguns não têm nada nem ninguém a seu favor, e esses são, afinal, os que tornam insignificantes e fúteis as nossas penas. A esses, que chegaram ao limite das forças, acuados a um canto pela matilha, sem coragem para o último ainda que mortal arranco, é que a pergunta de Carlos Drummond de Andrade deve ser feita, como um derradeiro apelo ao orgulho de ser homem: “E agora, José?”
Precisamente um desses casos me mostra que já falei demasiado de mim. Um outro José está diante da mesa onde escrevo. Não tem rosto, é um vulto apenas, uma superfície que treme como uma dor contínua. Sei que se chama José Júnior, sem mais riqueza de apelidos e genealogias, e vive em São Jorge da Beira. É novo, embriaga-se, tratam-no como se fosse uma espécie de bobo. Divertem-se à sua custa alguns adultos, e as crianças fazem-lhe assuadas, talvez o apedrejem de longe. E se isto não fizeram, empurraram-no com aquela súbita crueldade das crianças, ao mesmo tempo feroz e cobarde, e o José Júnior, perdido de bêbedo, caiu e partiu uma perna, ou talvez não, e foi para o hospital. Mísero corpo, alma pobre, orgulho ausente – “E agora, José?”
Afasto para o lado os meus próprios pesares e raivas diante deste quadro desolado de uma degradação, do gozo infinito que é para os homens esmagarem outros homens, afogá-los deliberadamente, aviltá-los, fazer deles objecto de troça, de irrisão, de chacota – matando sem matar, sob a asa da lei ou perante a sua indiferença. Tudo isto porque o pobre José Júnior é um José Júnior pobre. Tivesse ele bens avultados na terra, conta forte no banco, automóvel à porta – e todos os vícios lhe seriam perdoados. Mas assim, pobre, fraco e bêbedo, que grande fortuna para São Jorge da Beira. Nem todas as terras de Portugal se podem gabar de dispor de um alvo humano para darem livre expansão a ferocidades ocultas.
Escrevo estas palavras a muitos quilómetros de distância, não sei quem é José Júnior, e teria dificuldade em encontrar no mapa São Jorge da Beira. Mas estes nomes apenas designam casos particulares de fenómeno geral: o desprezo pelo próximo, quando não o ódio, tão constantes ali como aqui mesmo, em toda a parte, uma espécie de loucura epidémica que prefere as vítimas fáceis. Escrevo estas palavras num fim de tarde cor de madrugada com espumas no céu, tendo diante dos olhos uma nesga do Tejo, onde há barcos vagarosos que vão de margem a margem levando pessoas e recados. E tudo isto parece pacífico e harmonioso como os dois pombos que pousam na varanda e sussurram confidencialmente. Ah, esta vida preciosa que vai fugindo, tarde mansa que não será igual amanhã, que não serás, sobretudo, o que agora és.
Entretanto, José Júnior está no hospital, ou saiu já e arrasta a perna coxa pelas ruas frias de São Jorge da Beira. Há uma taberna, o vinho ardente e exterminador, o esquecimento de tudo no fundo da garrafa, como um diamante, a embriaguez vitoriosa enquanto dura. A vida vai voltar ao princípio. Será possível que a vida volte ao princípio? Será possível que os homens matem José Júnior? Será possível?
Cheguei ao fim da crónica, fiz o meu dever. “E agora, José?”

José Saramago, in A Bagagem do Viajante.

Naco de prosa escolhido pela professora Teresa Simões

Naco de prosa saramaguiana...

já de seguida. Leiam um belíssimo naco escolhido pela professora Teresa Simões. Não percam!

segunda-feira, novembro 08, 2010

eu sou tu e tu és eu

quero ser a tua estrela,
vou dar ter o meu papel,
ser a tua vida e
dar-te o que e meu,
quero ser a escolhida,
para entrar na tua vida,
não ser apenas uma simples amiga...
quero ser o teu mar,
a tua praia,
quero o teu olhar,
cada dia que passa,
quero ser eu a tua vida,
ter te comigo e ser a escolhida...
sem ti eu não consigo viver...
quero estar ao teu lado,
e dar-te prazer,
quero ser a tua estrela do céu,
eu sou tu e tu és eu....

Anastasia Myrna, 12º F


Ao amor de Baltasar e Blimunda

Hoje...

temos uma participação muito especial de uma aluna da nossa Escola. Esqueçam a prosa por momentos e preparem-se para a poesia que vai magnetizar este blogue.

domingo, novembro 07, 2010

O livro

Não sendo mulher de fé nem de fervores místicos, a Bíblia, para mim, é apenas um livro. Fundamental na cultural ocidental, inspirador para muitos, crentes ou não crentes, prenhe de uma imaginação delirante em alguns episódios e carecida de uma explicação racional nos mesmos ou noutros, que contudo podem encontrar na sua força metafórica a solução para o irresolúvel nas mentes pragmáticas. Sendo um livro, como qualquer outro, permite uma pletora infindável de interpretações, tantas quanto os leitores e tantas quanto os contextos sociais, políticos e religiosos o permitirem. A História prova-o e não é por acaso que, regendo-se pelo mesmo livro, existem religiões diferentes, cristãs na sua essência, mas com diferenças substanciais quanto a ritos e práticas, todas elas com um denominador comum: a Bíblia. Se perguntarmos a uma Testemunha de Jeová por que não comemora aniversários ou o Natal, ela responderá porque não está na Bíblia, se questionarmos um rastafari por que fuma erva a resposta será porque está na Bíblia. Sendo para mim um livro, a Bíblia não é mais do que isso, portanto, para mim, descrente, as palavras de Saramago reflectem, além da sua condição de provocador implacável, papel que cumpre com mestria, a literatura deve ser sempre provocação, uma interpretação. A Bíblia pode não ser apenas “um manual de maus costumes”, mas pode também sê-lo se o isolarmos da palavra de Deus. Saramago tem direito à sua interpretação.


Leonor Barros

Texto repescado do Delito de Opinião, escrito aquando da publicação de Caim.

Ouçam o texto...

a aproximar-se. Um meu, desta vez.

sexta-feira, novembro 05, 2010

Da generosidade

Muito ao contrário daquilo que a notícia em rodapé de um serviço noticioso aparenta ou talvez o hábito de uma boa polémica à maneira de José Saramago, desta vez não foi a censura, as almas acaloradas tão céleres a defender a moral vigente e os costumes bolorentos. Desta vez foi apenas o reconhecimento dos seus pares e a generosidade imensa de dar lugar a outros. Foi assim que foi anunciado aqui que Caim, a último livro do escritor, seria retirado dos dez finalistas do Prémio Portugal Telecom. Daqui aplaudo.

Uma Personagem em Construção (1)

UMA PERSONAGEM EM CONSTRUÇÃO
Ou como, em Memorial do Convento, de José Saramago, se reescreve a História, construindo um herói com os homens que a História olvida

I

“Todos os homens são reis, rainhas são todas as mulheres, e príncipes os trabalhos de todos.”
SARAMAGO, José, Memorial do Convento, 16ª ed., Lisboa, Caminho, 1986, cap. VII, p. 72

Esta afirmação do narrador resume uma das várias linhas de sentido que se entretecem em Memorial do Convento, conduzindo o leitor à assunção do ideal que a Revolução Francesa perpetuou na divisa “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”. O romance permite, de facto, considerar a possibilidade histórica de concretização do sonho de uma sociedade em que os homens partilhem fraternalmente o trabalho e o poder: vejam-se, por exemplo, as relações igualitárias estabelecidas entre o casal Baltasar/ Blimunda e o padre Bartolomeu Lourenço ou o músico Domenico Scarlati.
Por outro lado, e em simultâneo, no discurso recorre-se com frequência ao paralelismo antitético, para se evidenciar o antagonismo entre o poder real e religioso e a imensa mole humana que nada tem nem nada pode. A reiteração dessa oposição entre as duas situações sugere a presença, no texto, de uma linha de sentido que legitimaria uma interpretação da narrativa fundamentada na doutrina estético-literária neo-realista.
É certo que, nas entrelinhas ou muito denotativamente, em Memorial do Convento se representa a miséria em que vivem e labutam “os homens”, se denuncia a prepotência de D. João V e se critica o conformismo promovido pela Igreja. E certo é, também, que (n)a narrativa (se) veicula a possibilidade de redenção humana:

