domingo, maio 20, 2007

Como o gato

Há dias sabes em que gostava de ser como o gato e que me tocasses sem desejar encontrar quaisquer sentimentos a não ser o que se exprime num espreguiçar muito lento - um vago agradecimento? - e que depois me deixasses deitado no sofá sem que nada pudesses levar da minha alma, pois nem saberias o que dela roubar...

Pedro Paixão, Viver todos os dias cansa, Cotovia

foto: minha

Este texto é um dos meus preferidos de Pedro Paixão. Sou uma amante confessa de felinos, é certo, mas gosto da simplicidade da escrita e da forma como os descreve, usando as suas características para falar das nossas.
E quem é que nunca desejou, secreta ou assumidamente, ser como o gato: livre, belo, sedutor, elegante e independente?
Se gostaste deste texto, descobre mais sobre
Pedro Paixão.
Se gostas de felinos, sugiro a leitura de Amados Gatos de José Jorge Letria. Caso prefiras os fiéis amigos, foi lançado há pouco do mesmo autor Amados Cães pela Oficina do Livro.

sábado, maio 19, 2007

Abraçar o Palácio


Era uma vez um rei que fez promessa de levantar um convento em Mafra. Era uma vez a gente que construiu esse convento. Era uma vez um soldado maneta e uma mulher que tinha poderes. Era uma vez um padre que queria voar e morreu doido.

José Saramago, Memorial do Convento.


O Palácio Nacional de Mafra acabou de ser abraçado por um enorme cordão humano.
Aqui fica o meu xi-coração apertadinho.

Notícia aqui

quarta-feira, maio 16, 2007

Dia da Espiga

E hoje no Dia da Espiga, feriado municipal cá no concelho, deixo-vos com uma estória de outrora, bem contada como a D. Lucinda já nos habituou e recheada de costumes e tradições das comemorações de dias da Espiga bem diferentes dos actuais.
Boa leitura e parabéns à autora!

Burricadas
I
No dia da espiga…
Em tempos que já lá vão…
Faziam-se burricadas
Que ficavam na recordação.

II
Formava-se um grupo
Para um dia bem passar
Rumo à praia da Ericeira
Para ver o lindo mar.

III
Rapazes e raparigas
Preparavam seus burrinhos
Quem não tinha burro seu
Pedia aos seus vizinhos.

IV
Arranjava-se um farnel
Peixe frito, queijo e pão
Uma pinga de bom vinho
P’ra alegrar o coração.

V
Depois de tudo ajeitado
Lá partiam… pois então
Cantando lindas cantigas
Uma delas… o malhão.

VI
A meio da viagem
E para tomar alento
Paravam no Pinhal dos Frades
Donde se avista o Convento!

VII
Era um pinhal cerrado
Nem uma casa havia
De vez em quando, um lagarto…
Toda a moça estremecia.

VIII
Mas vinham logo os rapazes
Mostrando-se todos valentes…
Mandavam-lhe uma pedrada
E elas… ficavam contentes.
IX
Recompostos do cansaço
Lá seguiam estrada fora
P’lo jeito de ver o Sol
Passava já uma hora.

X
Que alegria tamanha
À Ericeira chegar!
Iam dar de beber aos burros
E pô-los a descansar.

XI
Pagavam-se uns dez réis
Para os jumentos guardar…
No quintal duma senhora
Que era perto do mar.

XII
Chegado o grupo à praia
As botas se descalçava
Não se tirava a roupa
Porque tal não se usava…

XIII
Só de saias levantadas…
Nada mais que p’lo joelho…
Quando um rapaz espreitava
- Vira-te p’ra lá, seu fedelho…

XIV
Só usavam fatos de banho
As pessoas da cidade,
Diziam os pais de então
E era mesmo verdade.

XV
Depois do banho tomado
Só até ao joelhinho
Fazia-se uma grande roda
P’ra comer o farnelzinho…

XVI
A seguir… umas corridas
Mais alguma brincadeira
Naquele grande areal
Que linda era a Ericeira!

XVII
Era a hora da partida
O Sol dava o sinal
E já nos burros montados
P’ro ano seria igual!
XVIII
Rumo a Mafra, bem contentes,
Sem precisarem de apoio,
Alegres cantarolando
O “Bailarico Saloio”…

XIX
E eis que dando o sinal
Com os animais a zurrar
Adivinhando a chegada
Aos seus donos… ao seu lar.

XX
Cansados… mas contentes
P’lo dia bem divertido
P’ro ano haveria mais
Ficava logo prometido.

XXI
Eram assim as burricadas
Dos tempos que já lá vão
Que a memória não se apague
Que fique a recordação.


M. Lucinda Ferreira Jesus Silva Santos


Da casa

É sempre com redobrado prazer que apresento os talentos da nossa Escola. A professora Rosália Maçã, professora de Técnicas de Expressão e Comunicação e responsável pelo Atelier de Interpretação na Escola não só tem alma de artista espelhada nos vinte e talentosos anos de carreira dedicada ao teatro bem como na carreira docente, mas também lhe ocupa a alma a magia das letras. É um privilégio ter acesso às palavras até agora ocultas e com uma enorme alegria que as deixo aqui para saborearem:

e eu

esta manhã saltei da cama
pronta a lançar pedras no charco
olhei-me
olhei em meu redor
não enxerguei o charco
e eu...
eu não tinha
pedras

Rosália Maçã, 1999


Aguardem que este foi apenas o primeiro poema...

sábado, maio 12, 2007

Nascer em Maio

Nasci em Maio, o mês das rosas, diz-se. Talvez por isso eu fiz da rosa a minha flor, um símbolo, uma espécie de bandeira para mim mesmo.
E todos os anos, quando chegava o mês de Maio, ou mais exactamente, no dia 12 de Maio, às dez e um quarto da manhã (que foi a hora em que eu nasci), a minha mãe abria a porta do meu quarto, acordava-me com um beijo e colocava numa jarra um ramo de rosas vermelhas, sem palavras. Só as suas mãos, compondo as rosas, oficiavam nesse estranho silêncio cheio de ritos e ternura.
Nesse tempo o Sol nascia exactamente no meu quarto. Eu abria a janela. Em frente era o largo, a velha árvore do largo dos ciganos. Quando chegava o mês de Maio, eu abria a janela e ficava bêbado desse cheiro a fogueiras, carroças e ciganos. E respirava o ar de todas as viagens, da minha janela, capital do mundo, debruçado sobre o largo onde começavam todos os caminhos.(…)
Em Maio de 1963 eu estava na cadeia. Por vezes, a meio da noite, um grito abalava as traves da minha cabeça, direi mesmo da minha vida, e eu acordava suado, dolorido, como se um rato (talvez o medo?) me roesse o estômago. E era inútil chamar. Onde ficara essa voz que dantes vinha repor o sono no seu lugar, repondo a paz dentro de mim? E as manhãs penduradas no mês de Maio, onde acordar era uma festa? Onde ficara a ternura? Onde ficara a minha vida? (…)
No dia 12 não acordei com o beijo de minha mãe.
Porém, nessa manhã (não posso dizer ao certo porque não tinha relógio, mas talvez – quem sabe? -, às dez e um quarto, que foi a hora em que eu nasci), o carcereiro abriu a porta e entregou-me, já aberta, uma carta de minha mãe. E ao desdobrar as folhas que vinham dentro do sobrescrito violado, a pétala vermelha, duma rosa vermelha, caiu, como uma lágrima de sangue, no chão da minha cela.

Manuel Alegre, (1975), A Praça da Canção, Centelha, Coimbra.

