quinta-feira, julho 23, 2009

A importância do nome

Suponhamos que o Manel faz uma viagem. Como todas as viagens, a viagem do Manel tem algumas peripécias. O Manel arruma a viagem na gaveta mas vinte anos depois e porque se lhe atravessa ao caminho uma fotografia da mulher que o acompanhou nesse périplo lembra-se de escrever umas coisas. O Manel acha a viagem engraçada com ingredientes suficientemente intensos para tornar a estória atraente, sente-se em dívida com a mulher que o acompanhou, é atacado por uma nostalgia súbita e neste embalo envia o manuscrito da sua aventura às editoras. O Manel, coitadito, é apenas o Manel, sem apelido, padrinhos, amigos, alguém que dê uma palavrinha a alguém, um toque só para ver se pega e, por conseguinte, tempos depois começa a receber cartas das editoras. Que não se enquadra nos critérios editoriais, que não podem encarar a respectiva publicação, que não são a editora indicada para a apreciação de narrativas curtas, que têm a programação editorial muito preenchida. O Manel arruma os manuscritos na estante, outros rasga-os furiosamente e coloca-os com grande dever cívico no ecoponto azul e outros oferece com uma dedicatória aos amigos, em tempo de crise há que poupar nos presentes. E partiu à sua vida. Ora se o Manel de chamasse, digamos, Miguel Sousa Tavares tinha o assunto resolvido e podia publicar este novo género de quase romance, a tal narrativa curta, contando uma das suas aventuras ao deserto com uma mulher com quem aparentemente teve um relacionamento amoroso e que morreu entretanto. No teu Deserto é apenas isso: um devaneio, sem grande qualidade de escrita. O texto está cheio de lugares-comuns, a noite estrelada a tempestade da areia, o desenrascando luso, o silêncio do deserto, uma mulher convenientemente loura que já se sabe resulta muitíssimo bem em países árabes como moeda de troca por cáfilas de camelos. Muito inferior a Sul, Não te deixarei morrer, David Crockett ou a Equador, o livro não traz qualquer novidade. Servirá apenas o voyeurismo dos leitores e ocupará uma boa parte de uma lânguida tarde estival, há sempre que não goste de leituras pesadas no Verão. Miguel Sousa Tavares já mostrou que é capaz de bem melhor. No teu Deserto só viu a luz do dia porque o seu autor é quem é. Se fosse o Manel, por exemplo, nunca passaria da intenção e muito bem.

terça-feira, julho 21, 2009

Frank McCourt

1930 - 2009

You’re on your own in the classroom, one man or woman facing five classes everyday, five classes of teenagers. One unit of energy against one hundred and seventy-five units of energy, one hundred and seventy-five ticking bombs, and you have to find ways of saving your own life. They may like you, they may even love you, but they are young and it is the business of the young to push the old off the planet.

Frank McCourt, Teacher Man

sábado, junho 27, 2009

Novidades


O mais recente livro de Mia Couto, Jesusalém, já está à venda.
Uma óptima leitura para as férias que se aproximam.

quinta-feira, junho 11, 2009

Receita de Leitura (16)

Dose de Amostra

A monumental arcaria de pedra e cal se oferecia a eles, com seus quase 300 metros de extensão a perder na noite, rumo ao morro do Desterro. Apesar da escuridão, Pedro e Leonardo podiam ver a garganta de amuradas, abrigando o cano de argila que trazia a água do rio Carioca. Os meninos saltaram sobre a manilha e correram ainda mais depressa, a 18 metros do chão da Lapa. Na disparada, foram deixando para trás, lá embaixo, a rua dos Arcos, cortada pela rua do Lavradio, e a de Mata-Cavalos. Visto de cima, o crepitar das velas acesas dentro das casas fazia a cidade parecer uma comunidade de pirilampos. Mas eles não tinham tempo para olhar, só para correr — era melhor nem olhar —, cuidando para não escorregar do cano e esperando que os soldados do Vidigal, cujas botas ouviam à distância, desistissem da perseguição.
Bem no meio dos Arcos, sobre a rua das Mangueiras, pararam por um instante, para apurar os ouvidos, e sentiram que o ruído das botas inimigas diminuíra ou silenciara — como se os soldados tivessem feito alto para descansar ou dado meia-volta. Mas, e se fosse um truque? E se apenas tivessem tirado as botas para correr melhor?

Ruy Castro, (2008), Era no tempo do Rei, Alfragide, Asa.

Composição
Era no tempo do Rei, do escritor e biógrafo brasileiro Ruy Castro, conta a história de dois meninos no Rio de Janeiro, em 1810, dois anos após a chegada da corte portuguesa ao Brasil. Pedro e Leonardo, duas crianças de doze anos, vivem aventuras e peripécias, vagueando pela cidade. Em pano de fundo assiste-se ao retrato vívido e pululante de uma cidade subitamente capital do Reino e à história com as Guerras Napoleónicas, as lutas pelo poder e a indispensável intriga.