José Pequeno (...) perguntou, Como é que um boieiro se faz homem, e Manuel Milho respondeu, Não sei. Sete-Sóis atirou o calhau para a fogueira e disse, Talvez voando.
XIX, 264

No entanto, o maniqueísmo de semelhante interpretação seria demasiado redutor: Memorial do Convento não é um romance neo-realista, e não apenas porque na narrativa não há revolta, mas calada resignação ou alegre zelo popular no bodo que eram os autos-de-fé, as procissões ou as touradas. Não o é, seja pelo estilo vertiginoso do autor, criando a cada passo a sensação de improviso coloquial e, ao mesmo tempo, a cada passo provocando a eclosão da subjectividade, seja, sobretudo, pelo modo como são tratadas as categorias da narrativa e, em particular, o narrador(i) e o tempo.
Por norma, o romance neo-realista privilegia os tempos do pretérito, típicos da narrativa, e institui um narrador heterodiegético que, preocupado com a objectividade, assume quase sempre uma focalização externa. Ora, em Saramago, o estatuto do narrador é muito mais complexo, verdade bem ilustrada no texto de Memorial do Convento, onde a enunciação, confiada a um “nós” homodiegético:

De quantos pertencem ao alfabeto da amostra e vão a Pêro Pinheiro, pese-nos deixar ir sem vida contada aquele Brás (...).
XIX, 242

pode, contudo, surgir na voz de um narrador de terceira pessoa capaz de, a seu bel-prazer, se transfigurar no “eu” de uma das personagens:

(...) era o Francisco Marques que aproveitava a ocasião para ir enforcar-se entre as pernas da mulher, (...) ou não será tal a ideia, talvez queira apenas estar com os filhos, dar uma palavra à esposa, cortejá-la somente, sem pensar em fornicações que teriam de ser apressadas porque os companheiros vêm aí atrás, e pelo menos a Pêro Pinheiro convém que chegue ao mesmo tempo que eles, já estão passando, afinal sempre me deitei contigo (...).
XIX, 243

À complexidade em que se define a presença do narrador, associa-se também um matizado espectro de pontos de vista narrativos que, de uma para outra sequência, ou mesmo no seio de uma única sequência, podem balancear da omnisciência ao intimismo da focalização interna, passando, ainda, pela objectiva visão testemunhal:

O sino da igreja de Santo André, no fundo do vale, deu as trindades. Por sobre a Ilha da Madeira, nas ruas e terreiros, dentro das tabernas e casas de acomodação, ouve-se um murmúrio longínquo, como o do mar ao longe. Estariam vinte mil homens dizendo a oração da tarde, estariam contando uns aos outros a sua vida, vá lá averiguar-se.
XVIII, 238

A originalidade deste narrador resulta, ainda, do tratamento dado à categoria tempo, pressuposto, aliás, no próprio título, já que o nome “Memorial” remete para a contemporaneidade entre a história e quem a relata. Todavia, e em paralelo, o narrador define-se também em função do tempo do discurso que ele próprio enuncia, deste modo se assumindo como entidade capaz não só de produzir e garantir a veracidade da história, porque a presenciou, como ainda de a confrontar com acontecimentos posteriores que também conhece, por serem anteriores ao tempo da escrita, do qual é igualmente contemporâneo. Assim se explica o uso do presente e do futuro do indicativo, índices de um sujeito narrativo que tanto sabe apenas o que vive como o todo que a omnisciência lhe permite saber:

(...) faça as contas quem quiser, que a laje tem de comprimento trinta e cinco palmos, de largura quinze e a espessura é de quatro palmos (...) e quando um dia se acabarem palmos e pés por se terem achado metros na terra, irão outros homens a tirar outras medidas e encontrarão sete metros, três metros, sessenta e quatro centímetros, tome nota, e porque também os pesos velhos levaram o caminho das medidas velhas, em vez de duas mil cento e doze arrobas, diremos que o peso da pedra da varanda da casa a que se chamará de Benedictione é de trinta e um mil e vinte e um quilos, trinta e uma toneladas em números redondos, senhoras e senhores, e agora passemos à sala seguinte, que ainda temos muito que andar.
XIX, 245

Tudo se passa, afinal, como se ao narrador fosse dado “viver” o tempo tal como o concebe o autor, que o entende como “uma tela imensa” onde tudo se mantém “espalmado” lado a lado, numa “arrumação caótica” à qual necessário é, depois, “encontrar um sentido. (ii)
Viajando nessa “tela”, habitando-a, o narrador convoca o passado e encontra nele sentido(s) que a História negligencia. Reescreve-a, então, destacando aqueles que nela são menosprezados. Para tal, institui como protagonista essa gente de que a História não fala, mas cujas vidas, ficcionadas, passam a ser

(...) mais verdadeiras que os casos verdadeiros que elas contam (...)”
XII, 137

E é isso que procuraremos entender adiante: como é que de uma multidão anónima, calejada e exausta, se constrói um dos heróis do romance, e ainda como, arrancando ao anonimato um grupo restrito desses homens, se consegue refractar, “(...) na sua história e no seu discurso uma maneira de ser, uma identidade bem portuguesa (...)” . (iii)
Tentaremos, por fim, compreender ainda como, partindo das acções desses homens, do seu espaço físico e social e dos seus atributos, se chega à configuração de um sentido indiciador da necessidade de lembrarmos que, no passado como no presente, todos os homens são iguais. E, também, da obrigação de, no presente como no passado, nunca esquecermos “(...) que usamos perversamente a razão quando humilhamos a vida, que a dignidade do ser humano é todos os dias insultada pelos poderosos do nosso mundo, que a mentira universal tomou o lugar das verdades plurais, que o homem deixou de respeitar-se a si mesmo quando perdeu o respeito que devia ao seu semelhante.” (iv)
______________________________________

(i) No que concerne a esta categoria, julgamos haver alguma precipitação, quando se afirma: “É toda uma descrição minuciosa do tamanho da pedra, das reacções de homens e animais (...), mas, mais importante que todo este aparato épico, é, sem dúvida, o objectivo de enfatizar, em confronto com o poder régio, o peso político-ideológico, aos olhos do narrador neo-realista, da força humana e animal.” – MONIZ, António, Para uma Leitura de Memorial do Convento de José Saramago. Uma proposta de leitura crítico-didáctica, Lisboa, Editorial Presença, 1995, p. 97, sublinhado nosso).

(ii) Cf. REIS, Carlos e M. LOPES, Cristina, Dicionário de Narratologia, 6ª ed., Coimbra, Livraria Almedina, 1998, pp. 80 e seguintes.

(iii) Cf. op. cit. nota i, p. 32.

(iv) SARAMAGO, José, Discursos de Estocolmo, Lisboa, Caminho, 1999, p. 32.


Adriano Alcântara
Professor de Português e Francês
Escola Secundária José Saramago – Mafra
Janeiro de 2000

(continua)

Atenção!