Aqui fica mais uma sugestão de leitura de Manuel Alegre, dono de uma voz profunda e penetrante, benfiquista ferrenho, amante de futebol e de caça, político conhecido, e, acima de tudo, um belíssimo poeta contemporâneo. O seu mais recente livro de poesia, Doze Naus, acabou ser lançado com a chancela da D. Quixote.

sexta-feira, maio 11, 2007

Aconteceu na Escola

No passado dia dez de Maio e, mais uma vez, da iniciativa do Núcleo de Animação da nossa Biblioteca/Centro de Recursos, teve lugar no Auditório da Escola uma palestra sobre o Memorial do Convento de José Saramago.
A palestrante foi a professora Teresa Simões, docente de Português e Francês na nossa Escola. Foi não só muito enriquecedor ouvir a professora, mas também um verdadeiro prazer que nos transportou aos tempos imemoriais contidos dentro e fora da obra, à riqueza das personagens, à problemática do autor/narrador, entre outros aspectos focados, e nos fez imergir numa das obras emblemáticas da literatura portuguesa. Quem se poderá esquecer de Baltazar Sete-Sóis unido pelo amor eterno a Blimunda Sete-Luas? Ou do Padre Bartolomeu de Gusmão com a sua Passarola e o sonho de voar?
Alunos do décimo-segundo ano leram algumas passagens de textos e devo dizer-vos que correu muito bem. Foram muito expressivos, leram com boa dicção e deixaram o auditório em silêncio, concentrado e enleado nas palavras que soltavam com convicção e talento. Aqui ficam os parabéns a todos os que participaram. Já sabem que podem encontrar o Memorial do Convento na nossa Biblioteca para (re)leitura. Agora deixo-vos com algumas imagens do evento.


fotos: minhas

quarta-feira, maio 09, 2007

Das Bibliotecas

E hoje apresento-vos um poema da preferência da professora Lurdes Fonseca, a professora Coordenadora da nossa Biblioteca/Centro de Recursos. Certamente não será difícil adivinhar porque terá eleito este... Ora leiam e, a seguir, procurem a Antologia Poética de Carlos Drummond de Andrade na nossa Biblioteca, mais uma presença imprescíndivel no nosso acervo. A professora Lurdes Fonseca está certa de que não se irão arrepender e que só podem sair mais enriquecidos desta viagem pela poesia. Eu, por mim, não posso concordar mais. Boa leitura então!


Biblioteca Verde

Papai, me compra a Biblioteca Internacional
de Obras Célebres
São só 24 volumes encadernados
em percalina verde.

Meu filho, é livro demais para uma criança-
Compra assim mesmo, pai, eu cresço logo.
Quando crescer eu compro. Agora não.
Papai, me compra agora. É em percalina verde,
só 24 volumes. Compra, compra, compra.
Fica quieto, menino, eu vou comprar.

Rio de Janeiro? Aqui é o Coronel.
Me mande urgente sua Biblioteca
bem acondicionada, não quero defeito.
Se vier com arranhão recuso, já sabe:
quero devolução de meu dinheiro.

Está bem, Coronel, ordens são ordens.
Segue a Biblioteca pelo trem-de-ferro,
fino caixote de alumínio e pinho.
Termina o ramal, o burro de carga
vai levando tamanho universo.

Chega cheirando a papel novo, mata
de pinheiros toda verde. Sou
o mais rico menino destas redondezas.
(Orgulho, não: inveja de mim mesmo.)
Ninguém mais aqui possui a colecção
das Obras Célebres. Tenho de ler tudo.
Antes de ler, que bom passar a mão
no som da percalina, esse cristal
de fluída transparência: verde, verde.

Amanhã começo a ler. Agora não.
Agora quero ver figuras. Todas.
Templo de Tebas, Osíris, Medusa,
Apolo nu, Vénus nua... Nossa
Senhora, tem disso tudo nos livros?
Depressa, as letras. Careço ler tudo.
A mãe se queixa. Não dorme este menino.

O irmão reclama: apaga a luz, cretino!
Espermacete cai na cama, queima
a perna, o sono. Olha que eu tomo e rasgo
essa Biblioteca antes que peque fogo
na casa. Vai dormir, menino, antes que eu perca
a paciência e te dê uma sova. Dorme,
filhinho meu, tão fraquinho.

Mas leio. Em filosofias
tropeço e caio, cavalgo de novo
meu verde livro, em cavalarias
me perco, medievo; em contos, poemas
me vejo viver. Como te devoro,
verde pastagem. Ou antes carruagem
de fugir de mim e me trazer de volta
à casa a qualquer hora num fechar
de páginas?

Tudo o que sei é ela que me ensina.
O que saberei, o que não saberei nunca,
está na Biblioteca em verde murmúrio
de flauta-percalina eternamente.

Carlos Drummond de Andrade

Fragrâncias de Maio

foto: minha

terça-feira, maio 08, 2007

Livros com cidades

E de regresso à estante está Perseguido de Luiz Alfredo Garcia-Roza, após uma passagem breve pela minha mesa-de-cabeceira. Finda a última página de mais um romance policial, termina também um périplo pela Cidade Maravilhosa. Há quem defenda que o delegado Espinosa da 12º DP do Rio de Janeiro, bibliófilo que não dispensa uma ida ocasional aos sebos, a personagem central em torno da qual se desenvolvem seis dos seus sete policiais, não é um grande detective na senda dos clássicos, que os policiais de Garcia-Roza carecem de mais densidade e suspense, que é óbvio o desfecho e que o criminoso, assim é nos policiais, se torna evidente desde muito cedo na trama. Que seja.
Na verdade, há algo inscrito naquelas páginas que perdurará muito após a leitura da última palavra, algo que deixa o leitor inquieto, ofegante, tranquilo, descontraído ou deleitado, consoante percorra, nos passos das várias personagens, os trajectos descritos com exactidão extrema, passíveis de serem localizados em qualquer mapa do Rio de Janeiro.
Ruas, praças e morros, Copacabana e o Bairro Peixoto, o Calçadão e o mar de Ipanema, Zona Sul e Zona Norte, fundem-se no momento em que o livro se abre como o Atlântico e as personagens nos carregam, nos levam lado a lado, secretamente sussurrando-nos para embarcar na viagem encetada. Há uns dias, por exemplo, fiquei extenuada depois da corrida no Parque do Flamengo com Berenice, nada que a vista da Baía de Guanabara não consiga compensar. Certo é que Augustão me cansara também nas ladeiras de Salvador e me deixara expectante nos terreiros de candomblé. Intrépidos e incansáveis, estes detectives...
Nos livros com cidades existem roteiros ocultos emergentes do calcorrear das personagens pelos recantos mais recônditos das urbes, respeitando os seus ritmos únicos, e que, ora fugindo, ora flanando nos revelam a alma e a intimidade ausente nos áridos guias de viagens.

Leonor Barros ©
foto: minha

domingo, maio 06, 2007

Dia da Mãe

Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.

Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu
nem houve estrelas a mais...

Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,
não enloqueceu ninguém...

para que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha mãe.

Sebastião da Gama


Também disponível na nossa Biblioteca/Centro de Recursos

quinta-feira, maio 03, 2007

Na senda dos Prémios Literários

O mundo é mais risonho quando há boas notícias para dar.
Desta vez felicitamos José Eduardo Agualusa e, mais uma vez, a língua portuguesa enriquecida com outras matizes está de parabéns. O romance O Vendedor de Passados de José Eduardo Agualusa foi galardoado com o Prémio de Ficção Estrangeira do Independent.
José Eduardo Agualusa é angolano, tem um percurso marcado pela mobilidade entre Angola, Portugal e Brasil e é autor de vários livros de contos e de romances, todos eles tocados pelo encanto da mestiçagem e a sedução de outras culturas. A sua obra está traduzida em várias línguas. O seu último livro Passageiros em Trânsito reúne nove contos de viagens com o colorido a que o autor nos habituou. Recomendo vivamente. José Eduardo Agualusa escreve quinzenalmente uma crónica na revista do "Público" ao Domingo.