Indicações
Recomenda-se a leitura de Era no tempo do Rei aos indivíduos com gosto por prosas coloridas, fluentes e escorreitas. É muito bem tolerado por quem se interessa por esta parte da história em que portugueses e brasileiros se encontram no calor dos trópicos e mais uma vez se miscigenam. Leitores obcecados com a veracidade histórica observaram episódios que podem variar da ansiedade à cólera.

Precauções
Era no tempo do Rei está altamente desaconselhado aos historiadores incapazes de olhar a vida através do caleidoscópio da literatura. Não se recomenda a leitura a indivíduos incapazes de ficcionar a História e de ver em Pedro o futuro Imperador do Brasil. Caso dê por si rodeado de compêndios de História na senda de Bárbara dos Prazeres deve descontinuar essas leituras e acreditar no escritor “Nem tudo o que aqui se leu aconteceu – mas podia ter acontecido”. Indivíduos com forte apego às descrições excitantes observaram um desejo incontrolável de viajar no tempo e regressar ao Rio de Janeiro do século XIX.

Outras apresentações
Caso tenha sentido uma franca melhoria com Era no tempo do Rei, aventure-se noutras prosas do autor, como a biografia de Carmen Miranda, a história da Bossa Nova, Chega de Saudade, ou ainda Carnaval no Fogo sobre o Rio de Janeiro. Ler Ruy Castro é sempre um prazer. Se aprecia a temática, experimente Império à Deriva de Patrick Wilcken, a História como um romance.

quarta-feira, junho 10, 2009

Novo romance de José Saramago

José Saramago não pára. O Prémio Nobel português já entregou o seu novo romance na editora. Sairá para o Outono. Aguardemos então.

quarta-feira, maio 27, 2009

Hay-on-Wye

A literatura está em festa no Reino Unido. Em Hay-on-Wye, uma pequena localidade no País de Gales também conhecida por “the town of books”, ou seja a cidade dos livros, está a ter lugar o maior festival literário em Terras de Sua Majestade. O evento abriu a 21 de Maio e prolongar-se-á até ao último dia deste mês de Maio.
Hay-on-Wye é um verdadeiro paraíso para os bibliófilos. O certame teve a sua primeira edição em 1988, tendo posto a cidade galesa na rota dos festivais literários. O programa é variado e inclui palestras sobre diversos temas como política ou ambiente, workshops de teatro, yoga e os tradicionais encontros com escritores. As novas tecnologias não foram excluídas, portanto pode visitar o perfil no Facebook ou no Twitter. Presentemente, o festival é patrocinado pelo jornal The Guardian. É, sem qualquer dúvida, o sítio onde eu gostaria de estar neste momento. Na impossibilidade, deixo-vos este pequeno texto retirado do sítio oficial do evento:
"Writers, comedians and musicians that have the capacity to change our lives, to share new visions of the world, and to do that incredibly sexy thing – to renew our sense of wonder."

imagem daqui

sexta-feira, maio 22, 2009

Receita de Leitura (15)

Dose de Amostra

de noite, a maria da graça sonhava que às portas do céu se vendiam souvenirs da vida na terra. gente de palavras garridas que chamava a sua atenção com os braços no ar, como quem tinha peixe fresco, juntava-se em redor da sua alma e despachava por bagatelas as coisas mais passíveis de suprir uma grande falta aos que morriam. os últimos charlatães, pensava ela, envergonhada até por ter de pensar depois de morta, ou talvez fosse coisa boa antes de se entrar no céu ser dada a oportunidade de levar um objecto, uma imagem materializada, algo como prova de uma vida anterior ou extrema saudade. ela pedia-lhes que a deixassem passar, ia à pressa, insistia, sabia mal o que fazer e não podia decidir nada sobre nada. seguia perplexa e não querendo arriscar a ganância de se depositar na eternidade a partir de um acto de posse. por uma compreensível angústia, ansiedade ou frenesi de ali estar tão pela primeira vez, mantinha a esperança de que talvez são pedro a esclarecesse e, com um pé lá dentro e outro ainda fora, lhe fosse possível comprar o requiem de mozart, a reprodução dos frescos de goya ou a edição francesa das raparigas em flor.


valter hugo mãe, (2008), o apocalipse dos trabalhadores, Matosinhos, QuidNovi.


Composição
o apocalipse dos trabalhadores de valter hugo mãe é o terceiro romance do jovem escritor laureado em 2007 com o Prémio Literário José Saramago. Passado em Bragança, este romance contém as existências idiossincráticas e ambivalentes de duas mulheres-a-dias, um imigrante ucraniano e um homem reformado.

Indicações
Este livro está indicado para indivíduos afoitos e aventureiros. Os apreciadores de novas formas de narrar e de usar a língua de Camões de forma criativa observaram uma mudança radical no seu humor. Foram reportados episódios pontuais de euforia em consequência da prosa talentosa e original. o apocalipse dos trabalhadores é bem tolerado por leitores com gosto pelas existências simples do quotidiano e atentos à mudança social da sociedade portuguesa.

