terça-feira, novembro 16, 2010

Fábula do Convento

Republicano, o meu avô materno era o homem de caça de Dom Carlos. O rei chegava a Mafra e exigia «o seu Quintas» que conhecia, como nenhum outro, os pobres bichos da Tapada e os seus ardis. Fiel ao seu ideário, o meu avô jamais lhe chamou «Vossa Majestade». «Senhor Dom Carlos» era o mais que lhe arrancavam, e o «Vossemecê» vinha a seguir. Não se curvava para o beija-mão, afirmando que apenas beijara a mão da mãe. O rei, porém, passava a vida a reclamá-lo.
Esta história corria na família, a par com a das origens escocesas. A minha mãe chorava quando ouvia tocar gaita-de-foles, o meu pai não deixava de sorrir à evocação de um rei que tolerava um republicano no seu séquito e se deixava assim tratar - só porque queria obter bons resultados nas caçadas. A criança que eu fui ouvia isto e o Convento era só pedra e memória.

Pelos finais dos anos quarenta houve um tremendo surto de prisões. Por certo as criaturas da polícia política não tinham em logística a competência de que em tortura davam tantas provas. Alguns dos presos, entre os quais meu pai, tiveram de esperar pelo transporte e foram encerrados no Convento (na masmorra do sul, para ser precisa), onde, entre podridão e ratazanas, ficaram essa noite. O episódio chegou ao meu conhecimento, vindo nem sei de onde. São as vozes do tal vento que passa. Não mo contou meu pai que velou sempre para me poupar ao medo. O facto é que, mais de meia década depois, eu ainda me afastava dos companheiros de brincadeira e ia espreitar para baixo, semi-deitada sobre vastidão do muro. Imaginava os meus heróis na escuridão e, confundindo facilmente as fantasias, pensava nos cenários medievais. O Convento era só pedra e terror.

Nós, crianças de Mafra, não podíamos ser acusadas de xenofobia. Todo o recém-chegado se via, de algum modo, levado em ombros pela nossa curiosidade. Os meninos do circo, então, brilhavam de uma espécie de brilho natural, na sua qualidade extra-terrestre que os dotava de um corpo plástico e invulnerável. Eles deslizavam entre as balaustradas fazendo admiráveis contorções e, ao partirem, deixavam-nos num estado de plena insensatez, cheios de feridas. Um outro grupo, quase tão efémero como o do circo, era o dos filhos de militares. A ala sul do Convento albergava a Escola de Infantaria e os andares superiores haviam sido adaptados para habitação. Capitães e majores ocupavam-nos com as suas famílias, por uns tempos. Assim, pois, convidados pelos novos amigos, que pareciam sazonais como andorinhas, nós tínhamos acesso aos corredores, à descida e subida das escadas onde sentiam frio os soldadinhos e onde, às vezes, tratávamos de soltar borboletas para que o quartel se embelezasse um pouco. Ao som de uns batimentos compassados de origem misteriosa dividíamo-nos entre os supersticiosos, que ainda acreditavam num Capitão-sem-Cabeça a cumprir penitência no lugar, e os positivistas que troçavam da palidez e da paralisia que acometia alguns e a mim entre eles. Claro que, estimulados pelo medo ou pela auto-estima de o enfrentar, fugíamos às vezes uns dos outros com grande risco de ficarmos todos perdidos naquele espaço desumano. O Convento era pedra e desamparo.

Do Convento emanava também uma luz negra, a da grande Basílica com os seus mármores, odor a cera e incenso, e os seus ecos. Havia em Mafra uma mulher perturbadora que vestia de roxo até aos pés e era apupada pelo rapazio. Parecia-me, pois, que aqueles santos, vergados sob as dobras dos cetins, não estavam tristes, mas preocupados com o facto de uma entre eles ter saído do seu altar e vaguear, murmurando, pela vila. O que mantinha os outros imóveis nos seus cantos era menos a fé que a disciplina. Porque a mulher rezava o tempo todo mas mostrava uma forte irrequietude. Os meus amigos não me acompanhavam naquelas excursões cerimoniais e a minha mãe, depois de um primeiro pânico, habituou-se a ir à missa procurar-me. Eu via em tudo aquilo uma tragédia e uma narrativa. Havia dor. Porém, algo falava de uma outra história que ainda estava por contar, a de quando aqueles santos todos se cansassem da sua condição inanimada. Supunha eu que os cânticos e as velas, a música do órgão, os tapetes feitos com muitas flores na Primavera, funcionavam como um desafio a que eles acabariam por ceder. Entretanto, expulsaram-me dali. Filha de um comunista, carregando a sujidade do pecado original, não podia pisar o chão da igreja. Fiquei de fora. Os santos não se libertaram. O Convento era apenas pedra e ferida.

Não é vingança o tema desta fábula; é, sim, muito simplesmente, redenção. E como podem pedra e História, terror e desamparo e ferida, redimirem-se, se tudo entra na carne e já não sai? Pois podem, se os tocar a mão de um homem. Pois podem, se os olharem os seus olhos. Assim se fez. E aquilo que esmagava, o pedestal que suportava a igreja e a monarquia, a ditadura e o exército, abateu. Transformaram-se, o peso e a espessura, e transformou-se a própria duração. Continuamente vemos o trabalho que levanta do chão aquele Convento, e vemos os amantes, os que voam. Como um livro - que mede pouco mais do que um palmo - cobriu um gigantesco monumento é a questão que nos devemos pôr de maneira a ficarmos optimistas. Se o Convento ganhou o nosso afecto graças àquilo que nunca aconteceu a não ser nas palavras de um escritor, é porque a humanidade se comove mais com o sonho criador do que com reis.