Se quiseres ler livros do autor, procura na nossa Biblioteca/ Centro de Recursos.

terça-feira, maio 01, 2007

Próxima paragem: Estrasburgo!

No início deste ano lectivo, o professor Paulo Santos apresentou à Escola o Parlamento dos Jovens. Empenhou-se na divulgação, professores e alunos acolheram a ideia, trabalharam, empenharam-se, ultrapassaram obstáculos e barreiras e foram sendo seleccionados, enquanto outras equipas e escolas foram ficando pelo caminho. Na final nacional, realizada entre 23 e 24 de Abril passados na Assembleia da República e no Auditório do Instituto Português da Juventude no Parque das Nações em Lisboa, a equipa da nossa Escola conseguiu alcançar um lugar entre as dez primeiras escolas a nível nacional e irá assim representar o país no Parlamento Europeu em Estrasburgo, no próximo ano lectivo. Aqui ficam os parabéns aos professores Paulo Santos e Maria José Madail e às alunas que levaram a nossa escola até à final, a Joana Faustino do 10º B e Fátima Campos – 10º E. Parabéns e muito sucesso em Estrasburgo!

foto: gentilmente cedida pelo Professor Paulo Santos

sábado, abril 28, 2007

O porco

O porco. De há uns dias a esta parte, o porco não me sai da cabeça. Dou voltas e mais voltas e ele lá continua. Há lá direito que tenham feito aquilo ao porco? Coitado do Zeca, pobre do Ruca! Coitadito do Carnaval da Vitória… Está mal! Não me conformo. Acho mal. Fiquei triste. Discordo e protesto! E foi isto, porque derrubando-me avidamente sobre um livro numa noite desta semana, não consegui ir deitar-me sem ler a ultiminha frase. A meio do livro, comecei a ganhar um certo rancor a Diogo, uma raivinha em crescendo ao homem, e afecto pelo bicho. É sabido que os porcos são animais inteligentes, têm capacidades de aprendizagem semelhantes às de uma criança de três anos, exceptuando a linguagem, pois claro, são afáveis e doces e se alimentados convenientemente não se tornam em bácoros obesos e tão-pouco são imundos, portanto, a consequência natural das letras desenhadas naquele livro seriam previsíveis: primeiro o encanto, depois o afecto e agora a revolta. Por isso, continuo a protestar: acho MAL! No fundo, no fundo, acho mal, mas acho natural. De que servirão os livros, se não ficarem em nós? Foi isso que aconteceu. Ora leiam lá e digam-me se ficariam indiferentes…


O meu agradecimento à minha colega Fátima Santos que me deu a conhecer Quem me dera ser onda de Manuel Rui.

imagem: Rachel Deacon, "Pig"

O livro está disponível na nossa Biblioteca/Centro de Recursos

terça-feira, abril 24, 2007

A luz dos Girassóis

Íamos já a descer as escadas para o bengaleiro, após um périplo algo demorado pela Neue Pinakothek, em que cada uma teve a oportunidade de se deleitar e fruir as obras a seu tempo, sem a pressão do que se tem de ver ou fazer. Uma visita a um museu quer-se tão demorada quanto o nosso interesse, sendo certo nem sempre o programa de viagem permite o que para uns será um luxo, para outros, uma necessidade.
É importante que tanto nas cidades como nos museus cada um de nós seja deixado a sós com tudo o que nos convida, a própria cidade, o quadro que nos chama, um monumento que nos encanta ou simplesmente o movimento das pessoas que passam numa cidade que se quer sua e que nós, meros visitantes, somos apenas dela por uma pequena parte de tempo, o tempo que lhe dedicámos.
E a Rita revelou-me, à medida que descíamos as escadas para recuperar as malas, malinhas e maletas, os casacos e cachecóis, que tinha gostado, é sabido que esta terá sido a pergunta que mais vezes formulei ao longo daqueles seis dias, e que tinha sentido uma coisa no peito quando viu os Girassóis de Van Gogh. Descansei e terei disfarçado um misto de emoção e de dever cumprido. De arte sei pouco, talvez apenas o que sinto. O que senti há umas duas décadas, quando, naquele mesmo museu me encontrei perante os Girassóis de Van Gogh, poderá ser assim definido, uma coisa no peito, um arrepio, uma faísca na alma. Quando a arte nos provoca emoções destas, vale a pena todo o esforço e vale a pena, mais uma vez, deixarmo-nos seduzir. Que assim seja sempre e que a Rita e todos nós tenhamos sempre coisas no peito. A vida só vale a pena assim.

foto: (minha) Os Girassóis, Neue Pinakothek, Munique


Este texto também pode ser lido aqui

segunda-feira, abril 23, 2007

Dia Mundial do Livro

William Shakespeare nasceu a 23 de Abril de 1564 e morreu a 23 de Abril de 1616, data em que também Cervantes se despediu do mundo. Vladimir Nabokov nasceu também a um 23 de Abril, alguns séculos mais tarde. Certamente a coincidência da data não terá sido alheia ao facto de ter sido escolhido o dia 23 de Abril pela Unesco como o Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor.
Aqui no De mês em quando, a data não podia passar em vão. Afinal, uma grande parte dos posts deste blogue são dedicados a escritores, à escrita e aos livros, não estivesse também ele integrado na Biblioteca/ Centro de Recursos.
Não concebo a vida sem livros, não concebo uma casa sem livros e desconheço como será uma alma ausente de um qualquer livro. Na casa de meus pais, sempre houve muitos livros. Cresci com eles, aprendi a respeitá-los e a amá-los e recordo com ternura o início de cada ano lectivo em que o meu pai me encapava os livros escolares para que não se ferissem e as capas não se estragassem. Com ele, aprendi a folheá-los, a nunca lhes escrever a tinta, a respeitá-los e a lê-los com paixão, dedicação também extensiva à minha mãe. Serve isto apenas para dizer que o amor pelos livros se estimula, nasce pequenino e se desenvolve, como uma planta cuidada, com o entusiasmo da leitura e do saber. Apresento de seguida uma selecção de livros sobre livros ou livros, cuja acção se desenrola em torno dos livros, que continuam na minha vida mesmo depois de lida a última palavra.

Auto de Fé

Peter Kien, sinólogo e obcecado com a sua enorme biblioteca, desposa a empregada pelo carinho que dedicava aos seus livros. Cada vez mais alheado da realidade, a biblioteca torna-se a sua vida ou tornar-se-á a sua morte?

Os livros não são seres vivos, de acordo. Carecem de sensibilidade e , portanto, ignoram a dor tal como a sentem os animais e, provavelmente, também as plantas. Mas, quem é que já demonstrou a insensibilidade total do inorgânico? Quem sabe se um livro não será capaz de ter desejos, de uma forma que nos é estranha e que, por isso, não notamos, por outros livros com os quais conviveu durante algum tempo?

Elias Canetti, Auto de Fé, Livros do Brasil.

Elias Canetti foi galardoado com o Prémio Nobel da Literatura em 1981.

Budapeste

José Costa, um escritor anónimo carioca, divide a sua vida escrevendo livros sem nunca assumir a autoria. Um dia, ao regressar de um congresso de escritores anónimos em Istambul, vê-se obrigado a pernoitar em Budapeste em virtude de um incidente de viagem e, seduzido pelo fascínio da língua magiar, começa a aproximar-se dela, da própria cidade e de Kriska. A narrativa flui entre cidades e mulheres, as línguas e os livros. José Costa torna-se Zsoze Kósta. E quem é Zsoze Kósta? Uma personagem ou o narrador? E Budapeste? Budapeste ou Budapeste? Uma cidade ou um livro?

Artistas, políticos e escroques famosos batiam à minha porta, mas eu me dava ao luxo de atender somente personagens tão obscuros quanto eu mesmo. Clientes que me lembravam aqueles da sala três por quatro do centro da cidade, exceto por serem ricos o suficiente para pagar o caché extorsivo que o Álvaro estipulava, além de custearem a tiragem do livro para distribuição entre parentes e amigos. Tipos como o velho criador de zebu dos cafundós do país, cujas memórias reescrevi com muito sexo, transatlânticos, cocaína e ópio, proporcionando-lhe algum conforto num leito de hospital.