Espera-nos mais um texto. De quem será desta vez?

quinta-feira, novembro 04, 2010

Nacos de Prosa Saramaguiana (2)

O dia seguinte era domingo, e domingo é o dia de levar o cão a passear. Amor com amor se paga, parecia dizer-lhe o animal, já com a trela na boca e a postos para o passeio. Quando, já no parque, o violoncelista se encaminhava para o banco onde era costume sentar-se, viu, de longe, que uma mulher já se encontrava ali. Os bancos de jardim são livres, públicos e em geral gratuitos, não se pode dizer a quem chegou primeiro que nós, Este banco é meu, tenha a bondade de ir procurar outro. Nunca o faria um homem de boa educação como o violoncelista, e menos ainda se lhe tivesse parecido reconhecer na pessoa a famosa mulher do camarote de primeira ordem, a mulher que havia faltado ao encontro, a mulher a quem vira no meio da sala de música com as mãos cruzadas sobre o peito.
Como se sabe, aos cinquenta anos os olhos já não são de fiar, começamos a piscar, a semicerrá-los como se quiséssemos imitar os heróis do faroeste ou os navegadores de antanho, em cima do cavalo ou à proa da caravela, com a mão em pala, a esquadrinhar os horizontes distantes. A mulher está vestida de maneira diferente, de calças e casaco de pele, é com certeza outra pessoa, isto diz o violoncelista ao coração, mas este, que tem melhores olhos, diz-te que abras os teus, que é ela, e agora vê lá bem como te vais portar. A mulher levantou a cabeça e o violoncelista deixou de ter dúvidas, era ela. Bons dias, disse quando se deteve junto do banco, hoje poderia esperar tudo, mas não encontrá-la aqui, Bons dias, vim para me despedir e pedir-lhe desculpa por não ter aparecido ontem no concerto.
O violoncelista sentou-se, tirou a trela ao cão, disse-lhe Vai, e, sem olhar a mulher, respondeu, Não tenho nada que desculpar-lhe, é uma coisa que está sempre a suceder, as pessoas compram bilhete e depois, por isto ou por aquilo, não podem ir, é natural, E sobre o nosso adeus, não tem opinião, perguntou a mulher, É uma delicadeza muito grande da sua parte considerar que deveria vir despedir-se de um desconhecido, ainda que eu não seja capaz de imaginar como pôde saber que venho a este parque todos os domingos, Há poucas coisas que eu não saiba de si, Por favor, não regressemos às absurdas conversas que tivemos na quinta-feira à porta do teatro e depois ao telefone, não sabe nada de mim, nunca nos tínhamos visto antes, Lembre-se de que estive no ensaio, E não compreendo como o conseguiu, o maestro é muito rigoroso com a presença de estranhos, e agora não me venha para cá com a história de que também o conhece a ele, Não tanto como a si, mas você é uma excepção, Melhor que não o fosse, Porquê, Quer que lho diga, quer mesmo que lho diga, perguntou o violoncelista com uma veemência que roçava o desespero, Quero, Porque me apaixonei por uma mulher de quem não sei nada, que anda a divertir-se à minha custa, que irá amanhã sei lá para onde e que não voltarei a ver, É hoje que partirei, não amanhã, Mais essa, E não é verdade que tenha andado a divertir -me à sua custa, Pois se não anda, imita muito bem, Quanto a ter-se apaixonado por mim, não espere que lhe responda, há certas palavras que estão proibidas na minha boca, Mais um mistério, E não será o último, Com esta despedida vão ficar todos resolvidos, Outros poderão começar, Por favor, deixe-me, não me atormente mais, A carta, Não quero saber da carta para nada, Mesmo que quisesse não lha poderia dar, deixei-a no hotel, disse a mulher sorrindo, Pois então rasgue-a, Pensarei no que devo fazer com ela, Não precisa pensar, rasgue-a e acabou-se. A mulher pôs-se de pé. Já se vai embora, perguntou o violoncelista. Não se havia levantado, estava de cabeça baixa, ainda tinha algo para dizer. Nunca lhe toquei, murmurou, Fui eu que não quis que me tocasse, Como o conseguiu, Para mim não é difícil, Nem sequer agora, Nem sequer agora, Ao menos um aperto de mão, Tenho as mãos frias. O violoncelista ergueu a cabeça. A mulher já não estava ali.
Homem e cão saíram cedo do parque, as sanduíches foram compradas para comer em casa, não houve sestas ao sol. A tarde foi longa e triste, o músico pegou num livro, leu meia página e atirou-o para o lado. Sentou-se ao piano para tocar um pouco, mas as mãos não lhe obedeceram, estavam entorpecidas, frias, como mortas. E, quando se voltou para o amado violoncelo, foi o próprio instrumento que se lhe negou. Dormitou numa cadeira, quis afundar-se num sono interminável, não acordar nunca mais. Deitado no chão, à espera de um sinal que não vinha, o cão olhava-o. Talvez a causa do abatimento do dono fosse a mulher que apareceu no parque, pensou, afinal não era certo aquele provérbio que dizia que o que os olhos não vêem, não o sente o coração. Os provérbios estão constantemente a enganar-nos, concluiu o cão. Eram onze horas quando a campainha da porta tocou. Algum vizinho com problemas, pensou o violoncelista, e levantou-se para ir abrir. Boas noites, disse a mulher do camarote, pisando o limiar, Boas noites, respondeu o músico, esforçando-se por dominar o espasmo que lhe contraía a glote, Não me pede que entre, Claro que sim, faça o favor. Afastou-se para a deixar passar, fechou a porta, tudo devagar, lentamente, para que o coração não lhe explodisse. Com as pernas tremendo acompanhou-a à sala de música, com a mão que tremia indicou-lhe a cadeira. Pensei que já se tivesse ido embora, disse, Como vê, resolvi ficar, respondeu a mulher, Mas partirá amanhã, A isso me comprometi, Suponho que veio para trazer a carta, que não a rasgou, Sim, tenho-a aqui nesta bolsa, Dê-ma, então, Temos tempo, recordo ter-lhe dito que as pressas são más conselheiras, Como queira, estou ao seu dispor, Di-lo a sério, É o meu maior defeito, digo tudo a sério, mesmo quando faço rir, principalmente quando faço rir, Nesse caso atrevo-me a pedir-lhe um favor, Qual, Compense-me de ter faltado ontem ao concerto, Não vejo de que maneira, Tem ali um piano, Nem pense nisso, sou um pianista medíocre, Ou o violoncelo, É outra coisa, sim, poderei tocar-lhe uma ou duas peças se faz muita questão, Posso escolher, perguntou a mulher, Sim, mas só o que estiver ao meu alcance, dentro das minhas possibilidades. A mulher pegou no caderno da suite número seis de bach e disse, Isto, E muito longa, leva mais de meia hora, e já começa a ser tarde, Repito-lhe que temos tempo, Há uma passagem no prelúdio em que tenho dificuldades, Não importa, salta-lhe por cima quando lá chegar, disse a mulher, ou nem será preciso, vai ver que tocará ainda melhor que rostropovitch. O violoncelista sorriu, Pode ter a certeza. Abriu o caderno sobre o atril, respirou fundo, colocou a mão esquerda no braço do violoncelo, a mão direita conduziu o arco até quase roçar as cordas, e começou. De mais sabia ele que não era rostropovitch, que não passava de um solista de orquestra quando o acaso de um programa assim o exigia, mas aqui, perante esta mulher, com o seu cão deitado aos pés, a esta hora da noite, rodeado de livros, de cadernos de música, de partituras, era o próprio johann sebastian bach compondo em cothen o que mais tarde seria chamado opus mil e doze, obras elas quase tantas como foram as da criação. A passagem difícil foi transposta sem que ele se tivesse apercebido da proeza que havia cometido, mãos felizes faziam murmurar, falar, cantar, rugir o violoncelo, eis o que faltou a rostropovitch, esta sala de música, esta hora, esta mulher. Quando ele terminou, as mãos dela já não estavam frias, as suas ardiam, por isso foi que as mãos se deram às mãos e não se estranharam. Passava muito da uma hora da madrugada quando o violoncelista perguntou, Quer que chame um táxi para a levar ao hotel, e a mulher respondeu, Não, ficarei contigo, e ofereceu-lhe a boca. Entraram no quarto, despiram-se e o que estava escrito que aconteceria, aconteceu enfim, e outra vez, e outra ainda. Ele adormeceu, ela não. Então ela, a morte, levantou-se, abriu a bolsa que tinha deixado na sala e retirou a carta de cor violeta. Olhou em redor como se estivesse à procura de um lugar onde a pudesse deixar, sobre o piano, metida entre as cordas do violoncelo, ou então no próprio quarto, debaixo da almofada em que a cabeça do homem descansava. Não o fez. Saiu para a cozinha, acendeu um fósforo, um fósforo humilde, ela que poderia desfazer o papel com o olhar, reduzi-lo a uma impalpável poeira, ela que poderia pegar-lhe fogo só com o contacto dos dedos, e era um simples fósforo, o fósforo comum, o fósforo de todos os dias, que fazia arder a carta da morte, essa que só a morte podia destruir. Não ficaram cinzas. A morte voltou para a cama, abraçou-se ao homem e, sem compreender o que lhe estava a suceder, ela que nunca dormia, sentiu que o sono lhe fazia descair suavemente as pálpebras. No dia seguinte ninguém morreu.

