quinta-feira, abril 29, 2010

80ª Feira do Livro de Lisboa

Perdição das perdições, tentação das tentações para um bibliófilo e amante da leitura as feiras do livro deviam conter avisos sobre os perigos e efeitos adversos. É a variedade, são os autores, os livros acabados de imprimir com o perfume que tão bem lhes conhecemos, são as capas que chamam por nós, o Tejo lá em baixo como remate da cidade que se lhe estende como uma língua irregular, bordejada pelas árvores verdejantes da Avenida da Liberdade. É tudo, portanto e este tudo é muito para as almas que se alimentam da leitura. A Feira do Livro de Lisboa abre hoje ao público no Parque Eduardo VII e estará aberta até ao próximo dia 16 de Maio. No site podem encontrar-se algumas informações sobre o programa, livros do dia e ainda sessões de autógrafos, o que dá muito jeito para uma papa-autógrafos como eu. Aventurem-se.
Feira do Livro 2009
fotografia minha

Mais informações aqui 

quarta-feira, abril 28, 2010

Receita de leitura (22) - Dia Mundial do Livro

Dose de Amostra

Os dedos noutros dedos. O miúdo que viu o avô paterno dizer-lhe adeus, de pé, em cima de um barco, está com Ela junto à Ria. Ela toca-lhe ao de leve na mão. O miúdo treme, mas é diferente de quando a criada levantava as saias e lhe mostrava o que ele queria ver. O miúdo que pedalava num carro de quatro rodas treme todo, sim, mas é outro tremor, poder-se-ia dizer um tremor de alma. À noite, no cinema, é ele que passa a mão pela mão de Ela. Os dedos entrelaçam-se. Ela faz-lhe uma festa na cara. Apetece ficar assim para sempre, mas o miúdo que gosta de caçar narcejas ainda não sabe que não há outra eternidade senão esse instante a escorregar-lhe por entre os dedos.




Manuel Alegre, (2010), O miúdo que pregava pregos numa tábua, Alfragide, Dom Quixote.

Composição
De cariz marcadamente autobiográfico, a mais recente novela de Manuel Alegre, O miúdo que pregava pregos numa tábua, conta-nos a história fragmentada do escritor. Da descoberta da sexualidade ao amor incondicional pela caça e a passagem pela Guerra Colonial em Angola, o miúdo, que não se sabe afinal se é o mesmo ou se será outro, narra as aventuras de mais de sete décadas de vida de forma escorreita e breve.

Indicações
O miúdo que pregava pregos numa tábua está indicado para todos os leitores sem qualquer excepção. Composto por princípios activos comoventes e enternecedores, este livro é muito bem tolerado por leitores diversos. Indivíduos curiosos sobre a existência subcutânea das outras almas dos escritores registaram sensações de bem-estar. Leitores com gosto por prosas poéticas assinalaram com agrado esta leitura fácil da história em ziguezague d’ o miúdo que pregava pregos numa tábua.

Precauções
Leitores sensíveis em busca da sequela do belíssimo Cão como Nós devem ler este livro com reservas. Caso procurem o Kurika nas páginas deste livro devem parar a leitura de imediato sob pena de se sentirem defraudados. Os amantes de prosas longas experimentaram momentos de irritação por terem terminado o livro em escassas duas horas. Se sentir uma leve perturbação ao pressentir nas entrelinhas um elogio discreto ao escritor deve abrandar a leitura, respirar fundo e pensar que toda a autobiografia é um acto de auto-elogio.