Chico Buarque, Budapeste, Dom Quixote,

Budapeste foi galardoado em 2004 com o Prémio Jabuti, o mais importante e prestigiado prémio brasileiro de Literatura.

A Sombra do Vento

Cemitério dos Livros Esquecidos? Sim, Cemitério dos Livros Esquecidos, assim se chama o local onde Daniel Sempere foi levado pelo seu pai numa manhã de 1945. O livro que escolhe para que renasça do cemitério através da leitura vai alterar o curso da vida de Daniel. Um livro obrigatório para os bibliófilos, cheio de suspense e mistério com Barcelona em pano de fundo. Para que o mistério se mantenha, ficam apenas estas palavrinhas. Ler é bem melhor do que ouvir contar.

Numa ocasião ouvi um cliente habitual comentar na livraria do meu pai que poucas coisas marcam tanto um leitor como o primeiro livro que realmente abre caminho até ao seu coração. Aquelas primeiras imagens, o eco dessas palavras que julgamos ter deixado para trás, acompanham-nos toda a vida e esculpem um palácio na nossa memória ao qual, mais tarde ou mais cedo — não importa quantos livros leiamos, quantos mundos descubramos, tudo quanto aprendamos ou esqueçamos —, vamos regressar.

Carlos Ruiz Zafón, A Sombra do Vento, Dom Quixote.


Carlos Ruiz Zafón foi vencedor do prémio Correntes d´Escritas 2007 com A Sombra do Vento.


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domingo, abril 22, 2007

Lisboa Cidade do Livro

Este ano o Dia Mundial do Livro irá ser assinalado em Lisboa de forma ímpar. A data marcará o início de um percurso assinalado com iniciativas diversas como encontros com escritores, conferências, colóquios e exposições e que culminará com a 77ª edição Feira do Livro de Lisboa. O programa é extenso e apelativo. Espreitem aqui. Difícil vai ser escolher, mas ler é como saber, não ocupa lugar, portanto, não fiquem em casa. Ler é mais!

quarta-feira, abril 18, 2007

Boas Notícias!

E a literatura de expressão portuguesa está mais uma vez de parabéns. Desta vez foi também um dos meu escritores preferidos o galardoado. Mia Couto foi o vencedor do Prémio União Latina de Literaturas Românicas.
Moçambicano, biólogo de formação, tem uma já vasta obra publicada, maioritariamente de contos, estórias com um cunho e uma prosa muito colorida e um linguajar único e expressivo. É também autor de Pensatempos, uma colectânea de discursos, nos quais se encontra a carta ao Presidente Bush e ainda de livros infantis. O seu último romance O Último Pé da Sereia marca um ponto de viragem na narrativa a que o escritor nos habituou, não deixando por isso de ser um romance arrebatador, que nos prende em três tempos diferentes distinguidos entre si também pela cor das páginas do livro.
Leitor e amante da literatura que se preze de o ser terá de ler pelo menos um livro de Mia Couto na vida, portanto, mais uma vez recomendo uma visita à nossa Biblioteca. Ler Mia Couto é uma experiência transformadora pela expressividade que consegue emprestar a esta nossa língua portuguesa que atravessou mares e nos une. Parabéns, Mia Couto!

terça-feira, abril 17, 2007

As melhoras!

Foi com apreensão que li que António Lobo Antunes está doente . A sua habitual crónica na revista "Visão" é de uma lucidez arrepiante, e mais uma vez, neste caso pelas piores razões, António Lobo Antunes nos faz sentir que a literatura não são apenas palavras escritas, letras desenhadas em carreirinhas umas a seguir às outras, são sentimentos e emoções que ficarão para sempre nas nossas memórias. Diz António Lobo Antunes O que farei daqui para a frente, se existir daqui para a frente? Livros, claro, foi para isso que me mandaram para o meio de vós*. Resta-me ter esperança e acreditar que muitos livros surgirão ainda daqui para a frente.


*A Crónica de António Lobo Antunes pode ser lida na íntegra na nossa Biblioteca/Centro de Recursos e no placard dedicado à Literatura e à divulgação de autores, da responsabilidade da patrona da Biblioteca, que se encontra no átrio para a entrada da Biblioteca e que este mês é dedicado a António Lobo Antunes. Boa leitura!

quarta-feira, abril 11, 2007

Numa livraria perto de si

Já aqui me confessei bulímica por livros. Posso passar sem comprar uma roupinha, sim, tenho um fraquinho por t-shirts, camisas, tops, um anel, pois, os meus anéis vêem-se à légua, um perfume, nunca se sabe que fragrância me vai apetecer usar cada dia que amanhece, mas não consigo passar sem um, dois, vá lá, três livrinhos e estou a ser muito modesta com este meu apetite devorador… Na verdade, nenhuma das minhas viagens fica completa sem uma visita a uma livraria do país onde me encontro. Essa é também uma forma de nos apercebermos dos hábitos de leitura de um povo e do apreço e valor que dão à leitura.
Munique não tem só museus, monumentos, ruas e praças bonitas, história e cultura, tem uma zona pedonal agradável e segura com lojas de um lado e de outro que faz as delícias de muita gente, e bem lá em baixo no Marienplatz uma livraria que é o meu desassossego. Seria capaz de lá passar um dia inteiro, perdida a folhear, ler, ver cheirar os livros acabados de imprimir. A
Hugendubel são cinco andares de livros, divididos por secções e andares, literatura infantil e juvenil, traduzida, de viagens, história, geografia, arquitectura, arte, turismo, acho que não há nada que falte ali, inclusivamente, um café no último piso e espaços para que os frequentadores possam saborear e escolher os seus livros. Como é esperado, não passei lá um dia, nem uma tarde sequer, havia muito para ver e fazer e não estava sozinha, quando se viaja acompanhado e se tem a nosso cargo dez pessoas manda a responsabilidade, respeito e bom senso que não se use o tempo olhando para o nosso umbigo, mas uma boa meia hora foi o suficiente para que no périplo pelos autores consagrados descobrisse dois livros do patrono da nossa Escola, José Saramago. Um deles estava bem visível, no corredor de passagem, o Ensaio sobre a Cegueira, e o outro, O Homem Duplicado, menos visível. Procurei uma senhora e pedi-lhe se podia tirar uma fotografia, o que vale é que aos turistas muito se perdoa, expliquei que era portuguesa e professora. A senhora foi uma simpatia e acrescentou que Saramago é muito procurado na livraria. Fiquei orgulhosa, claro está. Para que não restem dúvidas, aqui fica a prova.

fotos: minhas

Este texto pode ser lido também aqui

terça-feira, março 27, 2007

Dia Mundial do Teatro

All the world's a stage,
And all the men and women merely players:
They have their exits and their entrances;
And one man in his time plays many parts,
His acts being seven ages.

William Shakespeare

segunda-feira, março 26, 2007

Prata da casa

Quem visita a nossa Escola, quem a frequenta diariamente, dela faz a sua vida e a ela devota os seus dias, conhece, sem qualquer dúvida, a D. Lucinda. A portaria está nas suas mãos uma parte do tempo e é ela quem nos recebe, a ela também a quem damos os bons-dias, e é também a D. Lucinda que, por vezes, chama a atenção de quem se esquece de passar o cartão da escola ou de quem lhe é menos cortês, infelizmente. A maior parte de quem lá passa desconhecerá, porém, que por trás da candura e paciência está uma poetisa. Hoje deixo-vos com um passeio por Mafra, mais uma vez a propósito. Não só os escritores de renome têm algo a dizer sobre Mafra. Quem cá vive há tanto tempo tem uma opinião igualmente digna de ser ouvida. É, por isso, com grande prazer que aqui dou a conhecer a veia poética da nossa D. Lucinda. Aproveitem!