José Saramago, As Intermitências da Morte


Naco de prosa escolhido pela professora Ana Gonçalves.

Aceitam-se apostas

Está mesmo a chegar mais um naco de prosa saramaguiana escolhida pela Professora Ana Gonçalves da nossa Escola. Qual será a obra eleita? Adianto apenas que também é um dos livros da minha preferência.

quarta-feira, novembro 03, 2010

Do meu memorial

Ter nascido e crescido à vista e à sombra de um monumento como o Convento de Mafra alguma influência há-de ter na pessoa que sou e no modo como vejo a vida. Eu já sabia muita coisa sobre a história do colosso, tal como a aprendi na escola, nos livros, nos velhos. Sabia que tinha sido construído por capricho ou vontade de um rei que eu considerava ser da minha terra. Sabia das histórias de fantasmas como a do capitão-sem-cabeça e das ratazanas gigantescas nos esgotos, ameaçando invadir a vila. Sabia chamar "musaninhos" às salas com janelas ovaladas lá no alto. Sabia o que eram escadas de caracol quando subia à torre para ver um amigo tocar os carrilhões. Sabia histórias dos santos de pedra, com pés enormes para os meus olhos de menina de metro e pouco. Havia os amigos que moravam "lá dentro" e os que eram cá "de fora". Conhecia cantos escusos que não eram dados a saber a visitantes. Ficaria horas a falar do tempo em que eu e o convento nos entendíamos, como menina e casa grande que lhe escuta os segredos.
Um dia apareceu um livro que pôs lá dentro o meu convento e o levou a correr mundo, Chama-se “Memorial do Convento” e foi escrito por José Saramago, o escritor que eu já admirava muito desde que lera “Levantados do Chão”. Fiquei tão orgulhosa. Li o livro com encantamento, com pressa. Eu sabia que a minha casa grande um dia havia de ser falada. A casa e os homens que a fizeram e que por ela sofreram e morreram. Logo que a oportunidade surgiu, corri ao encontro do autor. Precisava de lhe dizer: "Gostei que me tivesse ensinado a ver Mafra sem o convento. Agora olho para o monte antes dele e consigo pensar-me doutro modo". Foi mais ou menos assim, com um pequenino nervoso, que lhe disse, enquanto ele se preparava para me autografar o livro. As mãos belíssimas de Saramago detiveram-se, levantou a cabeça, fixou-me por um segundo, sorriu com aquele seu jeito de sorrir sem lábios, e escreveu: "Para a Licínia que é de Mafra". Se alguma dúvida tivesse, Saramago ter-me-ia dado a certeza de que a esta terra pertenço.


Texto e fotografia de Licínia Quitério
Poetiza e natural de Mafra
Autora do blogue O Sítio do Poema

Quase...

quase a chegar mais uma excelente contribuição.

terça-feira, novembro 02, 2010

Nacos de Prosa Saramaguiana (1)

"Falta-nos reflexão, pensamento, necessitamos do trabalho de pensar, parece-me que sem ideias não vamos a lado algum."

José Saramago, Outros Cadernos de Saramago



A escolha de Isabel Leal, jornalista da Rádio Concelho de Mafra.

Nacos de Prosa Saramaguiana

Já já de seguida teremos mais uma contribuição. Mantenha-se atento.

Destaque

do Mês Saramago na página da Fundação José Saramago.

segunda-feira, novembro 01, 2010

La sencillez de Saramago, tan humanamente monumental

Saramago escribía como si fuera un campesino: preparaba la tierra, la abonaba, la limpiaba, sembraba. Todo en su estación, dos páginas por día, sin impaciencias, sin saltarse ningún surco, ninguna obligación. A veces tenía que dejar descansar la tierra, entonces aprovechaba para poner al día la correspondencia con amigos, tarea nunca acabada, leía, releía, iba a las escuelas y a las universidades que insistentemente solicitaban su presencia, como en Mafra, presentaba libros en países que le eran más cercanos emocionalmente, militaba, aunque esto último, militar como ciudadano, era, como el pan, cosa de cada día. Saramago no desfalleció nunca, por eso sus libros tienen, como la espiga cuajada, tanto para dar de comer. Que es necesidad de todos, comer, leer.
Me preguntan de dónde sacaba tiempo Saramago para tanta declaración pública, para tanta acumulación de obra, para tanto prestar su voz. Lo sé, lo he visto: sacaba tiempo de su espíritu, por eso tal vez se le consumió la carne. José Saramago era un pionero, estaba poseído por un afán de no repetir, de empezar cada día un camino, porque nunca sabemos cual será el que nos lleve a donde nos esperan. Tampoco sabemos qué nos espera, salvo la muerte, pero ese destino, el morir, es lo único que tenemos asegurado, así que Saramago se empeñaba cada amanecer en conquistar la vida, hacer de ella algo digno, o, mejor dicho, estar en ella como si la dignidad la tuviéramos que ganar porque el hecho de vivir es una responsabilidad de la que no podemos abdicar. No es lo mismo vivir que dejarse vivir, Saramago lo sabía con su propio saber y fue consciente de esa obligación hasta el último minuto. Días antes del que iba a ser el último, hablando de la crisis económica con varios amigos, Saramago dijo algo que podría ser una buena brújula para moverse por estas turbulencias tan amenazantes como tenebrosas. Nos dijo que todos, gobiernos y ciudadanos, sabemos lo que tenemos que hacer para salir de la crisis, que para cambiar la vida tendríamos que cambiar de vida. Y añadió que si no intervenimos ya, todos, gobiernos y ciudadanos, la crisis será cada vez más profunda, porque no será económica, será una crisis moral.
Cambiar de vida para cambiar la vida. Hacer del progreso un logro del humanismo, no del capital. Hacer de la economía una ciencia moral que no nos cuente porqué suben los precios y sí un instrumento que enseñe a impedir que los precios suban de tal manera que luego todo explote y los pobres sean más pobres y los países tengan que hipotecarse y no se deban ya a los ciudadanos, la soberanía no radique en el pueblo sino en instituciones lejanas, oscuras, inalcanzables.
Saramago era un escritor literario con muchos lectores, millones de lectores en todo el mundo, que lo amaban y se lo decían. Pero era también un ciudadano consciente, por eso le decían tantas veces: “eres mi voz, habla tú que puedes”, o “qué va a pasar con nosotros cuando te vayas de aquí, de nuestra comunidad perseguida y apaleada”. Sí, a Saramago lo reclamaban como última instancia, como último recurso, le llamaban de Timor o las comunidades zapatistas de México, o Madres contra la droga, o indios mapuches desposeídos de sus territorios y condenados a la ignominia, u Hombres por la igualdad, o jóvenes que buscan recuperar su memoria desenterrando de las cunetas donde la iniquidad los mantiene a los abuelos asesinados tras la guerra civil española, o saharauis sin estado, aunque con todos las declaraciones internacionales a favor, o palestinos vejados en la que también es su tierra, o en la que fue su última causa, Los sin papeles franceses, amenazados y ya expulsados de Francia. Saramago atendía siempre a quienes le reclamaban y se presentaban con atributos humanos, por eso era tratado con displicencia por los que practican la ideología de la insolencia y del cinismo.
Ir a la luna, y a Marte es un buen proyecto, pero antes hay que llegar al otro, como dijo Saramago el día que recibió el Nobel, ante el asombre de tantos, que pensaban que el discurso era para hacer unas bromas. Pero el escritor, el ciudadano, aprovechó que se cumplían 50 años de la Declaración Universal de los Derechos Humanos y no dejó pasar la ocasión, solemne, principal, contando una anécdota de su vida si podía dar noticia del mundo. Dijo Saramago aquella noche de hace 12 años en Estocolmo algo que aún hoy es más urgente:

«Las injusticias se multiplican, las desigualdades se agravan, la ignorancia crece, la miseria se expande. La misma esquizofrénica Humanidad, capaz de enviar instrumentos a un planeta para estudiar la composición de sus rocas, asiste indiferente a la muerte de millones de personas a causa del hambre. Se llega más fácilmente a Marte que a nuestro propio semejante.»

Saramago estaba escribiendo un libro cuando murió, pero también tenía entre manos algo que otros tendrán que terminar. Se lo pedimos su Fundación, la Fundación Saramago, le dijimos que elaborara la Carta de los Deberes Humanos y que ya la iríamos llevando por ahí, de esquina en esquina, con nuestra modestia y nuestra tremenda osadía. No le dio tiempo a terminarla, alguien tendrá que hacerla, alguien con arrojo y dedicación, alguien tan imprescindible como Saramago, con una generosidad tan furiosamente humana.
José Saramago ha levantado nuestro tiempo y le ha dado personalidad. También a nosotros, con su obra y con su discurso, nos infunde aliento para seguir adelante y para construir otros monumentos, quizá no el Convento de Mafra, que ya está ahí, tal vez otros capaces de albergar la armonía necesaria para vivir nuestra humana condición. La que compartimos con José Saramago, nuestro contemporáneo.

Pilar del Río

A simplicidade de Saramago, tão humanamente monumental

Saramago escrevia como se fosse um camponês: preparava a terra, adubava-a, limpava-a, semeava. Tudo a seu tempo, duas páginas por dia, sem impaciências, sem omitir um sulco, uma responsabilidade. Às vezes tinha que deixar descansar a terra, e então aproveitava para pôr em dia a correspondência com os amigos, tarefa nunca acabada, lia, relia, ia às escolas e às universidades que insistentemente solicitavam a sua presença, como em Mafra, apresentava livros em países que lhe eram mais próximos emocionalmente, militava, ainda que este militar, militar como cidadão, fosse, como o pão, coisa de cada dia. Saramago não desfalecia nunca, por isso os seus livros têm, como a espiga colhida, tanto para dar de comer. Que é uma necessidade de todos, comer, ler.
Perguntam-me de onde tirava Saramago tempo para tanta declaração pública, para tanta acumulação de trabalho, para tanto emprestar a sua voz. Eu sei-o, vi: tirava tempo do seu espírito, talvez por isso se lhe se consumiu a carne. José Saramago era um pioneiro, estava possuído por um afã de não repetir, de começar a cada dia um caminho, porque nunca sabemos qual será aquele que nos leve aonde nos esperam. Tão-pouco sabemos o que nos espera, a não ser a morte, mas esse destino, morrer, é o único que temos assegurado, por isso Saramago se empenhava a cada amanhecer em conquistar a vida, fazer dela algo digno, ou melhor, estar nela como se tivéssemos que ganhar a dignidade porque o facto de viver é uma responsabilidade de que não podemos abdicar. Viver não é o mesmo que deixar-se viver, Saramago sabia-o com o seu próprio saber e esteve consciente dessa obrigação até ao último minuto. Dias antes do que haveria de ser o último, falando da crise económica com vários amigos, Saramago disse algo que poderia ser uma boa bússola para nos orientarmos por estas turbulências tão ameaçadoras quanto tenebrosas. Disse-nos que todos, governos e cidadãos, sabemos o que temos de fazer para sair da crise, que para mudar a vida teríamos que mudar de vida. E acrescentou que se não intervimos já, todos, governos e cidadãos, a crise será cada vez mais profunda, porque não será económica, será uma crise moral.
Mudar de vida para mudar a vida. Fazer do progresso um êxito do humanismo, não do capital. Fazer da economia uma ciência moral que não nos diga por que sobem os preços mas antes um instrumento que ensine como impedir que os preços subam de tal maneira que logo tudo seja exploração, os pobres cada vez mais pobres, os países hipotecando-se em vez de deixarem de dever aos cidadãos e a soberania não radicando no povo mas em instituições distantes, obscuras, inalcançáveis.
Saramago era um escritor literário com muitos leitores, milhões de leitores em todo o mundo, que o amavam e lho diziam. Mas era também um cidadão consciente, por isso lhe diziam tantas vezes: «és a minha voz, fala tu, que podes», ou «o que vai ser de nós quando te fores embora, da nossa comunidade perseguida e agredida». Sim, recorriam a Saramago como última instância, como último recurso, reclamavam-no Timor ou as comunidades zapatistas do México, ou as Mães contra a droga, ou os índios mapuches despojados dos seus territórios e condenados à ignomínia, ou os Homens pela igualdade, ou os jovens que procuram recuperar a sua memória desenterrando das valas onde a iniquidade mantém os seus avós assassinados pela guerra civil espanhola, ou os saauris sem Estado, ainda que com todas as declarações internacionais a seu favor, ou os palestinos humilhados na que é também a sua terra, ou a que foi a sua última causa, os sem-papéis franceses, ameaçados e depois expulsos de França. Saramago atendia sempre a quem o reclamasse e se apresentasse com predicativos humanos, por isso era tratado com displicência pelos que praticam a ideologia da insolência e do cinismo.
Ir à Lua ou a Marte são projectos bons, mas antes há que chegar ao outro, como disse Saramago no dia em que recebeu o Nobel, perante o assombro de tantos que pensavam que o discurso era para dizer umas coisas engraçadas. Mas o escritor, o cidadão, aproveitou o facto de se cumprirem 50 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos e não deixou passar a ocasião, solene, primordial, contando um facto divertido da sua vida se podia, em vez disso, dar a notícia ao mundo. Saramago disse naquela noite há doze anos, em Estocolmo, algo que ainda hoje é mais urgente:

    «As injustiças multiplicam-se no mundo, as desigualdades agravam-se, a ignorância cresce, a miséria alastra. A mesma esquizofrénica Humanidade que é capaz de enviar instrumentos a um planeta para estudar a composição das suas rochas, assiste indiferente à morte de milhões de pessoas pela fome. Chega-se mais facilmente a Marte neste tempo do que ao nosso próprio semelhante.»

Saramago estava a escrever um livro quando morreu, mas também tinha em mãos algo que outros terão que terminar. Pedimos-lhe, a sua Fundação, a Fundação José Saramago, dissemos-lhe que elaborasse a Carta dos Deveres Humanos e que com ela iríamos por aí, de esquina em esquina, com a nossa modéstia e a nossa tremenda ousadia. Não teve tempo de terminá-la, alguém terá de fazê-lo, alguém com arrojo e dedicação, alguém tão imprescindível como Saramago, com uma generosidade tão furiosamente humana.
José Saramago ergueu o nosso tempo e deu-lhe personalidade. Também a nós, com a sua obra e com o seu discurso, nos infunde alento para seguir em frente e para construir outros monumentos, talvez não o Convento de Mafra, que já aí está, talvez outros capazes de albergar a harmonia necessária para viver a nossa humana condição. A que partilhamos com José Saramago, nosso contemporâneo.

Pilar del Río

Versão portuguesa, gentilmente traduzida pela Fundação José Saramago

Mês Saramago - Abertura

E eis-nos chegado ao mês que viu nascer um dos escritores maiores do nosso tempo. Sendo professora na Escola que alberga o seu nome, contra ventos e marés, não podia deixar de destacar a efeméride. A vida deve ser sempre celebrada e o nome daquele que levou o país mais longe, deu um contributo inegável para que Mafra restituísse o seu nome maldito onde jovens homens eram duramente treinados para combater na Guerra do Ultramar, e colocou Mafra no mapa universal da literatura, trazendo à vila milhares de visitantes todos os anos na senda do Memorial do Convento, deve ser sempre honrado e lembrado com a gratidão devida. Começaremos com um excelente texto de Pilar del Río a quem agradeço ter gentilmente aceitado o convite que lhe foi endereçado para abrir esta singela homenagem ao escritor maior que foi José Saramago. Comecemos então.

sexta-feira, outubro 29, 2010

quarta-feira, outubro 27, 2010

Nacos de prosa saramaguiana

Ainda no âmbito desta iniciativa e indicado para aqueles que não gostam ou não têm tempo de escrever aqui vai uma alternativa. Se é leitor de Saramago, cruzou-se certamente com momentos de enorme prazer na fruição de pedaços, bocados, excertos, parágrafos, verdadeiramente nacos de prosa que ficaram e ficarão em nós depois de lida a última palavra e os livros remetidos à triste vida de estante, onde só ganham pó.   Quais são os nacos de prosa saramaguiana que vos acompanham? Ficamos à espera.