Hélia Correia, escritora

No aniversário de José Saramago...

espera-nos um texto de uma filha da terra, mulher de letras e escritora reconhecida, Hélia Correia. Não percam.

segunda-feira, novembro 15, 2010

Nacos de Prosa Saramaguiana (5)

O sol havia acabado de sumir-se no oceano quando o homem que tinha um barco surgiu no extremo do cais. Trazia um embrulho na mão, porém vinha sozinho e cabisbaixo. A mulher da limpeza foi esperá-lo à prancha, mas antes que ela abrisse a boca para se inteirar de como lhe tinha corrido o resto do dia, ele disse, Está descansada, trago aqui comida para os dois, E os marinheiros, perguntou ela, Não veio nenhum, como podes ver, Mas deixaste-os apalavrados, ao menos, tornou ela a perguntar, Disseram-me que já não há ilhas desconhecidas, e que, mesmo que as houvesse, não iriam eles tirar-se do sossego dos seus lares e da boa vida dos barcos de carreira para se meterem em aventuras oceânicas, à procura de um impossível, como se ainda estivéssemos no tempo do mar tenebroso, E tu, que lhes respondeste, Que o mar é sempre tenebroso, E não lhes falaste da ilha desconhecida, Como poderia falar-lhes eu duma ilha desconhecida, se não a conheço, Mas tens a certeza de que ela existe, Tanta como a de ser tenebroso o mar, Neste momento, visto daqui, com aquela água cor de jade e o céu como um incêndio, de tenebroso não lhe encontro nada, É uma ilusão tua, também as ilhas às vezes parece que flutuam sobre as águas, e não é verdade, Que pensas fazer, se te falta a tripulação, Ainda não sei, Podíamos ficar a viver aqui, eu oferecia-me para lavar os barcos que vêm à doca, e tu, E eu, Tens com certeza um mester, um ofício, uma profissão, como agora se diz, Tenho, tive, terei se for preciso, mas quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou eu quando nela estiver, Não o sabes, Se não sais de ti, não chegas a saber quem és, O filósofo do rei, quando não tinha que fazer, ia sentar-se ao pé de mim, a ver-me passajar as peúgas dos pajens, e às vezes dava-lhe para filosofar, dizia que todo o homem é uma ilha, eu, como aquilo não era comigo, visto que sou mulher, não lhe dava importância, tu que achas, Que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não nos saímos de nós, Se não saímos de nós próprios, queres tu dizer, Não é a mesma coisa. O incêndio do céu ia esmorecendo, a água arroxeou-se de repente, agora nem a mulher da limpeza duvidaria de que o mar é mesmo tenebroso, pelo menos a certas horas. Disse o homem, Deixemos as filosofias para o filósofo do rei, que para isso é que lhe pagam, agora vamos nós comer, mas a mulher não esteve de acordo, Primeiro, tens de ver o teu barco, só o conheces por fora, Que tal o encontraste, Há algumas bainhas das velas que estão a precisar de reforço, Desceste ao porão, encontraste água aberta, No fundo vê-se alguma, de mistura com o lastro, mas isso parece que é próprio, faz bem ao barco, Como foi que aprendeste essas coisas, Assim, Assim como, Como tu, quando disseste ao capitão do porto que aprenderias a navegar no mar, Ainda não estamos no mar, Mas já estamos na água, Sempre tive a ideia de que para a navegação só há dois mestres verdadeiros, um que é o mar, o outro que é o barco, E o céu, estás a esquecer-te do céu, Sim, claro, o céu, Os ventos, As nuvens, O céu, Sim, o céu.

José Saramago, O Conto da Ilha Desconhecida



Naco de prosa saramaguiana escolhido pela professora Lurdes Fonseca,
Coordenadora da Biblioteca da Escola Secundária José Saramago.

Naco de prosa

Aproxima-se vertiginosamente. Este que iremos ler em seguida foi enviado pela Coordenadora da Biblioteca da nossa Escola, professora Lurdes Fonseca.

sábado, novembro 13, 2010

A ler..

esta entrevista de Pilar del Río. Destaco duas das iniciativas: a criação de uma residência para escritores seniores na casa de Lanzarote e o Prémio de Fotografia 'Retratar Um Livro'.

Nacos de prosa saramaguiana (4)

Como foi, digam-no outros que mais saibam.
Seiscentos homens agarrados desesperadamente aos doze calabres que tinham sido fixados na traseira da plataforma, seiscentos homens que sentiam, com o tempo e o esforço, ir-se-lhes aos poucos a tesura dos músculos, seiscentos homens que eram seiscentos medos de ser, agora sim, ontem aquilo foi uma brincadeira de rapazes, e a história de Manuel Milho uma fantasia, que é realmente um homem quando só for a força que tiver, quando mais não for que o medo de que lhe não chegue essa força para reter o monstro que implacavelmente o arrasta, e tudo por causa de uma pedra que não precisaria ser tão grande, com três ou dez mais pequenas se faria do mesmo modo a varanda, apenas não teríamos o orgulho de poder dizer a sua majestade, É só uma pedra, e aos visitantes, antes de passarem à outra sala, É uma pedra só, por via destes e outros tolos orgulhos é que se vai disseminando o ludíbrio geral, com suas formas nacionais e particulares, como esta de afirmar nos compêndios e histórias. Deve-se a construção do convento de Mafra ao rei D. João V, por um voto que fez se lhe nascesse um filho, vão aqui seiscentos homens que não fizeram filho nenhum à rainha e eles é que pagam o voto, que se lixam, com perdão da anacrónica voz.

José Saramago, Memorial do Convento.

A minha escolha.

Naco de prosa

O que se segue é um da minha preferência e um que por razões de coração perdurará para sempre na minha caixinha de nacos de prosa.

sexta-feira, novembro 12, 2010

Uma personagem em construção (2)

continuação deste texto

UMA PERSONAGEM EM CONSTRUÇÃO
Ou como, em Memorial do Convento, de José Saramago, se reescreve a História, construindo um herói com os homens que a História olvida
II

“(...) e a vila, lá em baixo na cova, é Mafra, que dizem os eruditos ser isso mesmo que quer dizer, mas um dia se hão-de rectificar os sentidos e naquele nome será lido, letra por letra, mortos, assados, fundidos, roubados, arrastados (...)”
SARAMAGO, José, Memorial do Convento, 16ª ed., Lisboa, Caminho, 1986, cap. XXI, p. 295


A dezassete de Novembro de mil setecentos e dezassete, seis anos após haver formulado o seu voto, D. João V desloca-se a Mafra, a fim de comemorar o início da construção do convento. O fausto da cerimónia é descrito no capítulo doze do romance de Saramago, em oposição irónica ao trabalho dos seiscentos homens que até aí haviam cavado os alicerces e que, depois, a penar continuariam, com muitos mais, até à conclusão da real obra:

(...) ajudem-me aqui, podemos assentar a pedra, porém, sejam as mãos de vossa majestade as últimas a tocar-lhe, pronto, um toque mais para toda a gente ver, pode vossa majestade subir, cuidado não caia, que o resto do convento nós o construiremos (...)
XII, 135-136

Conhecendo o futuro e sabendo da prolepse, o narrador recorda-nos, logo após, a insensibilidade do rei face às despesas e sacrifícios que ainda seriam exigidos ao reino e à sua “arraia miúda”:

(...) um dia virá em que quereremos saber. Afinal, quanto terá custado aquilo, e ninguém dará satisfação dos dinheiros gastos (...) sem falar de mortes e sacrifícios, que esses são baratos.”
XII, 136-137