Passeio a Mafra

I
Fui passear a Mafra
Para ver sua beleza
Meu olhar ficou atento
Ao admirar o Convento
Com tamanha grandeza

II
Fui ver a sua tapada
Cheia de vegetação
Com animais à mistura
Ainda bem que perdura
Aquela boa criação.

III
Segui p´ra Vila Velha
Passeio que fiz a pé
P´las Tecedeiras desci
As muralhas descobri
E a Igreja de Santo André.

IV
Vi a Quinta da Cerca
E o seu Palácio velhinho
Vi um relógio de sol
Um a fazer pão mole
Vi de tudo um bocadinho.

V
Dei um salto ao miradouro
Dali tudo se avista
Vi moinhos a rodar
Gado lindo a pastar
E os galos com sua crista.

VI
Segui p´lo Jardim do Cerco
Sua estufa admirei
Vi num lago muitos peixinhos
Perto dali passarinhos
Da nora imponente gostei.

VII
Abram os olhos Mafrenses
Vejam se se enchem de capricho
Preservai a Natureza
Sem ela não há beleza
Não sujem Mafra de lixo.

Maria Lucinda Santos

sexta-feira, março 23, 2007

Memória por trás do livro

E agora que o Convento e a Basílica estão nomeados para uma das Sete Maravilhas de Portugal, aqui fica um excerto de como nasceu a obra que faz viajantes, turistas, professores e alunos deslocarem-se cada vez mais a Mafra:

Um dia, aproxidamente por esta mesma época, fui de excursionista a Mafra. Tinha nascido na Azinhaga, vivia em Lisboa, e agora, quem sabe se por um cúmplice aceno dos fados, uma piscadela de olhos que então ninguém poderia decifrar, levavam-me a conhecer o lugar onde, mais de cinquenta anos depois, se decidiria, de maneira definitiva, o meu futuro como escritor. Não recordo que os Baratas tivessem ido connosco. Tenho mesmo a ideia vaga de que nos levou de automóvel um conhecido qualquer de meu pai que, tanto quanto sei, não deixou outro sinal de passagem nas nossas vidas. Dessa breve viagem (não entrámos no convento, apenas visitámos a basílica) não guardo mais viva lembrança que a de uma estátua de S. Bartolomeu colocada, e aí continua, na segunda capela do lado esquerdo de quem entra, a que chamam, creio, em linguagem litúrgica, o lado do Evangelho. Andando eu, pela minha pouca idade, tão falto de informação sobre o mundo das estátuas e sendo a luz que havia na capela tão escassa, o mais provável seria que não me tivesse apercebido de que o desgraçado Bartolomeu estava esfolado se não fosse a parlenga do guia e a eloquência complacente do seu gesto ao apontar as pregas de pele flácida (ainda que de mármore) que o pobre martirizado sustinha nas suas próprias mãos. Um horror. No Memorial do Convento não se fala de S. Bartolomeu, mas é bem possível que a recordação daquele angustioso instante estivesse à espreita na minha cabeça quando, aí pelo ano de 1980 ou 1981, contemplando uma vez mais a pesada mole do palácio e as torres da basílica, disse às pessoas que me acompanhavam: «Um dia gostaria de meter isto dentro de um romance.» Não juro, digo só que é possível.

José Saramago, As Pequenas Memórias, Caminho. pp 77-79

S. Bartolomeu, Basílica do Palácio Nacional de Mafra
foto: minha

quarta-feira, março 21, 2007

E porque...

ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e cetim…
É condensar o mundo num só grito!
(...)

comemora-se hoje o Dia Mundial da Poesia.
Aqui fazemos uma viagem pela poesia de outras latitudes...
Preparados?
poema de Florbela Espanca

Além do Bojador

Grito Negro

Eu sou carvão
E tu arrancas-me brutalmente do chão
e fazes-me tua mina, patrão.
Eu sou carvão!
E tu acendes-me, patrão,
para te servir eternamente como força motriz
mas eternamente não, patrão.
Eu sou carvão
e tenho que arder sim;
queimar tudo com a força da minha combustão.
Eu sou carvão;
tenho que arder na exploração
arder até às cinzas da maldição
arder vivo como alcatrão, meu irmão,
até não ser mais a tua mina, patrão.
Eu sou carvão.
Tenho que arder
Queimar tudo com o fogo da minha
combustão.
Sim!
Eu sou o teu carvão, patrão

José Craveirinha

Outras margens

»essa palavra margem«
quem primeiro domesticou a palavra margem foi guimarães rosa.

depois foi invadido por marés de margens...
depois pode-se apontar
margem de rio
margem da página
margem do momento [ou momento à margem]
margem-só
terceira margem [do rio, das pessoas, do amor]
poeta à margem
poesia das margens
margem de gente
à margem da vida
vidas sem margem
ficas sem margem
na margem da vida
margem de vinda
margem de ida
margens de chegada [com canoas, jangadas, embarcações]
margem adiada
margem odiada
margens dos cegos, dos gagos
a margem dos que estão
à margem dos que não estão
margem da liberdade [de pisar o chão]
à margem da verdade
margem da lágrima
minha margem
na margem
do meu poema.

[a terceira margem da pessoa – é o outro...?]

Ondjaki

Para lá dos Andes

NO TE QUIERO sino porque te quiero
y de quererte a no quererte llego
y de esperarte cuando no te espero
pasa mi corazón del frío al fuego.

Te quiero sólo porque a ti te quiero,
te odio sin fin, y odiándote te ruego,
y la medida de mi amor viajero
es no verte y amarte como un ciego.

Tal vez consumirá la luz de enero,
su rayo cruel, mi corazón entero,
robándome la llave del sosiego.

En esta historia sólo yo me muero
y moriré de amor porque te quiero,
porque te quiero, amor, a sangre y fuego.

Pablo Neruda

Do lado de baixo do Equador

Memória

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

Carlos Drummond de Andrade

foto: minha

Do umbigo

o teu sono anoiteceu mais que a noite
e hei-de escrever-te sempre sem que nunca
te escreva sei as palavras que fechaste
nos olhos mas não sei as letras de as dizer
ensina-me de novo se ensinares-me for
ir ter contigo ao teu sorriso ensina-me
a nascer para onde dormes que me perco
tantas vezes numa noite demasiado pequena
para o teu sono num silêncio demasiado fundo
dormes e tento levantar a pedra que te
cobre maior que a noite o peso da pedra que
te cobre e tento encontrar-te mais uma vez
nas palavras que te dizem só para mim
o teu sono anoiteceu mais que as mortes
que posso suportar e hei-de escrever-te
sempre e mais uma vez sozinho nesta noite