Verdadeiramente revolucionário

sexta-feira, outubro 22, 2010

Mês Saramago

No próximo mês de Novembro, José Saramago, o patrono da nossa Escola, celebraria mais um aniversário. Assim, o blogue 'De Mês em Quando' vai comemorar o patrono, vida e obra. Solicito a todos os que queiram participar nesta iniciativa que enviem para o e-mail na barra lateral o que quiserem: textos, desenhos, cartoons, fotografias, citações, comentários/críticas à obra do patrono. Todos os textos serão publicados no blogue durante o mês de Novembro. 

 fotografia minha
Exposição "A Consistência dos Sonhos"

Receita de Leitura (24)

Dose de Amostra

A manhã seguinte, no entanto, guardava um mistério.
Nas costas do Parque Eduardo VII, frente à Igreja de São Sebastião da Pedreira, do outro lado dos grandes armazéns espanhóis, abrira-se um buraco enorme. Um fosso no chão de Lisboa, do tamanho duma banheira grande - um alçapão de palco, daqueles por onde desaparecem as partenaires dos mágicos —, disse um taxista que não conseguia fazer pegar o carro que já dera a volta ao conta-quilómetros, pelo menos milhão e meio o meu carro fez, fui à Lua e voltei duas vezes, duas vezes sim, fiz as contas e nunca troquei de motor, disse o homem coçando a cabeça, mas este buracão na estrada parece truque de ilusionismo. A ideia ganhou força e espalhou-se com a segunda e terrível descoberta.
O Comandante operacional dos sapadores bombeiros falava da sorte que era ninguém ter caído lá dentro, como às vezes acontece a carros e até autocarros em Lisboa. Não se esqueçam que isso sucede quando chove desta maneira louca, é uma cidade toda mal feita no solo e subsolo, cheia de ribeiras domesticadas com canos gigantes, que não está nem nunca esteve pronta para precipitações, brincou ele, felizmente até agora os veículos automóveis ficaram sempre entalados, o rabo de fora, por serem demasiado grandes para a fenda respectiva.

Rui Cardoso Martins, (2009), Deixem passar o homem invisível, Alfragide, Dom Quixote.

Composição
Um homem cego, uma criança e a cidade de Lisboa sob um temporal diluviano são os compostos base deste romance, o segundo de Rui Cardoso Martins. Cheio de aventura, com um toque de mistério e uma pitada de supense, este livro é de leitura acessível e sempre agradável, mesmo quando a natureza desaba sobre Lisboa e o infortúnio une as personagens principais. Deixem passar o homem invisível foi recentemente galardoado com o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores.

Indicações
Deixem passar o homem invisível é recomendado a todos os amantes de boas prosas, sem artifícios barrocos e minimalismos desmesurados. Está particularmente indicado a leitores receptivos a novos autores. Indivíduos curiosos sobre a rede subterrânea da cidade de Lisboa experimentaram sensações fugazes de felicidade. Deve ser lido com reservas pelos adoradores do sol e céu azul.

Precauções
Bem tolerado por quase todos os indivíduos, Deixem passar o homem invisível pode causar episódios pontuais de claustrofobia em leitores mais sugestionáveis pela prosa convincente e bem conseguida. Se sentir arrepios e um aperto no peito pela vida nos subterrâneos de Lisboa deve descontinuar a leitura de imediato. Os amantes da cidade de Lisboa experimentaram episódios de desolação pelo estado catastrófico da sua cidade ao longo da narrativa. Em leitores pessimistas podem ocorrer momentos de desespero pelo cego e a criança encurralados nas entranhas de Lisboa. Não deve desistir da leitura neste caso, lembre-se de que a “a esperança é a última a morrer”.

Outras apresentações
A leitura de Rui Cardoso Martins não deve ser descontinuada. Enquanto não surge outro livro do escritor não perca o seu primeiro romance E se eu gostasse muito de morrer e entretenha-se com as crónicas “A Nuvem de Calças” aos Domingos, na revista do jornal “Público”.

quarta-feira, outubro 20, 2010

Receituário


É fácil. Pegue num livro. Um de que goste naturalmente. Abra. Leia e releia. Leia desordenadamente. Um pedaço aqui. Um paragráfo duas páginas à frente. Confira o fim e o início. E olhe-o. Há livros que gostam de ser olhados. Deixe-o sentar-se na alma e começar a soltar emoções. Depois passeie-se com o livro dentro. Apanhe os últimos raios de sol deste Outubro glorioso. E espere. Espere que das palavras surja um sentido. É assim que vou fazendo. É assim que a mais recente receita de leitura está quase quase a sair.

quarta-feira, outubro 13, 2010

Conversations with myself (2)

Saiu ontem para as livrarias o mais recente livro de Nelson Mandela. Intitula-se Conversations with myself e com ele o grande líder carsimático pretende desconstruir a imagem endeusada de um homem que afirma não ser nenhum santo e que diz ter sofrido "fraquezas, erros e imprudências." Com o prefácio de Barack Obama, esta autobiografia reúne uma panóplia de documentos pessoais, notas, diários da prisão, os calendários desse mesmo tempo e cartas redigidas por Mandela e foi lançado em doze países. Cá em Portugal será lançado no fim deste mês de Outubro com o título Conversas Íntimas. Caso seja uma bibliómano e o inglês não constitua barreira sugiro a compra on-line aqui. Será certamente mais barato e mais rápido do que a edição portuguesa e nada como aceder ao original. Faça o que fizer este será um livro a não perder, um testemunho fundamental para melhor compreender o grande Madiba.

Conversations with myself (1)

sábado, outubro 09, 2010

quinta-feira, outubro 07, 2010

Prémio Nobel da Literatura 2010

O conhecidíssimo e aclamado escritor peruano, Mário Vargas Llosa, foi hoje agraciado com o Prémio Nobel da Literatura. A Academia Sueca elogiou a escrita do laureado pela “sua cartografia de estruturas de poder e suas imagens vigorosas sobre a resistência, revolta e derrota individual". Mário Vargas Llosa, além de escritor, é também um homem de convicções fortes e de grande consciência e activismo políticos.

Mais sobre a atribuição do Nobel a Vargas Llosa aqui.
Reacções ao Prémio Nobel da Literatura 2010 aqui.

terça-feira, outubro 05, 2010

A arte de transgredir

Da autoria de Nuno Medeiros esta galeria de individualidades passou hoje, dia 5 de Outubro, a fazer parte da nossa recém inaugurada Escola Secundária José Saramago. Além do talento inegável, existe, a meu ver, uma mensagem da qual não nos devemos nunca esquecer: não há criação artística sem transgressão. Começando em Pessoa e acabando em Saramago todos eles foram transgressores no seu tempo e ousaram, não só Almada Negreiros, ir contra a corrente de forma assumida e seguir, contra ventos e marés, o seu talento e impulso criativo e criador. As expressões artísticas não se compadecem com canons impostos. Talvez por isso sejam sempre tão inspiradoras e é por isso que continuarão para gerações vindouras.

