quinta-feira, novembro 26, 2009

Receita de Leitura (18)


Dose de Amostra
Quando eu sair daqui, vamos nos casar na fazenda da minha feliz infância, lá na raiz da serra. Você vai usar o vestido e o véu da minha mãe, e não falo assim por estar sentimental, não é por causa da morfina. Você vai dispor dos rendados, dos cristais, da baixela, das jóias e do nome da minha família. Vai dar ordens aos criados, vai montar no cavalo da minha antiga mulher. E se na fazenda ainda não houver luz eléctrica, providenciarei um gerador para você ver televisão. Vai ter também ar condicionado em todos os aposentos da sede, porque na baixada hoje em dia faz muito calor. Não sei se foi sempre assim, se meus antepassados suavam debaixo de tanta roupa. Minha mulher, sim, suava bastante, mas ela já era de uma nova geração e não tinha a austeridade da minha mãe. Minha mulher gostava de sol, voltava sempre afogueada das tardes no areal de Copacabana. Mas nosso chalé em Copacabana já veio abaixo, e de qualquer forma eu não moraria com você na casa de outro casamento, moraremos na fazenda da raiz da serra. Vamos nos casar na capela que foi consagrada pelo cardeal arcebispo do Rio de Janeiro em mil oitocentos e lá vai fumaça. Na fazenda você tratará de mim e de mais ninguém, de maneira que ficarei completamente bom. E plantaremos árvores, e escreveremos livros, e se Deus quiser ainda criaremos filhos nas terras de meu avô.

Chico Buarque, (2009), Leite Derramado, Lisboa, Dom Quixote.

Composição
Leite Derramado contém princípios activos potencialmente causadores de incómodo: um homem centenário, a braços com a sua memória, falido e doente em estado terminal num hospital modesto. E é neste estado que o outrora garboso e bem sucedido Eulálio d’Assumpção reconta a sua vida num longo monólogo. Através dele assistimos a dois séculos de transformações políticas e sociais e ao desenrolar das vidas de várias gerações d’Assumpção que se despenham do seu estatuto privilegiado para aterrar na decadência. E a Matilde. Matilde que perpassa o texto. Quem será Matilde?

Indicações
Recomenda-se a leitura de Leite Derramado a todos os amantes da leitura. Indivíduos que tenham seguido a escrita do grande músico brasileiro devem ler o livro sem quaisquer restrições. Os amantes da literatura brasileira experimentaram sensações de regozijo. Leitores com forte pendor histórico observaram sensações gerais de bem-estar. Leitores fervorosos da arquitectura sentiram o apelo de confirmar no Rio de Janeiro as metamorfoses urbanísticas da Cidade Maravilhosa. Leitores românticos foram vistos à procura de Matilde e outros curiosos a espreitar a última casa de Eulálio nos fundos de uma Igreja Evangélica.

Precauções
Indivíduos preconceituosos em relação à velhice não devem ler este livro sob pena de serem traídos por Eulálio d’Assumpção. Astuto e bem-falante o centenário não poupa no pedantismo nem dá tréguas aos seus interlocutores. Caso seja sugestionável e comece a sentir um desejo miudinho de verificar in loco o relato do velho d’Assumpção deve descontinuar a leitura ou poderá acordar na Cidade Maravilhosa na senda do casarão de Botafogo. Indivíduos familiarizados com sagas familiares de decadência experimentaram pontualmente ansiedade e ocasionalmente identificação com o velho Eulálio d’Assumpção.

Outras apresentações
Se gostou de Leite Derramado aventure-se nos outros três romances de Chico Buarque. Ler não tem contra-indicações. Quanto mais, melhor.

domingo, novembro 22, 2009

Direitos das Crianças


No passado dia 20 comemoraram-se 20 anos sobre a Declaração dos Direitos da Criança. Que este dia não seja nunca esquecido e que mais do que uma efémeride seja uma prática diária de respeito, protecção e carinho.

quinta-feira, novembro 05, 2009

Ler barato (5)

Cada vez há menos desculpas para não ler. Depois das colecções da Revista Sábado, eis que surge agora uma outra oportunidade com a revista "Visão" e com o jornal "Expresso". De 29 de Outubro a 5 de Dezembro vão sair obras de jornalistas que se aventuraram na ficção, quem sabe se saturados com tanta realidade, exactidão e rigor exigidas pela escrita jornalística. Rodrigo Guedes de Carvalho foi o primeiro com A Casa Quieta, seguem-se-lhe Clara Ferreira Alves, já nesta semana, Fernando Dacosta, Inês Pedrosa, Henrique Monteiro e Mário Zambujal. O preço? Três euros e noventa cêntimos apenas. Aventurem-se. Ler faz sempre bem e agora até é barato.

quinta-feira, outubro 29, 2009

Receita de Leitura (17)


Dose de Amostra
Ao fim do dia, o velho se recostava na cadeira da varanda. E era assim todas as noites: me sentava a seus pés, olhando as estrelas no alto do escuro. Meu pai fechava os olhos, a cabeça meneando para cá e para lá, como se um compasso guiasse aquele sossego. Depois, ele inspirava fundo e dizia:
— Este é o silêncio mais bonito que escutei até hoje. Lhe agradeço, Mwanito.
Ficar devidamente calado requer anos de prática. Em mim, era um dom natural, herança de algum antepassado. Talvez fosse legado de minha mãe, Dona Dordalma, quem podia ter a certeza? De tão calada, ela deixara de existir e nem se notara que já não vivia entre nós, os vigentes viventes.
— Você sabe, filho: há a calmaria dos cemitérios. Mas o sossego desta varanda é diferente.
Meu pai. A voz dele era tão discreta que parecia apenas uma outra variedade de silêncio. Tossicava e a tosse rouca dele, essa, era uma oculta fala, sem palavras nem gramática.
Ao longe, se entrevia, na janela da casa anexa, uma bruxuleante lamparina. Por certo, meu irmão nos espreitava. Uma culpa me raspava o peito: eu era o escolhido, o único a partilhar proximidades com o nosso eterno progenitor.

Mia Couto, (2009), Jesusalém, Caminho.

Composição
Jesusalém é um local remoto, feito casa, para Silvestre Vitalício, Mwanito, e Ntunzi e simultaneamente o palco de quase todos os acontecimentos no mais recente livro de Mia Couto. Em Jesusalém, a única presença feminina física reduz-se a Jezibela, a jumenta, no entanto é a omnipresença de Dordalma que empresta a intensidade a todo o romance e que o vai guiando até à última palavra. Que dor de alma se escreverá em Dordalma?

Indicações
A leitura de Jesusalém está recomendada a todos os indivíduos sem restrições. Pode ser lido pelos leitores mais cépticos aos mais fervorosos. A sintomatologia de contentamento foi evidente em todos eles. Os leitores fiéis de Mia Couto observaram uma melhoria acentuada de humor em virtude de se poderem deleitar com a prosa poética repleta de uma sensibilidade invulgar e de penetraram na intimidade de uma história apaixonante.

Precauções
Jesusalém é bem tolerado por todos os indivíduos. Leitores vorazes e bulímicos observaram pontualmente sintomas de privação quando deixaram o livro sossegar para regressar às tarefas entediantes do quotidiano. Esporadicamente foi registada ansiedade em terminar o livro dado a escrita contagiante e mágica. Indivíduos sugestionáveis tentaram sem sucesso afinar o silêncio, seguindo as pisadas de Mwanito e os mais aventureiros intentaram uma viagem a Jesusalém. Os leitores em busca da escrita cheia de neologismos a que Mia Couto nos habituou observaram um misto de desilusão, neste romance o escritor opta por outro registo, e de admiração, há poucos escritores tão doces e intensos quanto Mia Couto.

Outras apresentações
Se sentiu uma melhoria com Jesusalém, não deve descontinuar a leitura de Mia Couto.O escritor tem uma vasta obra abarcando vários géneros literários. Não há desculpa para não ler, só há óptimas razões para mergulhar na leitura.

quinta-feira, outubro 22, 2009

Verter em palavras

Primeiro pega-se num livro, qualquer livro serve, embora sugira um de que gostemos, depois, lê-se, muito bem lido, com notas à margem e sublinhados. A seguir deixa-se marinar durante um tempo, o suficiente para se fundirem os aromas, se casarem as personagens e enredo e daí surgir a leitura única que cada leitor faz de cada livro. Por último é só verter tudo em palavras e servir com carinho. Só me falta mesmo a última fase para mais uma das receitas de leitura. Brevemente aqui.

sexta-feira, outubro 09, 2009

Os Meus Livros

A revista "Os Meus Livros", que também pode ser consultada na Biblioteca da Escola, está agora online neste sítio.

quarta-feira, outubro 07, 2009

E o Man Booker Prize 2009 foi para...


Grátis

A Cidade Depois de Pedro Paixão compreende textos do escritor sobre Nova Iorque depois do 11 de Setembro de 2001. O livro, entretanto esgostado, foi disponibilizado pelo próprio Pedro Paixão no seu site e pode ser descarregado aqui. Eu continuo a preferir o papel mas não deixa de ser uma atitude louvável de grande desprendimento e generosidade. Aproveitem.


terça-feira, outubro 06, 2009

quinta-feira, outubro 01, 2009

Para abrir o apetite...

Aqui fica um pequeníssimo excerto de Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?

Haverá noite para este dia digam-me, uma altura em que deixo de distinguir o salgueiro e depois do salgueiro a janela, os móveis desaparecem porque não acendemos a luz, ficam as pegas de metal a brilhar um momento, um frémito nas portas que ninguém gira, os meus irmãos procurando-se e eu em busca da saída dado que principiaram as dores e não acho o caminho da rua, apercebo-me do alpendre onde a lanterna baloiça na corrente, ao regressar ao baldio via-a na esquina e acalmava, estou a chegar, estou em casa, não me fazem mal já, o quintal fechava-se-me sobre o corpo e escondia-me, nenhuma cólica, nenhum suor, a paz e com a paz a indecisão da madrugada no peitoril

- Nasço não nasço?

Novidades


Hoje é um dia grande para todos os amantes da obra de António Lobo Antunes, uma vez que se encontra já à venda mais um livro do consagrado escritor. O título é sugestivo e apela à leitura, já que é formulada uma pergunta. Será que após a leitura conseguiremos respondê-la?
Segundo a sinopse "a acção decorre no Ribatejo, numa quinta onde se criam toiros. A mãe está a morrer e cada um dos filhos fala e conta a sua história, que se cruza com a história dos outros. Francisco, que odeia os irmãos e espera apropriar-se de tudo quando a mãe morrer; João, o preferido da mãe, pedófilo, que engata rapazinhos no Parque Eduardo VII; Beatriz, que engravidou e teve de casar cedo; Ana, a mais inteligente, drogada e frequentadora dos mais sinistros lugares onde se trafica droga. Há ainda a figura do pai, que vai perdendo ao jogo a fortuna da família, na obsessão de que o número 17 lhe há-de trazer a sorte. E finalmente Mercília, a criada que os criou a todos e que sabe todos os segredos".
A leitura de António Lobo Antunes é sempre uma aventura cheia de desafios, caminhos e trilhos que levam o leitor também aos lugares recônditos da sua alma. Recomendo vivamente.

sexta-feira, setembro 25, 2009

2666

Há quem feito contagem decrescente, quem o considere obra-prima, que o catapulte para o acontecimento literário do ano, quem lhe tenha criado um blogue e quem fale disso permanentemente. O romance de Roberto Bolaño, 2666, publicado postumamente tem recebido a aclamação de bloguers e futuros leitores. O lançamento será no próximo Sábado, 26 de Setembro, mas haverá uma festa de lançamento hoje, sexta-feira, dia 25. Com tanta publicidade e divulgação estas mil páginas passaram definitivamente para a minha lista de livros obrigatórios.

Ler aqui sobre o autor e aqui sobre a obra.



imagem daqui

quinta-feira, setembro 24, 2009

E chegou aquela altura...

Chegou aquela altura do ano em que a curiosidade aperta e que nos deixa em suspenso. Quem será este ano o feliz contemplado? Será que é desta que António Lobo Antunes vai figurar entre os laureados? Pelo que é dito aqui, há que esperar e que cumprir a tradição uma vez que o Prémio Nobel da Literatura só será comunicado em data a anunciar pela Academia Sueca. Saber esperar é uma virtude, dizem, e na verdade não nos resta outra alternativa. Quem sucederá a Le Clezio? Aceitam-se apostas.





imagem daqui

quinta-feira, setembro 17, 2009

Rentrée

Após um interregno tão grande, aqui estamos de novo para vos dar notícias das artes e letras e também da nossa Escola. E começando pela nossa Escola, há muitas novidades, uma vez que estamos em obras. Enquanto vos escrevo, por exemplo, vejo da janela desta nossa Biblioteca o pavilhão B completamente esventrado, quase irreconhecível. Do lado esquerdo uma zona devastada decorada com veículos pesados. Como banda sonora temos um martelar suave entrecortado pelo som insistente dum martelo pneumático. E tudo isto são diferenças relativamente ao sossego que habitualmente tínhamos. Mas nada de desesperos, um ano passa depressa e depois teremos uma Escola renovada. Até lá desejo a todos um óptimo ano lectivo.