José Luís Peixoto

segunda-feira, março 19, 2007

Vida leva eu

A tarde aconchegava-se no regaço da noite. Entre cariocas e turistas, caipirinhas saboreadas à porta dos bares ou nas janelas para o outro lado do casario encavalitado, e souvenirs acabados de adquirir nas lojas para o efeito, um bulício miudinho instalava-se em Santa Tereza. A hora anunciava o regresso.
Do outro lado da rua, numa pequena praça, um táxi largava turistas e de turistas se havia de ocupar de novo, quando atravessámos a rua e lhe pedimos que nos levasse ladeiras abaixo até Ipanema na Zona Sul. O trajecto escolhido seria um pouco mais longo, mas certamente com menos trânsito. Confiar em taxistas pode ser um risco, mas pode também abrir janelas do desconhecido.
Cosme Velho, no sopé do caminho, morro acima, que levaria ao Corcovado e que dias antes percorrêramos. Detive-me na paisagem, embrenhada na Mata Atlântica com o perfume da clorofila densa a entrar pela janela aberta do táxi. Lá dentro, a conversa começara a girar ao ritmo tranquilo da tarde que se escondia. Portugueses? Sim, portugueses. Sei que terei dito como era única aquela cidade, mesmo não me lembrando de o ter feito. Quem algum dia viu o Rio de Janeiro a seus pés jamais recuperará de tanta beleza e sei que teria no rosto o sorriso pateta de quem se deixa absorver por essa beleza insondável instalada na alma para ficar até ao último dia de memória. O taxista sorriu, feliz pelo elogio, habituado, contudo, a ele.
Seria Domingo e dia de Fla-Flu. O Maracanã estaria então a esvaziar-se após o clássico dos clássicos não muito longe dali. Mesmo quem não gosta de futebol sabe que Fla-Flu é Fla-Flu. No rádio, ainda os resquícios do jogo. O resultado? Um empate talvez. À saída do túnel Rebouças, a conversa soltara-se desinibida. E quais dos brasileiros estavam jogando em Portugal? Liedson, por exemplo. Não, esse não conheço não. Luisão? Sim, claro. E Felipão, o gaúcho teimoso que impôs sua vontade mas trouxe o título para casa em 2002, estava agora ao serviço de Portugal.
A tarde cada vez menos nítida e lá fora a brisa suave de Março, misturada com uma humidade perfumada e o linguajar doce desse português do Brasil, musical e carinhoso. E ao atravessarmos a cidade, de repente com a Lagoa Rodrigo de Freitas em frente, a conversa escorregou para a festa de recepção dos pentacampeões no Rio que o taxista relatava com emoção potenciada pela alma brasileira e a paixão pelo futebol. Isso aqui tava assim de gente… e continuava O senhor não conhece? Zeca Pagodinho? O nome não era de todo estranho, também a propósito da Copa do Mundo e da obstinação de Scolari ao preterir todos os afamados cantores brasileiros por um simples pagodeiro que pelo sonho ajudara a levar o país à vitória, surgira algures numa conversa passada. A melodia absolutamente desconhecida, porém. E o taxista, mais convincente que qualquer outro guia de viagem credenciado, cantou-nos Confesso que sou de origem pobre, meu coração é nobre, foi assim que deus me fez…Deixa a vida me levar. Vida leva eu. Deixa a vida me levar… Conhece agora? E continuava cantando Vida leva eu… Naquele táxi atravessando a cidade talhada entre morros, céu e mar, surgiu mais um hino para a banda sonora da cidade maravilhosa, sem o brilhantismo de outros compositores, igualmente genuíno e autêntico. Nada como deixar a vida nos levar.

Leonor Barros ©

quinta-feira, março 15, 2007

Parabéns, António Lobo Antunes!

Eis também a razão pela qual António Lobo Antunes não visitará este humilde cantinho para receber as nossas felicitações pelo maior Prémio de Língua Portuguesa que lhe foi atribuído:

No que me diz respeito não sei mexer num único desses símbolos do progresso, do aspirador ao apara-lápis, do micro-ondas ao blequendéquer, do vídeo ao saca--rolhas que levanta a pouco e pouco duas pérfidas asinhas de metal. Afasto-me dos telemóveis como da peste, faço largos círculos para não passar perto de uma calculadora de bolso. O isqueiro do esquentador assusta--me com as suas rápidas, instantâneas chamazinhas azuis, o trepidar da máquina de lavar loiça provoca-me suores de vítima, de lenço amarrado na cara, de pelotão de execução. E tenho conseguido somar anos, apesar dos aparelhos, graças a uma prudência maníaca e a uma cautela de cego, até que surgiram os computadores.
Julgo não ter medo da morte, não ter medo do dentista, não ter medo da lepra, não ter medo dos políticos, mas tenho medo dos computadores. Tenho medo da sua falsa inocência, da sua submissão aparente, da sua eficácia tenebrosa, do seu ódio silencioso e vesgo. Já me engoliram um romance inteiro, já me transformaram capítulos em poesia experimental, já retiraram ossos aos meus parágrafos, reduzindo-os a um puré de adjectivos. Por isso escrevo à mão. Escrevo à mão para que os erros sejam meus e as personagens iguais às da minha cabeça e não resultado da imaginação delirante e asséptica de uma disquete esquizofrénica, inventando situações desconfortáveis e aberrantes como as dos sonhos das gripes. E os computadores imagino-os rugindo numa jaula de circo, sonolentos e de unhas de fora, só possíveis de enfrentar de botas altas, alamares e chicote na mão, obedecendo a contragosto às ordens de quem se aproxima deles, tocando-lhes com um pau para os obrigar à complicada proeza de uma frase escorreita.


in "Os Computadores e Eu"
António Lobo Antunes, (1996), Crónicas, Círculo de Leitores.

Para ler mais, nada como requisitar um livro do António Lobo Antunes no nosso Centro de Recursos. Recomendo os livros de Crónicas e Os Cus de Judas para iniciados e antes de se abalançarem prosa dentro.

quarta-feira, março 14, 2007

terça-feira, março 13, 2007

Primavera


Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Alberto Caeiro, Poemas
foto: minha

segunda-feira, março 12, 2007

Notícias

A semana passada foi recheada de iniciativas aqui na Escola, também por isso, a minha ausência aqui no blogue.
No dia sete comemorou-se o Dia da Escola. Logo pela manhã iniciaram-se as actividades que envolveram os alunos e o Departamento de Informática. Ainda pela manhã eu, a professora Paula Costa e a professora Alice Carvalho com a colaboração de alunos de várias turmas demos a provar mais uma vez os sabores britânicos e das nossas mãos surgiram scones, deliciosos, diz quem provou. À tarde, o professor Adriano Alcântara deu uma palestra no Auditório da Escola sobre a poesia moçambicana de expressão portuguesa, com uma contextualização fundamental para a compreensão da poesia e prosa lusófonas, e levou-nos a viajar além-mares com música e fotografia. Uma triangulação perfeita. Entretanto, os alunos da Escola Básica Hélia Correia fizeram também uma visita à nossa Escola.
E eis que chega oito de Março. Numa iniciativa deste Centro de Recursos, o Dr. Manuel Gândra deslocou-se à nossa Escola para dar um colóquio em torno do Monumento de Mafra, bem a propósito, uma vez que o Monumento está nomeado para uma das Maravilhas de Portugal. Oito de Março foi também o Dia Internacional da Mulher. Houve poemas e bonbons para não deixar a data em vão, numa iniciativa também do Centro de Recursos. Ufa, tanta coisa! Espero que nada tenha ficado de fora.

terça-feira, março 06, 2007

Parabéns, Gabo!

Hoje estamos aqui para felicitar Gabriel García Márquez. O Patriarca entrou no seu Outono e comemora 80 anos de vida. Nascido na Colômbia, em 1927, em Aracataca, onde se terá inspirado para escrever alguns dos seus romances, Gabriel García Márquez é o nome mais emblemático do realismo mágico e autor de uma obra ímpar reconhecida pela Academia Sueca em 1982. Assume-se como caribenho, uma identidade mais vasta do que as fronteiras físicas podem impor e que o caracteriza inequivocamente.
Este ano de 2007 será um ano pleno de datas comemorativas para Gabo, assim é carinhosamente conhecido no mundo hispânico e fora dele. Comemorar-se-ão vinte e cinco anos de lhe ter sido atribuído o Prémio Nobel da Literatura e, em Junho, quarenta anos terão decorrido sobre a publicação do romance, Cem Anos de Solidão, talvez o mais conhecido de toda a sua obra.
Diagnosticado com cancro em 1999, Gabo começou a escrever as suas memórias, publicadas em 2003, Viver para Contá-la, e publicou posteriormente, em 2004, uma novela, Memórias das minhas Putas Tristes, a história de uma ancião a braços com a solidão e o amor. Olhos de Cão Azul é o último livro recentemente publicado no nosso país. O seu 80º aniversário foi amplamente celebrado no mundo latino.