A sagração da basílica ocorrerá a vinte e dois de Outubro de mil setecentos e trinta, com as devidas pompas e circunstâncias relatadas no capítulo vinte e quatro. Se os treze anos decorridos entre uma e outra data não foram suficientes para a conclusão total do edifício, os treze capítulos que entre ambas se sucedem bastam para erguer à categoria de herói colectivo todos aqueles que, aos milhares, para Mafra vieram penar e em Mafra tudo deixaram, até que se erguesse o actual “ex-libris” da vila:

(...) a Ilha da madeira era uma massa confusa, um gigantesco dragão deitado, respirando por quarenta mil foles, tantos os homens que ali dormem, mais os míseros das enfermarias onde não há um catre vago, salvo se estão os enfermeiros retirando alguns cadáveres, este que rebentou por dentro, este que tinha uma nascida, este que deitava sangue pela boca, este que um estupor paralisou e, segundando, matou.
XXIII, 330

A caracterização desta personagem colectiva inicia-se no capítulo dez, quando a Mafra chega a notícia da promessa do rei e do início próximo dos trabalhos. É pela boca dos familiares de Baltasar, o pai, João Francisco, e o cunhado, Álvaro Diogo, que ficamos a conhecer as motivações e funções dos homens que, vindos de perto ou de longe, demandam em Mafra a esperança de uma vida melhor ou, pelo menos, a possibilidade de encontrar algum trabalho remunerado que lhes facilite a sobrevivência. João Francisco diz a seu filho:
(...) quem agora pode ganhar bom dinheiro é o teu cunhado, vão precisar de pedreiros.”
X, 104
e Álvaro Diogo corrobora:

(...) não irá faltar trabalho a pedreiros quando começarem as obras do convento, não precisará sair da terra a procurar serviço nos arredores da vila, semanas e semanas fora de casa (...)
X, 108

Pedreiros, alvenéis, canteiros, cabouqueiros, lavrantes, carpinteiros, carreiros, serventes, ferreiros, latoeiros, vidraceiros, pintores, dezenas de ofícios acabarão representados em Mafra. Desde o primeiro momento, o narrador tece as linhas que farão de todos uma única personagem compósita, um herói estóico, solidário, mítico. Prevê-lhe desgraças:

(...) o abençoado há-de ir a Mafra também, trabalhará nas obras do convento real e ali morrerá por cair de parede, ou da peste que o tomou, ou da facada que lhe deram, ou esmagado pela estátua de S. Bruno.”
XI, 117

retrata-o colectivamente, em situação de trabalho e animalizando-o, para enfatizar o esforço que lhe é exigido a vida inteira:

(...) não haverá diferença nenhuma entre cem homens e cem formigas, leva-se isto daqui para ali porque as forças não dão para mais, e depois vem outro homem que transportará a carga até à próxima formiga, até que, como de costume, tudo termina num buraco, no caso das formigas lugar de vida, no caso dos homens lugar de morte, como se vê não há diferença nenhuma.
XI, 118
manifesta a sua simpatia pelos mais humildes:

(...) o mais que por aqui há são cabouqueiros, gente de muita força e pouco mimo, havemos de tornar a passar por estas bandas daqui por uns meses (...) então veremos uma grande cidade de tábuas, maior que Mafra, quem viver verá (...) por agora bastem os toscos aposentos para neles descansarem os ossos os fatigados homens do alvião e da enxada (...)
XI, 122-123

e denuncia a violência exercida sobre eles por matriculadores, vedores ou soldados:

(...) e a partir daí já se conta que salte murro e pontapé, se não cortarem sarrafos o ar, momento em que avança a patrulha de soldados, manobra em geral suficiente para esfriar os ânimos aquecidos, ou, caso não, duas pranchadas, dois vergões na lombeira, como às mulas.
XVII, 218

Do mesmo modo, servem também o propósito de elevação desta personagem colectiva à categoria de herói a descrição minuciosa dos trabalhos, a constante referência a quem os leva a cabo, por via de pleonasmos como “multidão de homens” ou expressivas imagens como “formigueiro de gente”, e ainda a ênfase dada à denúncia da vida de miséria dos trabalhadores, que obriga as próprias crianças a um fado em tudo distinto ao dos príncipes[i]:

(...) só tem doze anos (...), este é o filho que ficou, chega à noite morto de dar serventia, andaime acima, andaime abaixo, acaba de cear e adormece logo, (...)
XVII, 210-211

Além de Baltasar e de Álvaro Diogo, destacam-se, destes milhares de homens, algumas outras personagens. Facilmente se observa que devem as mesmas ser consideradas figuras típicas, pois as suas autobiografias repetir-se-ão no tempo e na sociedade portuguesa. Individualizando-as, nomeando-as e dando-lhes as rédeas da própria enunciação:

(...) O meu nome é José Pequeno, não tenho pai, nem mãe, nem mulher que minha seja, nem sei sequer se o nome certo é este (...) apareci numa aldeia ao pé de Torres Vedras, pelo seguro o vigário baptizou-me, José é o nome de pia, o Pequeno puseram-mo depois, porque não cresci muito, com esta corcunda às costas nenhuma mulher me quis para viver (...)
XVIII, 233-234

o narrador procura humanizar o “mar de gente” que deseja erguer como herói, como verdadeira força criadora, tanto do convento de Mafra quanto da História e do mundo.
Para este processo de mitificação, contribui também a crua descrição do modo como muitos dos trabalhadores foram, por uma caprichosa e despótica vontade real[ii], arrebanhados nos quatro cantos do reino e conduzidos à força até Mafra, onde deixariam de ser homens, onde bestas também deixariam de ser e onde, afinal, seriam apenas coisas, apenas tijolos ou, pior, apenas um qualquer nada sem serventia:

Juntam-se os homens que entraram hoje, dormem onde calhar, amanhã serão escolhidos. Como os tijolos. Os que não prestarem, se foi de tijolos a carga, ficam por aí, acabarão por servir a obras de menos calado, não faltará quem os aproveite, mas, se foram homens, mandam-nos embora, em boa ou má hora, Não serves, volta para a tua terra, e eles vão, por caminhos que não conhecem, perdem-se, fazem-se vadios, morrem na estrada, às vezes roubam, às vezes matam, às vezes chegam.
XXI, 296

Por fim, é no capítulo dezanove que se recorre ao máximo de efeitos conducentes à heroicização desta gente esquecida que edificou o voto e deu o corpo à megalomania de D. João V:

(...) se estes homens e estes bois não fizerem a força necessária, todo o poder de el-rei será vento, pó e coisa nenhuma. Porém, farão a força. Foi para isso que vieram, (...)
XIX, 244

O transporte de uma pedra gigantesca, de Pêro Pinheiro para Mafra, é relatado num tom épico, como se esse trabalho hercúleo só pudesse ser comparado aos desafios que os heróis clássicos afrontavam. Antes, o narrador revela sem pejo o magro contributo que o reino podia dar à construção, denunciando ironicamente o desperdício que a mesma implicaria:

(...) e se desta pobre terra de analfabetos, de rústicos, de toscos artífices não se podem esperar supremas artes e ofícios, encomendem-se à Europa, para o meu convento de Mafra, pagando-se, com o ouro de minhas minas e mais fazendas, os recheios e ornamentos, que deixarão, como dirá o frade historiador, ricos os artífices de lá, e a nós, vendo-os, aos recheios e ornamentos, admirados. De Portugal não se requeira mais que pedra, tijolo e lenha para queimar e homens para a força bruta, ciência pouca.
XVIII, 228

Depois, pormenorizadas e frequentes descrições hiperbolizam as dimensões da laje, os meios empregues para a transportar, os perigos do caminho.
No fundo, é o esforço humano que acaba por se destacar, em contraste com a inépcia e a hipocrisia do poder, de modo a conduzir o leitor ao reconhecimento do sacrifício a que todos aqueles homens se prestaram, por motivos tão sem sentido que até ao próprio diabo surpreendem:

Em cima deste valado está o diabo assistindo, pasmando da sua própria inocência e misericórdia, por nunca ter imaginado suplício assim para coroação dos castigos do seu inferno.
XIX, 258-259



[i] O paralelismo antitético serve também para gerar, no leitor, a simpatia pelos mais desfavorecidos. Recorde-se, no capítulo sete, o luxo do baptizado de Maria Leonor Bárbara; no capítulo oito, o sadismo dos jogos do infante D. Francisco ou, no capítulo dez, a comparação entre a morte do sobrinho de Baltasar e a do infante D. Pedro: “(...) querendo deus, qualquer causa de morte serve, a que levará o herdeiro da coroa de Portugal será o tirarem-lhe a mama, só a infantes delicados isto aconteceria, que o filho de Inês Antónia, quando morreu, já comia pão e o mais que houvesse.” – SARAMAGO, José, Memorial do Convento, 16ª ed., Lisboa, Caminho, cap. X, p. 105.

[ii] A crítica pode igualmente ser dirigida ao Clero:”(...) ordeno que a todos os corregedores do reino se mande que reúnam e enviem para Mafra quantos operários se encontrarem nas suas jurisdições, sejam eles carpinteiros, pedreiros ou braçais, retirando-os, ainda que por violência, dos seus mesteres, e que sob nenhum pretexto os deixem ficar (...), porque nada está acima da vontade real, salvo a vontade divina, e a esta ninguém poderá invocar, que o fará em vão, porque precisamente para serviço dela se ordena esta providência, tenho dito.” – Op. cit. nota i, cap. XXI, p. 291, sublinhado nosso.


Adriano Alcantâra,
professor de Português e Francês
Escola Secundária José Saramago

(continua)

Uma personagem em construção

Quem gostou deste texto não pode perder a continuação. Já a seguir!

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quinta-feira, novembro 11, 2010

MILU NA AZINHAGA, TERRA NATAL DE JOSÉ SARAMAGO (1)

PROJECTO: MILU, scilicet, MOTUS – INCOMPARABILIS – LUCIDUS – UNUS

RESUMO: Clube motard de propensão gastronómico-rodoviária. Enfim, um grupo de gandas malucos que anda pr’aí a empanturrar-se e a dar cabo do coirão por uma causa perdida.

PÚBLICO-ALVO: Por ora, no grupo há só professores, uns quantos no activo e outros menos, já aposentados. De comum, além do gosto pelas meninas de duas rodas e motor adulto e do facto de leccionarem na Escola Secundária José Saramago, têm o hábito de conduzir à defesa, diante do emaranhado de despachos, decretos e reformas educativas caídos da infernal tutela ministerial.

PONTO DE ENCONTRO: Portão da Escola Secundária José Saramago, por norma às 9h00 do sábado aprazado.

ÁREA DE ACÇÃO: A partir de Mafra, para Oeste ou para Este ou para Norte ou para Sul. Saídas ao calha acontecem, por vezes. Uma ida ao Cabo Norte e outras maluqueiras estão cogitadas, mas a crise aconselha alguma contenção.

OBJECTIVOS: Dar umas curvas em contexto real, de acordo com regras consabidas – Abrandar, Olhar, Inclinar, Acelerar e Pensar no Almoço.

AUTO-AVALIAÇÃO: Não se sabe por que “causa perdida” andamos por aí “a dar cabo do coirão” em cima de uma moto. Perdidas haverá muitas causas, mas não será o caso desta. Manter uma paixão é salutar e mais ainda quando vem ela lá de longe, de tempos imberbes. E saudável é também estar com amigos, deleite que, na circunstância em apreço, acontece por via da alegria de enrolar o punho em grupo, estrada fora a seguir o roncar dos muitos cavalos reunidos na alcateia – “manada” é nome demasiado ruminante e o espírito, mau grado os anos, pretende-se que seja ainda o do “Born To Be Wild”... Acresce, por fim, o facto de cada viagem nos conduzir a paisagens outras que as habituais e desembocar, sempre, à mesa de um restaurante simpático. “Causa perdida”? Não. Conviver assim é um prazer, apesar da dor nas costas...

GENESIS: O MILU foi ideia repentina de duas mentes brilhantes: A Educação Física e as Artes cruzaram-se à saída da Escola, no final de um dos insípidos dias da época de exames de 2007/2008 e, na decisão de quem tem mesmo de espairecer, trocaram de menina dos olhos e lá foram até à Ericeira, o mar logo aqui. E aí, entre um prato de caracóis e uma ou outra bejeca, lá apalavraram o útil da camaradagem ao prazer do ronronar do motor entre pernas, controlado. O depois consta nos registos do boca a boca: parece que a Educação Física aliciou a Filosofia, chamando-a à razão das duas rodas bem assentes no asfalto dos dias. Daí ao resultado final bastou meio punho e leve toque de embraiagem. A eles, desportistas artistas filósofos, cedo se ligaram as Ciências e as Línguas, até mesmo as clássicas. Resumindo: total interdisciplinaridade, sem taxas nem metas nem actas, salvo novas curvas com restaurantes à saída. Veio um sábado livre nesse final de ano lectivo, com Évora na ponta da roda da frente. E fomos. Seis velhos putos profs, em cinco meninas montados – atenção: eram elas maiores de 500 cm3.

EM BUSCA DO ALCATRÃO PERDIDO: De Mafra a Évora vai-se num pulo, pela auto-estrada. Viagem vulgar, é verdade. Mas foi a primeira “em busca do alcatrão perdido”. E certo é, também, que demos com a divinal “Quarta-feira”, taberna típica no centro da cidade, rua estreita e histórica, perto do Templo de Diana. O dono nem sequer nos mostrou a lista:
– Os compadres vêm de mota? Lá de Mafra? Então sentem-se, sentem-se, meninos. Eu cá sei do que gostam...
E vieram as entradas de cogumelos com molho de azeite e alho e coentros, de paio e presunto e queijo e pão alentejano, e mais a carne, alguém se lembra do nome do prato?, e ainda o tinto, como se chamava?, e os doces...
– Nãa, o menino tem de comer o docinho, tem de comer o docinho!
Uff! Após o repasto, e dada a canícula, sentámo-nos numa esplanada da Praça do Giraldo, também perto. E foi aí que à baila veio o nome “Milu”, vá lá saber-se porquê, talvez por ser o diminutivo de Maria de Lurdes... Arrancámos. O Armindo na sua Suzuki GSX 1100 F, o Martinho na BMW 1150 RT, o Rosa e o Valentim na imponente Honda GoldWing, o Carlos na Honda CBF 1000 e o Adriano na velhinha BMW F 650. O regresso fez-se na ponta da unha, com paragem na área de serviço de Alcochete, à espera e para dar descanso a quem aflito já estava com a força do vento...
Seguiu-se Almeirim, o “Paulus” e a sopa de pedra, mais o sável e o pernil e, sobretudo, o Tejo e as estradas secundárias da lezíria ribatejana, até darmos com a Azinhaga, terra de José Saramago, onde fomos recebidos, com alguma admiração e muita simpatia, por todos os funcionários do museu que tem o nome do patrono da nossa escola e, também, pelo patrão e clientes da tasca em frente.
Dessa vez, já o Ismael vinha connosco, a bordo da GoldWing e a passar uma por outra vez pelas brasas, com o Valentim à pendura na RT do Martinho, já à espera do seu exame de condução. Imaginem: cinquenta e poucos anos e deixa-se ser picado pelo bichinho das motos! Grande Valentim! No entretanto, já o Carlos se pavoneava, montado na sua brilhante BMW R 1200 ST. Tínhamos saído de Mafra à chuva, mas passámos por Santarém sob um calor que só não era de rachar porque a tarde caía. Ainda parámos no Campera, pois havia quem quisesse comprar um capacete XPTO a preço de saldo. E foi bem comprado. Não só por ser barato, mas por ser seguro, que nisto de andar de mota não há nada como nos defendermos a preceito. E lá fomos para Mafra, com eles a muitos à hora, palavra do Ismael.
Na calha veio depois Peniche, onde as sereias andam de Honda Varadero, o Armindo que o confirme. Seja como for, foi uma motard de sonho quem, depois do Cabo Carvoeiro e os corvos e o mar e as Berlengas ao fundo, nos indicou o caminho para o “Estelas”, onde nos deparámos, e debatemos, com uma caldeirada digna de musas. Tão digna delas que a conversa logo deslizou, animada e amiga, entre Vergílio Ferreira e Saramago, a arte do mergulho, a arqueologia submarina e o dar aulas, apanhar percebes ou mexilhão e deixá-los no ponto, no prato.
Lagoa de Óbidos, logo após o debate. Um café e mais bate-papo, numa esplanada à beira de água. No regresso, acabámos por nos separar do Carlos. Atrasado pelo trânsito no Cadaval, preferiu a A8, enquanto nós optámos pelas curvas do Bombarral. Chegou mais cedo a casa, ao passo que a gente, já escuro, ainda se perdeu à lareira do Ismael, entre uma fatia de queijo, um copito de bom tinto e as preocupações do costume, Maria de Lurdes “oblige”.
Sesimbra no horizonte, aos trinta dias de Dezembro do ano da graça de 2008. Devia ser o baptismo de fogo do Valentim, mas o próprio achou, e bem, que os nervos da aprovação no exame ainda estavam demasiado à flor da pele e atrapalhavam os comandos da sua Virago. Seguiu no sossego da GoldWing, e lá rumámos ao “Escondinho” e à feijoada de gambas. Ida e volta impecáveis, com a sensação de liberdade que só se tem quando se entra em Lisboa de mota, pela ponte 25 de Abril. Resta que, alguns dias depois, o Valentim se baptizou mesmo, diante de um bacalhauzinho com todos, aqui nas Arroeiras, comigo e o Armindo como segundos padrinhos. Na verdade, o primeiro até foi o Rosa, mas disso não se lavrou acta. Parece que nessa primeira cerimónia alguém baralhou as mãos, situação que, em duas rodas, dá quase sempre origem ao inevitável.


Professor Adriano Alcântara,
professor de Português e Francês na Escola Secundária José Saramago.

MILU NA AZINHAGA, TERRA NATAL DE JOSÉ SARAMAGO (2)

E agora as fotografias do dia na Azinhaga





















Fotografias do professor José Rosa, estimável membro fundador do MILU e professor de Educação Física na Escola Secundária José Saramago

E agora para algo completamente diferente...

Já de seguida teremos um novo post, dois afinal, texto da autoria do professor Adriano Alcântara e fotografias do professor José Rosa que nos darão conta dos périplos de uma tal MILU. Quem será? A resposta está aí a chegar.

quarta-feira, novembro 10, 2010

A figueira

À entrada da década de 1980, as notícias dos grandes duelos mundiais de xadrez traziam quase sempre dois nomes associados, Anatoli Karpov e Victor Kortchnoi. Era à volta destes dois mestres soviéticos que tudo parecia girar. Mas um outro nome começava a emergir, também russo, parecido com Karpov mas mais comprido. Garry Kasparov, nascido em 1963 em Baku, capital do actual Arzebaijão (então uma das repúblicas da União Soviética), já se tornara notado no mundo do xadrez. Corajoso, irreverente, agressivo e perfeccionista, Kasparov desafiou Karpov, o campeão mundial, em 1984. A partida durou seis meses, tornando-se a mais longa na história do xadrez. Foi parada pelo presidente da federação internacional da modalidade, que ordenou que se disputasse uma nova partida. Em Novembro de 1985, Kasparov ganhou o denominado rematch contra Karpov e tornou-se campeão mundial. Tinha 22 anos e era o jogador mais novo a consegui-lo.
Passados mais de 20 anos, assisti a uma conferência de Kasparov, no Estoril. Pareceu-me com a mesma coragem, a mesma irreverência, até a mesma agressividade (sobretudo em relação a alguma coisa ou a alguém que a pudesse justificar; por exemplo, Vladimir Putin). Vi-o a falar para quadros de empresas, a falar de estratégias, de tácticas, de inovação, de tudo o que rodeia a tomada de decisão numa organização. Sem perder de vista o xadrez e os seus exemplos para o mundo da gestão, não se esqueceu da sua condição de activista político, comprometido, empenhado em que o seu país conhecesse uma mudança capaz de fazer com que por lá se pudesse respirar plenamente os ares da democracia. E também falou de gurus da gestão, como Peter Drucker; de empreendedores, como Elisha Graves Otis ou William Edward Boeing; e de Thomas Edison, de Winston Churchill, do inevitável Sun Tzu, de nomes grandes do xadrez, de John F. Kennedy e inclusive de Cristóvão Colombo.
Até que na parte final, com alguma surpresa, pelo menos para mim, falou de cinco portugueses. Cinco figuras de épocas tão diferentes como a dos descobrimentos, a da criminosa ditadura salazarista ou a actualidade. Considerou-os a todos notáveis: dois navegadores, Gil Eanes e Vasco da Gama; um militar que se destacou sobretudo como político, Humberto Delgado; um futebolista, Eusébio; e um escritor, José Saramago. O que recordo mais foi o que disse do Nobel português, para ilustrar um dos tópicos que abordou, o da inovação. Não o fez pela opção única de Saramago escrever com uma pontuação bem peculiar, marcada sobretudo pela frugalidade, que permite uma leitura ao ritmo da própria respiração. Fê-lo por algo que para ele também é propício à inovação, à capacidade de inovar: as dificuldades da vida, principalmente aquelas que são experimentadas em criança. Para isso, Kasparov recorreu mesmo a uma frase de Saramago: «As crianças crescem melhor à sombra do que ao sol.» Naquela altura, ouvindo o homem de Baku, lembrei-me de uma outra sombra, absolutamente fantástica, do criador de «Memorial do Convento», a de uma figueira junto da qual, nas tardes de Verão, o rapazito Saramago se deitava muitas vezes, para se proteger do calor. Lembrei-me disso. A mesma figueira que depois, a cada noite, o voltava a acolher; a ele, o rapazito Saramago, que embalado pelas histórias do avô via as estrelas por entre os ramos. Como escreve no discurso de Estocolmo… «No meio da paz nocturna, entre os ramos altos da árvore, uma estrela aparecia-me, e depois, lentamente, escondia-se por trás de uma folha, e, olhando eu noutra direcção, tal como um rio correndo em silêncio pelo céu côncavo, surgia a claridade opalescente da Via Láctea…»


António Manuel Venda, escritor e blogger na Floresta do Sul e Delito de Opinião.

Mais um texto a não perder

António Manuel Venda, escritor e blogger, vai desfilar dentro de momentos neste blogue com um texto excelente. Aguardem.

terça-feira, novembro 09, 2010

Nacos de Prosa Saramaguiana (3)

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?

Carlos Drummond de Andrade


E agora, José?

Há versos célebres que se transmitem através das idades do homem, como roteiros, bandeiras, cartas de marear, sinais de trânsito, bússolas – ou segredos. Este, que veio ao mundo muito depois de mim, pelas mãos de Carlos Drummond de Andrade acompanha-me desde que nasci, por desses misteriosos acasos que fazem do que viveu já, do que vive e do que ainda não vive, um mesmo nó apertado e vertiginoso de tempo sem medida. Considero privilégio meu dispor deste verso, porque me chamo José e muitas vezes na vida me tenho interrogado: “E agora, José?” Foram aquelas horas em que o mundo escureceu, em que o desânimo se fez muralha, fosso de víboras, em que as mãos ficaram vazias e atónitas. “E agora, José?” Grande, porém, é o poder da poesia para que aconteça, como juro que acontece, que esta pergunta simples aja como um tónico, um golpe de espora, e não seja, como poderia ser, tentação, o começo da interminável ladainha que é a piedade por nós próprios.
Em todo o caso, há situações de tal modo absurdas (ou o que o pareceriam vinte e quatro horas antes), que não se pode censurar a ninguém um instante de desconforto total, um segundo em que tudo dentro de nós pede socorro, ainda que saibamos que logo a seguir a mola pisada, violentada, se vai distender vibrante e verticalmente afirmar. Nesse momento veloz tocara-se o fundo do poço.
Mas outros Josés andam pelo mundo, não o esqueçamos nunca. A eles também sucedem casos, desencontros, acidentes, agressões, de que saem às vezes vencedores, às vezes vencidos. Alguns não têm nada nem ninguém a seu favor, e esses são, afinal, os que tornam insignificantes e fúteis as nossas penas. A esses, que chegaram ao limite das forças, acuados a um canto pela matilha, sem coragem para o último ainda que mortal arranco, é que a pergunta de Carlos Drummond de Andrade deve ser feita, como um derradeiro apelo ao orgulho de ser homem: “E agora, José?”
Precisamente um desses casos me mostra que já falei demasiado de mim. Um outro José está diante da mesa onde escrevo. Não tem rosto, é um vulto apenas, uma superfície que treme como uma dor contínua. Sei que se chama José Júnior, sem mais riqueza de apelidos e genealogias, e vive em São Jorge da Beira. É novo, embriaga-se, tratam-no como se fosse uma espécie de bobo. Divertem-se à sua custa alguns adultos, e as crianças fazem-lhe assuadas, talvez o apedrejem de longe. E se isto não fizeram, empurraram-no com aquela súbita crueldade das crianças, ao mesmo tempo feroz e cobarde, e o José Júnior, perdido de bêbedo, caiu e partiu uma perna, ou talvez não, e foi para o hospital. Mísero corpo, alma pobre, orgulho ausente – “E agora, José?”
Afasto para o lado os meus próprios pesares e raivas diante deste quadro desolado de uma degradação, do gozo infinito que é para os homens esmagarem outros homens, afogá-los deliberadamente, aviltá-los, fazer deles objecto de troça, de irrisão, de chacota – matando sem matar, sob a asa da lei ou perante a sua indiferença. Tudo isto porque o pobre José Júnior é um José Júnior pobre. Tivesse ele bens avultados na terra, conta forte no banco, automóvel à porta – e todos os vícios lhe seriam perdoados. Mas assim, pobre, fraco e bêbedo, que grande fortuna para São Jorge da Beira. Nem todas as terras de Portugal se podem gabar de dispor de um alvo humano para darem livre expansão a ferocidades ocultas.
Escrevo estas palavras a muitos quilómetros de distância, não sei quem é José Júnior, e teria dificuldade em encontrar no mapa São Jorge da Beira. Mas estes nomes apenas designam casos particulares de fenómeno geral: o desprezo pelo próximo, quando não o ódio, tão constantes ali como aqui mesmo, em toda a parte, uma espécie de loucura epidémica que prefere as vítimas fáceis. Escrevo estas palavras num fim de tarde cor de madrugada com espumas no céu, tendo diante dos olhos uma nesga do Tejo, onde há barcos vagarosos que vão de margem a margem levando pessoas e recados. E tudo isto parece pacífico e harmonioso como os dois pombos que pousam na varanda e sussurram confidencialmente. Ah, esta vida preciosa que vai fugindo, tarde mansa que não será igual amanhã, que não serás, sobretudo, o que agora és.
Entretanto, José Júnior está no hospital, ou saiu já e arrasta a perna coxa pelas ruas frias de São Jorge da Beira. Há uma taberna, o vinho ardente e exterminador, o esquecimento de tudo no fundo da garrafa, como um diamante, a embriaguez vitoriosa enquanto dura. A vida vai voltar ao princípio. Será possível que a vida volte ao princípio? Será possível que os homens matem José Júnior? Será possível?
Cheguei ao fim da crónica, fiz o meu dever. “E agora, José?”

José Saramago, in A Bagagem do Viajante.

Naco de prosa escolhido pela professora Teresa Simões

Naco de prosa saramaguiana...

já de seguida. Leiam um belíssimo naco escolhido pela professora Teresa Simões. Não percam!

segunda-feira, novembro 08, 2010

eu sou tu e tu és eu

quero ser a tua estrela,
vou dar ter o meu papel,
ser a tua vida e
dar-te o que e meu,
quero ser a escolhida,
para entrar na tua vida,
não ser apenas uma simples amiga...
quero ser o teu mar,
a tua praia,
quero o teu olhar,
cada dia que passa,
quero ser eu a tua vida,
ter te comigo e ser a escolhida...
sem ti eu não consigo viver...
quero estar ao teu lado,
e dar-te prazer,
quero ser a tua estrela do céu,
eu sou tu e tu és eu....

Anastasia Myrna, 12º F


Ao amor de Baltasar e Blimunda

Hoje...

temos uma participação muito especial de uma aluna da nossa Escola. Esqueçam a prosa por momentos e preparem-se para a poesia que vai magnetizar este blogue.

domingo, novembro 07, 2010

O livro

Não sendo mulher de fé nem de fervores místicos, a Bíblia, para mim, é apenas um livro. Fundamental na cultural ocidental, inspirador para muitos, crentes ou não crentes, prenhe de uma imaginação delirante em alguns episódios e carecida de uma explicação racional nos mesmos ou noutros, que contudo podem encontrar na sua força metafórica a solução para o irresolúvel nas mentes pragmáticas. Sendo um livro, como qualquer outro, permite uma pletora infindável de interpretações, tantas quanto os leitores e tantas quanto os contextos sociais, políticos e religiosos o permitirem. A História prova-o e não é por acaso que, regendo-se pelo mesmo livro, existem religiões diferentes, cristãs na sua essência, mas com diferenças substanciais quanto a ritos e práticas, todas elas com um denominador comum: a Bíblia. Se perguntarmos a uma Testemunha de Jeová por que não comemora aniversários ou o Natal, ela responderá porque não está na Bíblia, se questionarmos um rastafari por que fuma erva a resposta será porque está na Bíblia. Sendo para mim um livro, a Bíblia não é mais do que isso, portanto, para mim, descrente, as palavras de Saramago reflectem, além da sua condição de provocador implacável, papel que cumpre com mestria, a literatura deve ser sempre provocação, uma interpretação. A Bíblia pode não ser apenas “um manual de maus costumes”, mas pode também sê-lo se o isolarmos da palavra de Deus. Saramago tem direito à sua interpretação.


Leonor Barros

Texto repescado do Delito de Opinião, escrito aquando da publicação de Caim.

Ouçam o texto...

a aproximar-se. Um meu, desta vez.

sexta-feira, novembro 05, 2010

Da generosidade

Muito ao contrário daquilo que a notícia em rodapé de um serviço noticioso aparenta ou talvez o hábito de uma boa polémica à maneira de José Saramago, desta vez não foi a censura, as almas acaloradas tão céleres a defender a moral vigente e os costumes bolorentos. Desta vez foi apenas o reconhecimento dos seus pares e a generosidade imensa de dar lugar a outros. Foi assim que foi anunciado aqui que Caim, a último livro do escritor, seria retirado dos dez finalistas do Prémio Portugal Telecom. Daqui aplaudo.

Uma Personagem em Construção (1)

UMA PERSONAGEM EM CONSTRUÇÃO
Ou como, em Memorial do Convento, de José Saramago, se reescreve a História, construindo um herói com os homens que a História olvida

I

“Todos os homens são reis, rainhas são todas as mulheres, e príncipes os trabalhos de todos.”
SARAMAGO, José, Memorial do Convento, 16ª ed., Lisboa, Caminho, 1986, cap. VII, p. 72

Esta afirmação do narrador resume uma das várias linhas de sentido que se entretecem em Memorial do Convento, conduzindo o leitor à assunção do ideal que a Revolução Francesa perpetuou na divisa “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”. O romance permite, de facto, considerar a possibilidade histórica de concretização do sonho de uma sociedade em que os homens partilhem fraternalmente o trabalho e o poder: vejam-se, por exemplo, as relações igualitárias estabelecidas entre o casal Baltasar/ Blimunda e o padre Bartolomeu Lourenço ou o músico Domenico Scarlati.
Por outro lado, e em simultâneo, no discurso recorre-se com frequência ao paralelismo antitético, para se evidenciar o antagonismo entre o poder real e religioso e a imensa mole humana que nada tem nem nada pode. A reiteração dessa oposição entre as duas situações sugere a presença, no texto, de uma linha de sentido que legitimaria uma interpretação da narrativa fundamentada na doutrina estético-literária neo-realista.
É certo que, nas entrelinhas ou muito denotativamente, em Memorial do Convento se representa a miséria em que vivem e labutam “os homens”, se denuncia a prepotência de D. João V e se critica o conformismo promovido pela Igreja. E certo é, também, que (n)a narrativa (se) veicula a possibilidade de redenção humana:

José Pequeno (...) perguntou, Como é que um boieiro se faz homem, e Manuel Milho respondeu, Não sei. Sete-Sóis atirou o calhau para a fogueira e disse, Talvez voando.
XIX, 264

No entanto, o maniqueísmo de semelhante interpretação seria demasiado redutor: Memorial do Convento não é um romance neo-realista, e não apenas porque na narrativa não há revolta, mas calada resignação ou alegre zelo popular no bodo que eram os autos-de-fé, as procissões ou as touradas. Não o é, seja pelo estilo vertiginoso do autor, criando a cada passo a sensação de improviso coloquial e, ao mesmo tempo, a cada passo provocando a eclosão da subjectividade, seja, sobretudo, pelo modo como são tratadas as categorias da narrativa e, em particular, o narrador(i) e o tempo.
Por norma, o romance neo-realista privilegia os tempos do pretérito, típicos da narrativa, e institui um narrador heterodiegético que, preocupado com a objectividade, assume quase sempre uma focalização externa. Ora, em Saramago, o estatuto do narrador é muito mais complexo, verdade bem ilustrada no texto de Memorial do Convento, onde a enunciação, confiada a um “nós” homodiegético:

De quantos pertencem ao alfabeto da amostra e vão a Pêro Pinheiro, pese-nos deixar ir sem vida contada aquele Brás (...).
XIX, 242

pode, contudo, surgir na voz de um narrador de terceira pessoa capaz de, a seu bel-prazer, se transfigurar no “eu” de uma das personagens:

(...) era o Francisco Marques que aproveitava a ocasião para ir enforcar-se entre as pernas da mulher, (...) ou não será tal a ideia, talvez queira apenas estar com os filhos, dar uma palavra à esposa, cortejá-la somente, sem pensar em fornicações que teriam de ser apressadas porque os companheiros vêm aí atrás, e pelo menos a Pêro Pinheiro convém que chegue ao mesmo tempo que eles, já estão passando, afinal sempre me deitei contigo (...).
XIX, 243

À complexidade em que se define a presença do narrador, associa-se também um matizado espectro de pontos de vista narrativos que, de uma para outra sequência, ou mesmo no seio de uma única sequência, podem balancear da omnisciência ao intimismo da focalização interna, passando, ainda, pela objectiva visão testemunhal:

O sino da igreja de Santo André, no fundo do vale, deu as trindades. Por sobre a Ilha da Madeira, nas ruas e terreiros, dentro das tabernas e casas de acomodação, ouve-se um murmúrio longínquo, como o do mar ao longe. Estariam vinte mil homens dizendo a oração da tarde, estariam contando uns aos outros a sua vida, vá lá averiguar-se.
XVIII, 238

A originalidade deste narrador resulta, ainda, do tratamento dado à categoria tempo, pressuposto, aliás, no próprio título, já que o nome “Memorial” remete para a contemporaneidade entre a história e quem a relata. Todavia, e em paralelo, o narrador define-se também em função do tempo do discurso que ele próprio enuncia, deste modo se assumindo como entidade capaz não só de produzir e garantir a veracidade da história, porque a presenciou, como ainda de a confrontar com acontecimentos posteriores que também conhece, por serem anteriores ao tempo da escrita, do qual é igualmente contemporâneo. Assim se explica o uso do presente e do futuro do indicativo, índices de um sujeito narrativo que tanto sabe apenas o que vive como o todo que a omnisciência lhe permite saber:

(...) faça as contas quem quiser, que a laje tem de comprimento trinta e cinco palmos, de largura quinze e a espessura é de quatro palmos (...) e quando um dia se acabarem palmos e pés por se terem achado metros na terra, irão outros homens a tirar outras medidas e encontrarão sete metros, três metros, sessenta e quatro centímetros, tome nota, e porque também os pesos velhos levaram o caminho das medidas velhas, em vez de duas mil cento e doze arrobas, diremos que o peso da pedra da varanda da casa a que se chamará de Benedictione é de trinta e um mil e vinte e um quilos, trinta e uma toneladas em números redondos, senhoras e senhores, e agora passemos à sala seguinte, que ainda temos muito que andar.
XIX, 245

Tudo se passa, afinal, como se ao narrador fosse dado “viver” o tempo tal como o concebe o autor, que o entende como “uma tela imensa” onde tudo se mantém “espalmado” lado a lado, numa “arrumação caótica” à qual necessário é, depois, “encontrar um sentido. (ii)
Viajando nessa “tela”, habitando-a, o narrador convoca o passado e encontra nele sentido(s) que a História negligencia. Reescreve-a, então, destacando aqueles que nela são menosprezados. Para tal, institui como protagonista essa gente de que a História não fala, mas cujas vidas, ficcionadas, passam a ser

(...) mais verdadeiras que os casos verdadeiros que elas contam (...)”
XII, 137

E é isso que procuraremos entender adiante: como é que de uma multidão anónima, calejada e exausta, se constrói um dos heróis do romance, e ainda como, arrancando ao anonimato um grupo restrito desses homens, se consegue refractar, “(...) na sua história e no seu discurso uma maneira de ser, uma identidade bem portuguesa (...)” . (iii)
Tentaremos, por fim, compreender ainda como, partindo das acções desses homens, do seu espaço físico e social e dos seus atributos, se chega à configuração de um sentido indiciador da necessidade de lembrarmos que, no passado como no presente, todos os homens são iguais. E, também, da obrigação de, no presente como no passado, nunca esquecermos “(...) que usamos perversamente a razão quando humilhamos a vida, que a dignidade do ser humano é todos os dias insultada pelos poderosos do nosso mundo, que a mentira universal tomou o lugar das verdades plurais, que o homem deixou de respeitar-se a si mesmo quando perdeu o respeito que devia ao seu semelhante.” (iv)
______________________________________

(i) No que concerne a esta categoria, julgamos haver alguma precipitação, quando se afirma: “É toda uma descrição minuciosa do tamanho da pedra, das reacções de homens e animais (...), mas, mais importante que todo este aparato épico, é, sem dúvida, o objectivo de enfatizar, em confronto com o poder régio, o peso político-ideológico, aos olhos do narrador neo-realista, da força humana e animal.” – MONIZ, António, Para uma Leitura de Memorial do Convento de José Saramago. Uma proposta de leitura crítico-didáctica, Lisboa, Editorial Presença, 1995, p. 97, sublinhado nosso).

(ii) Cf. REIS, Carlos e M. LOPES, Cristina, Dicionário de Narratologia, 6ª ed., Coimbra, Livraria Almedina, 1998, pp. 80 e seguintes.

(iii) Cf. op. cit. nota i, p. 32.

(iv) SARAMAGO, José, Discursos de Estocolmo, Lisboa, Caminho, 1999, p. 32.


Adriano Alcântara
Professor de Português e Francês
Escola Secundária José Saramago – Mafra
Janeiro de 2000

(continua)

Atenção!

Espera-nos mais um texto. De quem será desta vez?