Outras apresentações
Se quiser saber mais sobre O miúdo que pregava pregos numa tábua mergulhe na vasta obra de Manuel Alegre que não se esgota num único género literário. Se é amante de futebol não perca o livro de crónicas sobre o desporto-rei e descubra ainda mais sobre este miúdo. Leia sempre, leia mais, leia tudo.

quinta-feira, abril 22, 2010

Dia da Terra


Mark Twain

I have never let my schooling interfere with my education.
Mark Twain



Mark Twain, Samuel Clemens de nome de baptismo, foi um dos mais influentes escritores americanos. Dono de um humor e sarcasmo invulgares, observou a sociedade americana e a espécie humana com um sentido crítico acutilante.
Tendo crescido nas margens do Mississipi, a sua obra não pôde deixar de reflectir as influências deste rio, preenchendo o imaginário de gerações vindouras com As aventuras de Huckleberry Finn, considerado por muitos como a obra maior da Literatura Americana. Além de ficção, Mark Twain escreveu relatos de viagens e é dono de uma quantidade invejável e curiosa de aforismos. No dia 21 completaram-se 100 anos sobre a sua morte. Aquele dia 21 de Abril de 1910 encerrava uma outra curiosidade e que unia o nascimento e a morte de Mark Twain: a passagem do cometa Halley. Fiquemos com as suas palavras: “I came in with Halley's Comet in 1835. It is coming again next year, and I expect to go out with it. It will be the greatest disappointment of my life if I don't go out with Halley's Comet. The Almighty has said, no doubt: 'Now here are these two unaccountable freaks; they came in together, they must go out together.”

 Mark Twain
1835 - 1910

quinta-feira, março 25, 2010

Receita de Leitura (21)

Dose de Amostra
a elisa visitou-me, vinha sozinha num breve momento em que lhe apeteceu ver-me, naquele dia eu tinha a mariazinha com a pombinha colada num ombro. uma tira de fita-cola segurava ali a pombinha que lhe partira da nuvem, a Elisa reparou e comentou que eu não dava sossego à estatueta, eu até achava que estava a ficar simpático, eventualmente não tão simpático quanto fora por toda a vida, mas mais delicado, uma mariquice que me punha a pensar que a estátua, só pelo esforço de me tentar convencer de que era fonte de uma boa energia, merecia alguma consideração da minha parte, enfim, fazia-me uma mínima companhia, era verdade, era um rosto, até muito bonito, que se punha ali sempre disponível e um pouco expectante para assistir ao que eu fazia do meu tempo, a elisa não trazia notícias nenhumas e, subitamente, dei por mim a dar-lhe conta da vida no lar. foi uma estranha sensação a de entender que, afinal, entregava os pontos à minha filha, fragilizando-me daquela maneira, confiando no seu discernimento para guardar as minhas e as peripécias dos outros velhos, como se lhe pusesse um diário na mão e me reconfortasse na sua confissão.


valter hugo mãe, (2010), a máquina de fazer espanhóis, Carnaxide, Alfaguara, Editora Objectiva.


Composição
A máquina de fazer espanhóis, a obra mais recente de valter hugo mãe, contém princípios activos revestidos de uma actualidade pungente e que reflectem parcialmente a realidade familiar contemporânea: antónio silva, um dos muitos silvas que aparecem ao longo destas páginas, perde laura a companheira e mulher de uma vida, aos 84 anos e é encaminhado pelos filhos com dois sacos de roupa e um álbum de fotografias para um lar de terceira idade. Na relação com os restantes habitantes, antónio silva adquire uma nova identidade sem perder a sua matriz.

Indicações
Este livro está indicado para todos os amantes de escritas pouco convencionais, prenhes de rebeldias formais e aventuras inesperadas. Alguns leitores manifestaram surpresa ao atestarem a que a idade vetusta de antónio silva não lhe roubara o discernimento. Leitores que buscam em cada página a peça perdida do puzzle que completará a prosa observaram sensações de bem-estar. a máquina de fazer espanhóis é muito bem tolerado por leitores interessados na identidade nacional. Leitores com gosto pela intertextualidade rejubilaram quando o detective Jaime Ramos de Francisco José Viegas e o Esteves da “Tabacaria” de Álvaro de Campos lhes surgiram no lar Feliz Idade.

Precauções
Leitores sensíveis a considerações religiosas devem ler a máquina de fazer espanhóis com restrições. Caso se sintam enraivecer perante a relação peculiar que antónio silva trava com a Virgem de Fátima devem abandonar a leitura de imediato. Os nostálgicos de pontuações convencionais experimentaram ocasionalmente episódios de ansiedade. Os amantes de pontos de interrogação e de exclamação foram vistos secretamente a pontuar a prosa de valter hugo mãe. Deve parar a leitura se as partidas sucessivas e o entardecer da vida lhe escurecerem a alma.

Outras apresentações
Se gostou de ler a máquina de fazer espanhóis aventure-se na restante obra de valter hugo mãe. Ler mata vírus e espanta males. Atreva-se.

domingo, março 21, 2010

Dia Mundial da Poesia


Explicação da eternidade

devagar, o tempo transforma tudo em tempo.
o ódio transforma-se em tempo, o amor
transforma-se em tempo, a dor transforma-se
em tempo.

os assuntos que julgámos mais profundos,
mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis,
transformam-se devagar em tempo.

por si só, o tempo não é nada.
a idade de nada é nada.
a eternidade não existe.
no entanto, a eternidade existe.

os instantes dos teus olhos parados sobre mim eram eternos.
os instantes do teu sorriso eram eternos.
os instantes do teu corpo de luz eram eternos.

foste eterna até ao fim.

José Luis Peixoto

quinta-feira, março 11, 2010

Sugestões

Mesmo a tempo do Dia do Pai um dos escritores da minha preferência lançou um livro que, estou certa, dará um óptimo presente para a quadra que se aproxima. De José Eduardo Agualusa com o título Um Pai em Nascimento conta-nos em tom autobiográfico as aventuras do nascimento de um pai, acontecimento em simultâneo com o nascimento de um filho. Se estavam com falta de ideias podem sempre aproveitar a sugestão. Caso gostem de ler, nada como lermos experiências alheias para melhor entendermos os outros. Quanto à escrita, não nos vai desiludir quase de certeza.

quinta-feira, fevereiro 25, 2010

Correntes d' Escritas 2010

Pelo décimo primeiro ano consecutivo a Póvoa do Varzim acolhe o grande evento literário Correntes d' Escritas. A lista de participantes inclui escritores de várias nacionalidades e línguas e o programa é completo, como sempre, com lançamento de livros. palestras, actividades em escolas, mesas-redondas e ainda uma feira do livro. Um verdadeiro marco na agenda literária do país.  

segunda-feira, fevereiro 22, 2010

Rescaldos

Tal como já tinha comunicado dois posts abaixo, dia 9 de Fevereiro, pela tarde, tivemos a visita de Jorge Vadio, acompanhado de João Mouzinho na percussão e de João André no acordeão. Foi sem dúvida uma momento alto desta semana de comemoração do Santo amoroso, mas, como se pode ver pelas fotografias, também houve mais uma vez, tal como ao longo da semana, participação de alunos e professores. Resta-nos esperar para o ano para que se repita o encanto.

quinta-feira, fevereiro 11, 2010

Receita de Leitura (20)

Dose de Amostra
Uma noite, há uns dez anos, abri a porta de um elevador, no prédio em que vivo, e descobri duas minúsculas camas arrumadas, com grande esforço, no seu interior. Pendurada numa das paredes havia uma imagem da Virgem Maria, dragão aos pés, e do lado oposto uma fotografia colorida do rapper 50Cent, em tronco nu, pesada cruz de ouro a pender-lhe do largo pescoço de boi, apontando uma pistola à cabeça da Virgem Maria. Estendidos na cama estavam dois rapazes idênticos, muito, muito pequenos, um deles em bermudas de linho cru, bela camisa do tipo havaiana, e o outro envergando um elegante fato azul-escuro, camisa rosa, fina gravata negra. Cumprimentei-os estupefacto:
- Perdão - consegui dizer. - Isto não é um ascensor?
O jovem de fato azul sorriu-me com deferência:
- Foi, sim, meu pai. Agora é habitação.
O outro corroborou, divertido:
- Antigamente subia e descia. Actualmente só desce. Podemos chamar-lhe um descensor. Uma máquina concebida para aqueles que pretendam descer na vida.

José Eduardo Agualusa, (2009), Barroco Tropical, Lisboa, Dom Quixote.


Composição
Luanda, 2020. Bartolomeu Falcato, cineasta e escritor, e a sua amante Kianda, uma cantora de gabarito internacional presenciam uma cena inédita numa noite de tempestade tropical: uma mulher nua, negra e de braços abertos, cai do céu. E seguem-se páginas intensas numa realidade distópica, entre o absurdo e o abismo, na tentativa de desvendar o mistério. Que Luanda é aquela?

Indicações
Barroco Tropical está indicado para todos os leitores curiosos e ávidos de conhecer realidades díspares e distantes. Os amantes de prosas imaginativas, com laivos de fantasia ficaram globalmente satisfeitos pelas aventuras fantásticas de Luanda em 2020. Leitores atentos e socialmente preocupados encontraram nestas páginas a inquietação emanante de todos os textos poderosos e de todas as realidades prenhes de injustiça.

Precauções
Barroco Tropical deve ser lido com precaução por indivíduos românticos à procura dos pores-do-sol nostálgicos da Baía de Luanda. Nestas páginas não há concessões à felicidade perdida nem esperança numa harmonia vindoura. Os amantes de prosas simples sentiram alguma dificuldade em seguir o percurso das personagens em número superlativo e ficaram pontualmente petrificados com o Medo. Leitores inquietos experimentaram o fervilhar de uma cidade dividida entre ricos e pobres. Deve abrandar a leitura caso se sinta a subir à Termiteira ou à procura do Centro de Saúde Mental Tata Ambroise. Os amantes da leitura em geral sentiram a satisfação de estar perante um bom livro, cujas páginas perduram mesmo depois de devolvidos à estante.

Outras apresentações
Se José Eduardo Agualusa passou a fazer parte dos seus escritores preferidos, não hesite e procure outras leituras. O escritor é profícuo e possui uma vasta obra em que mostra também a sua faceta de contista. Ler vale sempre a pena. Ler liberta a alma.

segunda-feira, fevereiro 08, 2010

Love is in the air

Há que estar atento, muito atento, porque o Dia de São Valentim está aí mesmo a chegar. Embora possa ser visto como mais uma manobra de consumismo desenfreado, pode também ser olhado como uma oportunidade de cantar o Amor. Quer queiramos quer não é este sentimento indefinível que faz girar o Mundo. E haverá melhor maneira de o festejar do que com palavras? Pois é isso mesmo que vai ser celebrado na nossa Biblioteca. De 9 a 12 de Fevereiro irão ser lidos textos em Português, Inglês, Alemão e Francês alusivos ao tema e no dia 9 pela tarde recebemos ainda a visita de Jorge Vadio, um filho da terra, com leitura de textos do Professor Adriano Alcântara. Aparece! E ainda uma sugestão: se queres fugir ao consumismo oferece palavras. Mais baratas que uma caixa de bonbons mas infinitamente mais doces no coração.

quarta-feira, fevereiro 03, 2010

Captain of my soul

A história é comovente, tão comovente que quase parece ficção. Um líder político, presidente de um país a braços com a reconciliação do seu povo, separado durante 42 anos por um regime vil de segregação racial, um desporto reservado à minoria africânder e desprezado pela maioria negra, símbolo do país oprimido e dividido, e a tentativa de harmonizar as diferenças, apagar cores e construir uma identidade colectiva através desse mesmo desporto, o dealbar de uma nação unida. Esta estratégia de uma raríssima inteligência e intuição catapulta para a ribalta o capitão de equipa que a pedido do Presidente eleva os Springboks e, com eles, a nação, gritando em uníssono por um mesmo objectivo. Negros e brancos finalmente unidos. Nada seria igual dali para a frente. Se juntarmos a este argumento baseado no livro de John Carlin, Playing the enemy – Nelson Mandela and the game that made a nation, a realização de Clint Eastwood, Morgan Freeman no papel de Nelson Mandela e Matt Damon como François Pienaar, o capitão da equipa  nacional de râguebi, Springboks, obtemos um filme intenso, com momentos comoventes e empolgantes e a sensação de sermos mais um dos espectadores em Ellis Park a torcer pelos Springboks, sabendo secretamente que torcemos pela igualdade de direitos, pela reconciliação e pelos ideais de liberdade tantas vezes apregoados e outras tantas esquecidos. Martin Luther King orgulhar-se-ia do sonho realizado, o muro das diferenças derrubado não por decreto mas pela comunhão de um mesmo pulsar. E assim, uma nova alma e um novo país.
E diz-se por aí que Invictus não será o melhor filme de Clint Eastwood, depois de Million Dollar Baby e de Gran Torino, mas Invictus é certamente um filme belíssimo, sustentado pelo desempenho sóbrio e inexcedível de Morgan Freeman e Matt Damon. As cenas do jogo de râguebi são de uma rara beleza e mesmo sabendo da História que os Springbocks venceram os All Blacks naquele 24 de Junho de 1995, continuamos suspensos e vibramos na expectaiva da vitória, metáfora de esperança de um país que consegue finalmente gritar pelo mesmo ideal, um nós que substitui o eles proferido e praticado ao longo de quatro décadas de segregacionismo bóer. E Invictus de William Ernest Henley que perdura no ouvido It matters not how strait the gate/ How charged with punishments the scroll/ I am the master of my fate:/ I am the captain of my soul.

terça-feira, fevereiro 02, 2010

quinta-feira, janeiro 28, 2010

Livros novos


valter hugo mãe, uma das minhas melhores surpresas em termos literários de 2009, lançou recentemente o seu último livro. Intitula-se a máquina de fazer espanhóis, versa sobre a velhice e promete ser mais um êxito. O lançamento será feito no Porto e em Lisboa no próximo mês de Fevereiro.
Para aguçar o apetite aqui fica um trrecho desta máquina. Boa leitura:


com a morte, também o amor devia acabar. acto contínuo, o nosso coração devia esvaziar-se de qualquer sentimento que até ali nutrira pela pessoa que deixou de existir. pensamos, existe ainda, está dentro de nós, ilusão que criamos para que se torne todavia mais humilhante a perda e para que nos abata de uma vez por todas com piedade. e não é compreensível que assim aconteça. com a morte, tudo o que respeita a quem morreu devia ser erradicado, para que aos vivos o fardo não se torne desumano. esse é o limite, a desumanidade de se perder quem não se pode perder. foi como se me dissessem, senhor silva, vamos levar-lhe os braços e as pernas, vamos levar-lhe os olhos e perderá a voz, talvez lhe deixemos os pulmões, mas teremos de levar o coração, e lamentamos muito, mas não lhe será permitida qualquer felicidade de agora em diante. caí sobre a cama e julguei que fui caindo por horas, rostos e mais rostos colocando-se diante de mim, e eu por ali abaixo, caindo, sem saber de nada. quando, por fim, me levantei, estava a anos-luz do homem que reconheceria, e aprender a sobreviver aos dias foi como aceitar morrer devagar, violentamente devagar, à revelia de tudo quanto me parecia menos cruel. e a natureza, se do meu coração não se esvaziou o amor pela laura, estaria numa aniquilação imediata para mim também, poupando-me à miséria de ver o sol que arde sem respeito por qualquer tragédia.
fica-se muito zangado como pessoa. não se criem dúvidas acerca disso. fica-se zangado e deseja-se aos outros pouco bem, e o mal que lhes pode acontecer é-nos indiferente ou, mais sinceramente, até nos reconforta, isso sim, como um abraço de embalo, para que não se ponham por aí a arder como o sol e, sobretudo, não nos falem com uma alegriazinha ingénua, de tempo contado, e nos façam perceber o quanto éramos também ingénuos e nunca nos preparáramos para a derrocada de todas as coisas. nunca nos preparamos para a realidade. passamos a ser cidadãos terrivelmente antipáticos, mesmo que façamos uma gestão inteligente desse desprezo que alimentamos crescendo. e só não nos tornamos perigosos porque envelhecer é tornarmo-nos vulneráveis e nada valentes, pelo que enlouquecemos um bocado e somos só como feras muito grandes sem ossos, metidas dentro de sacos de pele imprestáveis que já não servem para nos impor verticalidade nem nas mais pequenas batalhas.

quinta-feira, janeiro 14, 2010

Receita de Leitura (19)


Dose de Amostra
No momento da partida, todos lá em casa choravam. Menos eu e a Olga. Não devia ser pelas mesmas razões. Olga nunca chorava, mesmo ao se queimar acendendo o fogo, ou se um espinho lhe rasgava a carne. Era uma moça dura, feita para mulher de colono de chitaca, obrigada a partir pedras e a desenterrar árvores seculares. Eu tinha vontade de chorar, mas os olhos estavam secos, cheios de visões de desertos. Antevia coisas? Sabia, a vida nunca mais seria igual. Acontecesse o que acontecesse, era um passo definitivo, um mudar de página. Há gente que não se apercebe de quebras de tempo ou de espaço. Ou de vida. Ali estava uma fenda tão grande como a Tundavala. Mas era uma fenda na minha vida. Adivinhava. Por isso os olhos secos. Lagrima-se quando um acontecimento tapa a visão, a dor domina o cérebro, as barreiras permanecem obscurecendo tudo. Então as águas saem, se soltam na escuridão. Quando uma pessoa adivinha o que está para vir, os olhos desfilam sobre desertos, pedras, planuras, florestas ou estepes, pinturas pontilistas, aquilo que se sabe estar perdendo corre mais rápido que o tempo. Sensação de perda, olhos na planície ondulando.

Pepetela, (2009), O Planalto e a Estepe , Lisboa, Dom Quixote.


Composição
O Planalto e a Estepe é um livro poderoso baseado em factos verídicos com princípios activos potenciadores de sensações fortes. Um estudante angolano e uma jovem mongol perdem-se de amores na Rússia comunista ultrapassando barreiras culturais. O mais recente livro do conceituado escritor angolano contém um amor proibido, racismo e preconceito, separação, sofrimento e redenção. Anos e mundos que afastam os protagonistas. Entre países e culturas, vencerá o amor?

Indicações
Recomenda-se a leitura de O Planalto e a Estepe a todos os amantes da leitura sem restrições. Os amantes da literatura lusófona experimentaram sensações de bem-estar. Leitores com gosto por prosas alicerçadas em factos históricos foram vistos a confirmar a objectividade da História nas páginas sofridas desta prosa. Viajantes encontraram conforto neste périplo que percorre continentes.

Precauções
Leitores românticos sentiram com frequência o coração a bater mais forte e uma lágrima teimosa a surgir. Continue a leitura neste caso, o amor tudo vence. Os fervorosos defensores do regime comunista da União Soviética devem ler este livro com restrições. Caso se sintam ruborizar de raiva devem suspender a leitura. Indivíduos defensores dos direitos humanos foram vistos com frequência de dedo em riste na defesa dos mesmos. A leitura não deve ser descontinuada. Em todas as situações a sintomatologia desvaneceu-se com o prazer da leitura. Leia sempre.

Outras apresentações
Se O Planalto e a Estepe lhe agradou mergulhe na obra vasta de Pepetela para outros registos e assuntos. Ler não tem contra-indicações.

quinta-feira, janeiro 07, 2010

Feliz Ano Novo

E aos sete dias de Janeiro de dois mil e dez, eis que o De mês em Quando renasce. Depois de um interregno, cá estamos para mais livros, leituras, imagens, poemas. Aqui ficam os desejos de um óptimo 2010 para todos. Pela minha parte desejo ardentemente que acabem as obras na nossa escola para que possamos também ter uma Biblioteca nova. Até lá há que manter o optimismo. Um bom 2010 então.