segunda-feira, março 05, 2007

Feira do Livro

Realizou-se na semana passada, entre os dias vinte e oito de Fevereiro e três de Março, a primeira Feira do Livro organizada pela Associação de Estudantes da Escola. O Centro de Recursos não foi alheio à iniciativa e prestou o seu apoio. Durante quatro dias houve livros para todos os gostos de vinte editoras diferentes. A Feira esteve aberta não só à comunidade escolar mas também a toda a comunidade em geral e, a acompanhar a iniciativa, tiveram lugar quatro palestras, a cargo dos professores Adriano Alcântara, António Abreu e Ismael Gonçalves e do Dr. Artur Franco Henriques. O tempo não se mostrou muito cooperante no primeiro dia, é certo, mas tudo vale a pena para que a leitura se torne um hábito tão intuitivo como tantas outras tarefas que fazemos no quotidiano e que se revelam essenciais para o nosso equilíbrio. Que a iniciativa se repita e sempre com sucesso.

imagem: Gabriele Münter

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Mais do que apenas quinze minutos

Passam hoje vinte anos sobre a morte de um dos mais emblemáticos artistas plásticos do século XX, Andy Warhol. Warhol ficou para a história não só através da sua obra muito vasta e da Pop Art, movimento artístico a que pertenceu, mas também pela celebérrima frase/ideia de que todos temos direito aos nossos 15 minutos de fama, catapultando o cidadão comum para uma outra esfera longe do anonimato. Provavelmente a maioria de nós que lhe faz uso não terá noção de que está a citar Andy Warhol.
Notabilizou-se pela singular capacidade de transformar artigos do quotidiano e de consumo de massas em obras de arte. A lata de sopa Campbell é um dos exemplos mais significativos, se não o mais conhecido. Garrafas de Coca-Cola, notas de dólar, frascos de ketchup Heinz são também motivos presentes e representativos da civilização contemporânea de consumo. Recriou retratos de icons dos anos 60, como Marilyn Monroe, Elizabeth Taylor, Judy Garland, Elvis Presley e Marlon Brando, símbolos da sociedade americana e do mundo contemporâneo e ainda Mona Lisa, Mao Tsé Tung e Lenin.
Andy Warhol foi ele próprio uma personagem quase teatralmente encenada. Controverso, criador, criativo, único, os seus quinze minutos de fama não têm fim. Assim é com a arte.

imagem: Andy Warhol

Mais aqui.

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

António Lobo Antunes

António Lobo Antunes é uma dos mais consagrados escritores de língua portuguesa. Galardoado com vários prémios e várias vezes na mira do Prémio Nobel, conta com uma obra vasta, iniciada com Memória de Elefante na segunda metade da década de setenta.
Nas poucas vezes que brinda o público com as suas aparições, António Lobo Antunes deixa sempre bem clara a relação de profunda intimidade e comunhão com a escrita e algum desprendimento do mundo material em sua volta. Escrever, gosta de escrever, quer escrever e parece ter sempre um romance em gestação. A sua obra divide-se entre romances, três volumes de crónicas publicadas maioritariamente na revista “Visão” e um livro que compreende a correspondência que manteve com a sua mulher durante a Guerra Colonial em Angola. Detesta computadores, prima por manter a relação entre o papel e a caneta e, durante os anos em que exerceu psiquiatria no Hospital Miguel Bombarda, os romances foram desenhados nos blocos destinados às prescrições médicas.
O estilo inconfundível dos seus romances marca definitivamente uma nova geração e imprime um ritmo ímpar e inédito à narrativa. Goste-se ou não, António Lobo Antunes é uma referência incontornável das letras portuguesas contemporâneas e juntamente com José Saramago, com quem diz não entender porque o acasalaram, um cartão de visita além fronteiras da literatura portuguesa.

Conversas na livraria

Foi isto enquanto vasculhava entre livros na tentativa de me decidir Este? Este ou este? Ou nenhum mesmo, carecida que estou de espaço e tempo para albergar mais livros. A voz ergueu-se e com ela a brisa dos corpos em trânsito entre um e outro escaparate, nos corredores estreitos. Estão aqui, estão aqui todos, este é o último, depois tem aqui as crónicas. A voz feminina questionou algo que não se deixou decifrar na distância e no tom de voz baixo. O rapaz continuou Sabe que ele é um escritor que se ama ou se odeia. Tem uma forma muito diferente de escrever, escreve tudo o que lhe vem à cabeça ao mesmo tempo. Mas é importante, é sempre nomeado para o Prémio Nobel. A mulher continuou pedindo informações e explicações. Olhando para os romances esboçou um ar temente ao volume de páginas e, entretanto, dirigindo-se para uma outra estante na peugada do empregado, solicitou-lhe o Livro de crónicas. O empregado foi peremptório e verdadeiro. São três, os livros de crónicas: Livro de Crónicas, este aqui, que é o primeiro, depois o Segundo Livro de Crónicas e o Terceiro Livro de Crónicas. A mulher queria saber mais e retomou o tema dos romances. Qual, qual seria melhor? O rapaz aconselhou-a a talvez começar pelas crónicas, o busílis centrava-se na escolha entre os três volumes. Achei por bem acudir-lhe na decisão. Disse-lhe pois que eram bem diferentes entre si, sendo que o primeiro se destacava dos outros por ser menos autobiográfico. Opinião, pura e simples. A mulher quis saber Já leu? Respondi-lhe que sim, que já lera os três mas que o primeiro era o meu preferido. A mulher esboçou um sorriso delicado e simpático e manifestamente feliz por encontrar alguém que já tivesse lido o escritor sobre o qual subitamente o seu interesse recaía. A conversa espraiou-se para o próprio autor E viu-o, ontem na televisão? Sim, sim, vi. É extraordinário, não é? Sim, de facto. E já reparou como ele escreve? A rapidez? Fantástico! Pois, pois. E agora já tem outro romance escrito além deste que acabou de publicar. Eu disse que pela entrevista colhera a impressão que este livro não teria sido publicado anteriormente para não coincidir com a publicação do outro livro. Procurei-o na estante e vi o livro no escaparate bem de frente para ambas e disse-lhe aquele ali. A mulher ficou surpresa. Aquele? De cartas? Sim, um livro que foi publicado com as cartas que ele escreveu à mulher enquanto esteve na Guerra Colonial, em Angola. A mulher ficou alvoraçada. À primeira mulher? E eu, Sim, julgo que sim… A mulher continuou, desta feita, com um ar cúmplice de mulheres que confessam o indizível, a voz levemente mais baixa, Àquela, à Carmito? Sim, que ele e as mulheres… Agora o ar rapioqueiro Ai, António, meu ganda maluco! Restava-me desfazer o equívoco e dizer-lhe que não, que a mulher a quem dedicou os aerogramas não se chamava Carmito. Pressenti, no entanto, que se iniciaria uma conversa para a qual eu não teria respostas, os irmãos, os pais, as filhas, as mulheres. Esbocei um sorriso, desejei à senhora boa leitura e retirei-me. Depois da conversa, o leitor deve ser deixado a sós com o texto. Dois é companhia, três uma multidão. A Carmito que o diga.
Leonor Barros©
imagem: "Pública" nº 545/ 29 Out. 06

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

No teu Poema II

A segunda edição de No teu Poema tem um duplo significado.
Quando perguntei à Joana se queria participar, a resposta foi positiva e há umas semanas trouxe-me então este poema, que lhe fora oferecido. Parabéns ao Bruno por lhe ter dedicado este poema, parabéns à Joana por o merecer e dar a conhecer aos olhos e corações curiosos de todos nós. Comemorando-se hoje o Dia de São Valentim, que, consumismo à parte, se consagrou aos apaixonados, este poema não podia vir em melhor altura. Um bom dia aos dois! Que continuem felizes e inspirados. Deixo-vos agora com o poema:

A Vida

A Vida é o dia de hoje
A Vida é a sombra que foge
A Vida é nuvem que voa
A Vida é sonho tão leve
Quase desfaz como a neve
E como fumo se esvai
A Vida dura um momento
Mais leve que um pensamento
A Vida leva-a o vento
A Vida é folha que cai
A Vida é flor na corrente
A Vida é sopro suave
A Vida é estrela cadente
Voa mais leve que a ave
Nuvem que o vento nos ares
Nuvem que o vento nos mares
Uma após outra lançou
A Vida… pena caída
De asa de ave ferida
De vale em vale perdida
A Vida o vento a levou!
A Vida sem ti é sombria
Sem ti não posso viver
Sem ti não tenho alegria
Sem ti prefiro morrer!