Precauções
Indivíduos obcecados com os preceitos formais da língua devem ter acompanhamento ao penetrar no livro. A ausência de maiúsculas pode provocar fortes acessos de crítica impiedosa nos leitores de gostos mais tradicionais. Podem ocorrer episódios de fúria aos fiéis amantes de pontuações elaboradas e pungentes. Caso percorra o livro à procura de pontos de exclamação ou interrogação deve descontinuar a leitura de imediato, uma vez que eles não existem. Alguns leitores mais sensíveis não conseguiram abstrair-se das personagens, dada a densidade das mesmas. Se der consigo a querer acompanhar a maria da graça às portas do céu deve abrandar a leitura.

Posologia
o apocalipse dos trabalhadores deve ser lido ao ritmo de cada leitor. Desconhecem-se efeitos de sobredosagem de literatura. Ler é saudável.

Outras apresentações
Caso tenham sido observadas melhorias com o apocalipse dos trabalhadores recomenda-se a leitura dos outros livros do autor, o nosso reino e o remorso de baltazar serapião. Se persistirem sintomas de ansiedade por mais escritos de valter hugo mãe, aventure-se na poesia e leia folclore íntimo.

quinta-feira, maio 21, 2009

Boas ideias

Imagine agora que lhe dá uma vontade incontrolável de ler um livro. Sente-se só, desesperado pela falta de um livro que o acompanhe, ainda mais por pensar que naquele lugar não há livrarias e mesmo que houvesse nada lhe poderiam valer dado a hora inconveniente. Olha à volta em dor, a ausência de livros é uma síndrome doloroso do qual os amantes de livros podem ser acometidos, apura o olhar e o olfacto. Parece que, de repente, como se fossem pipocas mas em intesidade menor, cheira a livros, a fragrância das páginas virgens à espera que as leiam. Olha mais uma vez e repara em algo inédito: uma máquina automática de venda de livros!
A ideia foi mais uma vez da LeYa e a máquina esteve em experimentação durante a Feira do Livro de Lisboa, que decorreu entre 30 de Abril e 17 de Maio. Estarão disponíveis quinze títulos e o funcionamento é simples. A experiência da Feira determinará os locais onde irão ser colocados os dispensadores de livros, mas estações de comboio, hospitais e aeroportos contarão certamente entre os locais eleitos.
Embora a ideia não seja inédita, uma vez que há já aeroportos internacionais onde podemos ver máquinas semelhantes, é inédita entre nós. Uma belíssima iniciativa a merecer o nosso destaque.

quarta-feira, maio 20, 2009

Receita de leitura...

em preparação. Fiquem atentos!

Ler mais por menos


A partir de dia 22 de Maio estarão à venda mais quinze títulos da colecção BisleYa. Apenas por €5,95, os títulos são muito diversos, tal como aconteceu nas duas colecções anteriores. Podem encontrar-se, entre outros, Rodrigo Guedes de carvalho e Daqui a Nada e Franz Kafka com o clássico O Processo. Contudo, os meus preferidos são A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho de Mário de Carvalho e O Operário em Construção de Vinicius de Carvalho. Não há razão para não ler. É já dia 22!

quarta-feira, maio 13, 2009

Novidades

Junho vai ser um mês importante em termos de novidades editoriais: o último romance de Chico Buarque vai ser editado em Portugal e José Eduardo Agualusa vê também Barroco Tropical, a sua obra mais recente, nos escaparates das livrarias. Caso tenha uma curiosidade incontrolável, não obstante, pode ler aqui o primeiro capítulo de Barroco Tropical. Mal posso esperar por Junho mas até lá vou-me contentando com este primeiro capítulo que promete.

Parabéns!

quarta-feira, maio 06, 2009

A Feira do Livro de Lisboa...

pode ser seguida com toda atenção aqui. No blogtailors existe informação completa, interessante e muito actualizada do certame. Caso não possam ir à Feira, esta é uma maneira de se manterem actualizados e a par dos acontecimentos. Se puderem, aproveitem e sigam a perspectiva dos editores, leitores e visitantes.

quarta-feira, abril 29, 2009

Feira do Livro de Lisboa

Amanhã, dia 30 de Abril, a Feira do Livro de Lisboa, na 79ª edição e sob o lema "Viver a Leitura", abre as suas portas ao público. O certame durará até 17 de Maio. No local de sempre, conta com algumas mudanças este ano nas datas e horários. Contrariamente ao que acontecia antes, a feira estará aberta entre as 12.30 e 20.30 horas durante a semana,entre as 12.30 e 23.00 horas à sexta-feira e vésperas de feriados e entre as 11.00 e 23.00 horas aos Sábados e entre 11.00 e 22.00 horas aos Domingos. Além de outros eventos, este ano haverá um espaço dedicado à troca de livros, "Lisboa, Encruzilhada de Livros".
Mesmo que não seja para comprar livros, a Feira do Livro vale sempre a pena e este ano com o espaço de troca de livros com o apoio do Bookcrossing ainda mais. Para os amantes de literatura brasileira, como eu, será um grande evento, uma vez que o país convidado é o Brasil. Apareçam.