quinta-feira, setembro 30, 2010

quarta-feira, setembro 29, 2010

Dentro de mim faz Sul

Além do prazer da leitura compro livros por quatro razões diferentes: pelo autor, se um autor me agrada compro tudo dele. Acontece-me sempre com Mia Couto, José Eduardo Agualusa, Mário de Carvalho, Ondjaki e mais recentemente com valter hugo mãe. António Lobo Antunes e José Saramago já fizeram parte desta lista. O primeiro saiu porque há escritores para a eternidade mas há outros que ocupam um lugar temporário, assim foi com Lobo Antunes. Continuo a ler as crónicas mas tendo em conta a infinitude de livros, resolvi pô-lo de lado e dar oportunidade a outros. José Saramago não foi obviamente uma escolha. A morte do escritor assim o ditou, talvez o maior drama para os leitores seja a morte do escritor, uma ausência irreparável na ausência de próximos livros. A segunda razão, que pode excluir esta primeira, prende-se com o título. Se o título for apelativo e se os primeiros parágrafos e outros que escolho aleatoriamente do meio do livro me agradarem é certo que, mais cedo ou mais tarde, comprarei o livro. A terceira razão é a opinião dos amigos e pessoas que considero, o mesmo critério que uso para as viagens, as opiniões selectivas de quem considero podem ser determinantes. A quarta razão tem a ver com a crítica, mas mais uma vez apenas se for feita por alguém em quem confio e não apenas mais uma língua de letras nos suplementos da especialidade.
Este último livro que comprei conciliou a primeira e a segunda razões. A primeira, o autor/escritor, Ondjaki, a segunda o título, Dentro de mim faz Sul. Não me consigo lembrar de um outro título que me tenha enchido a alma desta forma nos últimos tempos. Provavelmente porque também dentro de mim faz sempre um sul. Há um sol e um calor húmidos. Há o gemido dos coqueiros. Há sorrisos largos. Luas redondas e aromas de Verão. Há pores do sol com bruma e uma nostalgia redentora. Há mares calmos e turquesa, mares batidos e profundos. Chuvas fortes e cheiro a clorofila. Um calor húmido que nos abraça. Dentro de mim faz este sul e outros. Muitas vezes. Sempre.

terça-feira, setembro 28, 2010

Comments welcome

Não gosto de blogues sem comentários. Parecem-me um contra-senso, já que quem bloga, bloga para alguém, se não poderia continuar a escrever para a gaveta e não trazer à luz do ecrã e do mundo o que lhe vai na alma. Reconheço que podem aparecer comentadores inconvenientes, mal-educados e à procura de conflitos, basta dar uma volta na blogosfera para constatar este facto. Por uma razão ou por outra, quando iniciei este blogue fechei-lhe os comentários. Temporariamente, julgava eu, porque um ou dois meses depois, quando quis abrir os comentários, o blogue recusou-se. Desconfio sempre que a tecnologia ganha vida própria se lhe dermos demasiada confiança, adquire o feitio caprichoso dos gatos e tenta fazer sempre o que quer e só quando quer. Provavelmente terá sido o que aconteceu com este blogue. Esteve uns anos amuado, mas um destes dias consegui ser mais forte, ah malvado, julgavas que me castigavas sempre, e restituir os comentários a este blogue. A partir de agora a caixa de comentários é vossa. Fico à espera.

segunda-feira, setembro 27, 2010

Hoje...

...nas livrarias.

Da contra-capa:

Iara, jovem linguista portuguesa, faz uma incrível descoberta: alguém, ou alguma coisa, está a subverter a nossa língua, a nível global, de forma insidiosa, porém avassaladora e irremediável. Milagrário Pessoal, o novo livro do autor, é um romance de amor e, ao mesmo tempo, uma viagem através da história da língua portuguesa, das suas origens à actualidade, percorrendo os diferentes territórios aos quais a mesma se vem afeiçoando.

sexta-feira, setembro 24, 2010

Agenda

Já se encontra à venda o mais recente livro de José Luis Peixoto. O lançamento do seu Livro será hoje pelas 18.30 na Casa do Alentejo em Lisboa e conta com leituras, músicas e surpresas, segundo comunicado do autor hoje no Facebook. A não perder.

Ler mais sobre o Livro aqui .

quarta-feira, setembro 22, 2010

Manifesto

É que não são só as palavras, não é apenas o miolo, não conta simplesmente o diálogo entre as personagens e o leitor, por vezes entre o escritor e o leitor. Não é o que se lê, o que sente, o que emociona e enfurece. É o objecto. As centenas de páginas agarradas umas às outras, as capas coloridas, o cheiro, sim, um cliché, eu sei. O texto na contracapa, as palavras insossas nas badanas. O prazer de o abrir e espreitar. Um livro não é apenas palavras. Um livro é uma companhia. E são muitos os que me acompanham casa fora. Os que repousam caoticamente no chão ao lado da minha mesa-de-cabeceira, os que me colorem as estantes cá de casa, os que se espalham por aqui e ali. E depois o prazer. A procura. Os momentos em frente das estantes Estava aqui, guardei-o aqui, tem de estar por aqui. A tranquilidade de horas a folheá-los na senda do excerto perdido, a curiosidade dos minutos à procura de uma novidade entre as páginas, a certeza de se encontrar sempre algo novo. A partilha Olha aqui, o que encontrei. E as memórias Este comprei-o em Salvador, lembras-te? Um pedaço de história de vida encerrada em páginas e lombadas carinhosamente preservado como testemunho de momentos felizes Foi o primeiro livro que comprei no Rio. Os presentes e quem os ofereceu. São os autógrafos dos escritores,as letras desenhadas à sombra dos jacarandás com o Tejo em fundo. E andar com eles na carteira ou entre os dossiers. E são isto os livros. São as dedicatórias. O meu nome bem legível na primeira página, data e local, a marca indelével de posse e a afirmação de território São meus. E isto jamais poderá ser substituído por uma geringonça electrónica. Isso não são livros. Esses não serão nunca os meus livros.

segunda-feira, setembro 20, 2010

Reentré

Este Setembro, como todos os outros a que se convencionou apelidar de reentré em termos literários, promete. Primeiro tivemos a publicação de mais uma romance de João Tordo, O Bom Inverno, que já se encontra disponível nas livrarias. Dia 24 segue-se José Luís Peixoto com o seu livro Livro e uns dias depois José Eduardo Agualusa lança Milagrário Pessoal. Ondjaki tem também um novo livro de poesia com o excelente título Dentro de mim faz sul. Um bom Setembro, este.


sexta-feira, setembro 17, 2010

Ler barato (7)

Para quem acha que viajar é caro tem agora uma oportunidade de fazer dois em um: ler e viajar, ou viajar lendo. A revista "Sábado" está a publicar literatura de viagens a preços acessíveis. Estes livros que já sairam em edição de capa dura para as livrarias, são agora publicados ao ritmo semanal da publicação da revista, às quintas-feiras e custam apenas 5, 95 Euro. Já saíram três volumes: dia 2 de Setembro, Uma ideia da Índia de Alberto Moravia, dia 9, Morte na Pérsia de Annemarie Schwarzenbach, e ontem, dia 16, Paris de Julien Green. Seguem-se O Japão é um lugar estranho de Peter Carey, e Nova Iorque de Brendan Behan, a 23 e 30 de Setembro respectivamente. Aproveitem! Ler vale sempre a pena.

fotografia minha

quinta-feira, setembro 16, 2010

Rui Cardoso Martins

foi o vencedor do Grande Prémio do Romance e Novela da APE com o seu romance Deixem passar o homem invisível, a sua segunda obra. Também conhecido como cronista da revista "Pública" Rui Cardoso Martins é também autor da obra E Se Eu Gostasse Muito de Morrer, guionista, e co-fundador das produções Fictícias. Embora não falhe as crónicas de Domingo do escritor, o livro foi uma belíssima surpresa. que só posso recomendar. Espero ansiosamente o próximo livro. Aqui ficam entretanto as felicitações.


quarta-feira, setembro 15, 2010

Agatha Christie

Comemoram-se hoje os 120 anos da grande escritora de romances policiais, Agatha Christie. Criadora de personagens ímpares como Miss Marple e o inesquecível Hercule Poirot, ambos imortalizados também na sétima arte, foi uma escritora profícua que tem estimulado a imaginação de milhões de leitores em todo o mundo e continua a deliciar os amantes de suspense e mistério. Cento e vinte anos depois continua a ser lembrada e estimada em todo o mundo, a prova de que os escritores vivem sempre através das suas obras.

Mais sobre Agatha Christie aqui

De regresso

Para quem terá pensado que, depois de uma ausência tão longa, este blogue teria ido de férias sem regresso, pode descansar que estamos de volta. Este ano, ao contrário do ano passado, já não estamos em obras, voltou quase tudo ao seu lugar, coisas há que ganharam uma outra cara e a nossa Biblioteca instalou-se em definitivo num novo e aprazível lugar. Resta-nos esperar que este seja um ano mais tranquilo e desejar um enorme sucesso nesta nova etapa.

quarta-feira, julho 28, 2010

terça-feira, julho 20, 2010

O leitor em busca da felicidade

Devia ter desconfiado quando, no dia subsequente à compra, fui dar com ele na estante da auto-ajuda, lá para o lado das espiritualidades numa grande superfície. Lá estava altaneiro entre Os últimos dias de JesusA Dieta Limão, encimado por Renascer das Cinzas e docemente aconchegado por A sabedoria nossa de cada dia, lado a lado com Conversas com Deus. Devia ter desconfiado logo pelo título, antes mesmo deste encontro de mau presságio.
Rapariga muito descrente e frequentemente indiferente às receitas de felicidade, céptica convicta no que respeita a fórmulas de bem-estar, doutrinações de caminhos zen e que não fala jamais com Deus(es) em língua alguma, senti uma facada traiçoeira quando o vi naquele preparo. Contudo, o que me falta noutras crenças sobra-me em fé numa parte da literatura portuguesa contemporânea e ao vislumbrar um outro livro de Nagib Mahfouz, que julgo não se dar a caminhos esotéricos, na estante abaixo, julguei que o empregado, esse sim zen e na senda do sentimento etéreo e escapadiço chamado felicidade, teria sido enganado pelo título. Estaria pois em paz com a compra recente.
Os autores. Muito mais do que o título, foram os autores que me levaram a comprar o livro. Cerca de metade dos escritores que assinam as dez histórias contam-se entre os da minha preferência. Foi assim que me atirei ao livro sem sequer pensar duas vezes, há livros que compro cegamente apenas pelo autor, e devorei sempre em busca da felicidade as dez histórias. E nada. No término da cada uma esperava o frémito de que se são feitas as prosas sensuais que perduram além do livro. Mas nada. Coisa nenhuma. Dez histórias banais num volume intitulado Em Busca da Felicidade e teoricamente em busca da dita mas que muito pouco contribuem para a felicidade do leitor. Vagueia-se entre um casal a braços com uma mosca no copo de vinho, num fim de tarde numa esplanada à beira-mar, um jornalista em início de carreira em Londres indignado com a xenofobia e uma estória para contar de uma relação que houve, não houve, haverá. Com alguns lugares-comuns, previsíveis e sem conteúdo e/ou personagens dignas de nota. Falta-lhes substância, profundidade, consistência. Apenas as de Lídia Jorge e Pepetela suscitaram algum entusiasmo. E foram-se uns doze euros. A minha intuição estava certa e devia ter dado nota daquele encontro fortuito lá nas espiritualidades, ouvido as vozes em pleno hipermercado e tê-lo devolvido no dia seguinte, argumentando que me tinha sido enviado um sinal do além ou lá de onde se situam essas coisas sem explicação. Ser céptico dá nisto.

domingo, julho 18, 2010

Mandela Day

"If you want to make peace with your enemy, you have to work with your enemy. Then he becomes your partner."

Nelson Mandela

Happy Birthday, Madiba!



Nelson Mandela, um exemplo de coragem, resiliência, abnegação, dedicação e de generosidade, completa hoje 92 anos. Faltam adjectivos para qualificar um homem sem ódio nem sede de vingança após 27 anos de encarceramento num país onde, por decreto, negros não eram sequer considerados cidadãos. Aqui fica a homenagem singela a uma das figuras ímpares do nosso tempo.

segunda-feira, junho 28, 2010

Ler é homenagear

Não conheço melhor maneira de homenagear os escritores do que lê-los, lê-los sempre, lê-los apaixonadamente, intensamente ou lê-los apenas. Foi o que fizeram ao recentemente falecido patrono da nossa Escola, José Saramago. Para assinalar o sétimo dia da sua morte, e ao contrário dos ritos católicos que prevêem uma celebração eucarística, José Saramago foi lido por quem o quis fazer. A iniciativa teve lugar na Casa Fernando Pessoa e nesta maratona de leitura a obra escolhida foi O Ano da Morte de Ricardo Reis, lido na íntegra ao longo de quinze horas. Pilar del Rio, mulher de José Saramago abriu a maratona e a ela seguiram-se nomes sonantes das nossas letras e anónimos. Ler é mais belo que chorar. Saramago viverá para sempre.


sexta-feira, junho 18, 2010

sexta-feira, junho 11, 2010

Receita de Leitura (23)


Dose de Amostra
Um dia cometi a asneira de perguntar ao Anibaleitor porque é que ele não tinha televisão na gruta.
"Televisão?" Rugiu, furioso. "E para que queres tu tal coisa? Não tens livros que cheguem?"
"Bem, para ver programas giros..."
"Achas?" O Anibaleitor atirou um livro — salvo erro, uma edição de bolso do Orlando, da Virgínia Woolf— ao chão. "Olha, assobia para o livro, a ver se ele vai ter contigo."
Nem tentei assobiar. Já estava arrependido de ter aberto a boca.
"Ele não vem ter connosco se assobiarmos, pois não? A vida é assim, as coisas boas da vida são assim. Nós temos de dar um passo, as coisas não vêm até nós sozinhas, não há comando que nos valha, por mais botões que tenha."
"Sim, sim, já percebi..."
Mas o Anibaleitor estava embalado:
"A vida não é estar sentado num sofá a dar ao polegar à espera que apareça algo no ecrã a desenroscar-nos (ou desenrascar-nos) do nosso torpor."
Eu fiz, só para o arreliar, um ar banzado: "Não é?"
O Anibaleitor rolou os olhos.
"Bem, se quisermos a vida é isso, não passará disso, mas não me parece a melhor forma de a usufruir. Um livro exige que se vá ter com ele. Um ecrã com palermices não. É a diferença entre viajar e ficar parado. O livro obriga-nos a viajar, a TV a ficar parados feitos basbaques."
"Pois..."
"E viajar tem, quase sempre, mais graça do que ficar parado. Não te parece?"
Rui Zink, (2010), O Anibaleitor, Lisboa, Teorema.

Composição
O Anibaleitor de Rui Zink é constituido por princípios activos geradores de grande satisfação e bem-estar: um anibal buito grande, deborador de pessoas, muitos livros, um rapaz transviado por caminhos enviesados que reencontra o seu trilho através deste anibal, viagens e conversas em torno dos livros, da leitura e da relação que travamos com esses objectos pintados com tinta.

Indicações
Pela eficácia e abrangência dos princípios activos, este livro é muito bem tolerado por qualquer tipo de leitor dos dez aos cem anos. Se tiver mais pode e deve continuar a leitura, ler é profiláctico, quem lê vive mais, mesmo em menos tempo. O Anibaleitor tem efeitos eficazes de identificação noutros anibaisleitores, essa espécie em vias de extinção, frequentemente vista de livros debaixo do braço e a quem salta um livro a cada conversa, uma citação ou um autor. Leitores apressados e com sensação de impotência perante livros volumosos registaram uma melhoria na auto-estima ao perceber que ler pode ser rápido, divertido e bem-humorado.

Precauções
Leitores sugestionáveis devem ter alguns cuidados na leitura deste livro, já que o entusiamo pelas páginas de aventura pode causar sensação súbita de enfartamento. Aguarde um pouco e retome a leitura de seguida, o anibaleitor não tenciona partir. Indivíduos com tendência a procurar na realidade os mundos ficcionados nas páginas dos livros foram vistos a acenar na costa à procura do anibaleitor e a enviar livros num bote para o chamar. O anibaleitor é de humores, controle o seu ímpeto. Os amantes de leituras breves mas carregadas de metáforas experimentaram breves episódios de euforia mesmo depois de acabar o livro. Leitores de lágrima fácil e coração sensível sentiram uma leve comoção perante este King Kong literário.

Outras apresentações
A obra de Rui Zink não se restringe a ‘O Anibaleitor, não tem, pois, razão para não continuar. Continue com Hotel Lusitano e vá trotando páginas e livros. Descubra o anibaleitor que há em si.