João de Deus

O poema da vida da Joana Ferreira, 12º L

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

Leituras

Karla Suárez foi uma das presenças na 8ª edição das Correntes d´Escritas, na Póvoa do Varzim. A escritora cubana, nascida em 1969 em Havana, reside actualmente em Paris, regressando, no entanto, a Havana todos os anos, tem publicado entre nós Os Rostos do Silêncio, o seu primeiro romance, premiado em Espanha em 1999 e 2000 e A Viajante, publicado em 2006.
A Viajante é uma narrativa apaixonante centrada em duas amigas, Circe e Lucía, juntas e separadas pelo rumo das suas vidas, tendo como ponto de partida comum o seu país natal, Cuba, e como pano de fundo recorrente mas subtil, a cubanidade matricial de ambas. Circe procura incessantemente o seu lugar, uma cidade que seja sua, e vai percorrendo nesta demanda vários países e cidades, São Paulo, Cidade do México, Madrid, Paris e Roma, mantendo contacto com a amiga Lucía, entretanto radicada em Roma, através de postais enviados no seu périplo. Circe, simbolicamente assim chamada, considera que cada cidade tem o seu tempo e, à medida que as percorre, compra um relógio novo, um para cada cidade, em sintonia com esse mesmo tempo, que ela espera sempre diferente. Para saber mais, nada como ler o livro...


Karla Suárez, (2006), A Viajante, Edições Asa.

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Correntes d´Escritas

"Correntes d´Escritas" são um encontro de escritores de expressão ibérica promovido pela Câmara Municipal da Póvoa do Varzim. Este ano será a sua oitava edição e conta com a presença de sessenta escritores.
O evento decorrerá entre sete e dez de Fevereiro e inclui debates, encontros de escritores com alunos e professores, bem como a oportunidade de assistir a lançamentos de livros, sessões de autógrafos e homenagens. Será homenageada Ray-Güde Mertin, agente literária falecida recentemente, responsável pela publicação e divulgação de vultos das letras portuguesas e lusófonas em solo estrangeiro, entre os quais se contam José Saramago, António Lobo Antunes, Mia Couto e José Eduardo Agualusa. Homenageados serão também Carlos Paredes e Vinícius de Moraes, cujo aniversário se comemorou no Brasil no passado dia 25 de Janeiro.
Na edição que amanhã se inicia dar-se-á também lugar à fotografia com uma exposição fotográfica "Quartos de Escrita", da autoria de Daniel Mordzinski, em que são retratados escritores de renome em quartos de hotal.
"Correntes d´Escritas" são um evento importante na divulgação da literatura e um encontro incontornável na partilha das letras ibéricas.

Mais aqui

Fevereiro

E eis que chega Fevereiro. Fevereiro marca a transição. Ainda com alguma timidez, os dias tornam-se menos breves e sombrios. Aqui e ali, um verde que desponta, o sol que nos vai sorrindo no horizonte no ocaso de cada dia e a Primavera que se anuncia, pudica, um prenúncio indelével do que Março nos trará.

segunda-feira, janeiro 15, 2007

I have a dream!

Martin Luther King é uma personalidade incontornável do séc. XX. Activista dos direitos humanos, líder carismático, lutou pelos direitos dos negros nos Estados Unidos da América, inspirou homens e mulheres por todo o mundo e marcou definitivamente a matriz de um país que se quer democrático. Foi laureado com o Prémio Nobel da Paz em 1964, sendo o mais jovem laureado, apenas com 35 anos e barbaramente assassinado a 4 de Abril de 1968, ainda antes de completar 40 anos. A data do seu nascimento é feriado nacional dos Estados Unidos da América desde 1983. No dia em que completaria 78 anos, aqui fica a homenagem.

I have a dream that my four little children will one day live in a nation where they will not be judged by the color of their skin but by the content of their character.

I have a dream today!

Martin Luther King

Mais informações sobre Martin Luther King aqui

quinta-feira, janeiro 11, 2007

No teu poema I

Tudo o que faço ou medito
Fica sempre na metade.
Querendo, quero o infinito.
Fazendo, nada é verdade.

Que nojo de mim me fica
Ao olhar para o que faço!
Minha alma é lúcida e rica,
E eu sou um mar de sargaço.

Um mar onde bóiam lentos
Fragmentos de um mar de além...
Vontades ou pensamentos?
Não o sei e sei-o bem.

Fernando Pessoa


O poema de Carla Santos, 12º L

No teu Poema

As ideias surgem, por vezes, da forma mais inesperada, sem lhes termos dado muito pensar ou andarmos numa corrida incessante em sua busca. Assim foi, quando ao folhear um jornal num fim-de-semana, me deparei com um pequeno anúncio a uma série de livros com compilações dos poemas preferidos de personalidades do universo nacional. E se, de repente, também nós, na nossa Escola, pudéssemos fazer a nossa colecção virtual dos nossos poemas, os que gostamos, aqueles que mesmo depois de acabadas as aulas de Português ou de Literatura Portuguesa continuam a soar-nos ao ouvido, a chamar-nos nas alturas mais surpreendentes, aqueles em que recorremos em momentos nostálgicos ou apenas porque sim? A partir de hoje, aqui neste cantinho, dedicarei um espaço aos nossos poemas, porque no escrito de cada poeta existe um verso em branco e sem medida, /um corpo que respira, um céu aberto,/ janela debruçada para a vida.* Comecemos então.

* José Luís Tinoco, No teu poema

terça-feira, janeiro 09, 2007

Martinho da Arcada

No passado dia sete, o café Martinho da Arcada em Lisboa comemorou a respeitável idade de 225 anos. O café é o mais antigo de Lisboa, não detém a grandiosidade dos cafés austríacos e húngaros ou a fama do Florian em Veneza, mas é certamente um testemunho vivo das tertúlias portuguesas do início do século passado, único na singeleza das suas linhas e no estuário do Tejo como paisagem a rematar a luminosa Praça do Comércio. O café seria apenas mais um dos inúmeros da capital, caso não tivesse sido albergado um dos expoentes máximos da poesia portuguesa, Fernando Pessoa e nele não se tivesse reunido o Orpheu. Foi numa das suas mesas de tampo de mármore cinzento que Pessoa escreveu poemas que compõem a sua inestimável obra e parte da Mensagem, fundamental para se sentir, talvez entender a lusitanidade. Diz a História que foi lá que, três dias antes de morrer, Pessoa tomou um café com Almada Negreiros.
E porque a poesia é universal e mora nas almas sensíveis de todo o mundo, o café é frequentemente visitado por turistas na senda dos passos do poeta que tão bem transportou para a palavra escrita a nostálgica alma portuguesa.
O Martinho da Arcada não foi apenas frequentado por Fernando Pessoa. Bocage, Eça de Queirós, Cesário Verde, Columbano, Gago Coutinho, António Botto e Duarte Pacheco são outros nomes sonantes associados ao Martinho da Arcada. Aqui ficam os parabéns!
imagem: "Visão" 1 Dez, 05

segunda-feira, janeiro 01, 2007

Receita de Ano Novo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade