sexta-feira, janeiro 11, 2008

Livros com pernas

E se, de repente, os livros tivessem asas, pernas ou, acima de tudo, um caminho próprio, um trilho a percorrer, tivessem encetado uma viagem sem fim à vista? E se fossem de todos e não fossem de ninguém? E se, depois de lidos, fossem libertados para ser lidos de novo e libertados outra vez numa viagem infindável, fonte de prazer sem limites, sem barreiras, sem fronteiras? No BookCrossing tudo isto é possível. Com três Rs iniciais, register (regista), read () e release (liberta), o BookCrossing é um movimento internacional de partilha de livros e leituras, movido primordialmente por uma imensa generosidade, o alicerce sobre o qual todo o movimento assenta. É grátis, como convém a tudo o que implique partilha e generosidade, fácil de aceder e muito gratificante e enriquecedor, o local indicado para os leitores compulsivos e amantes de livros.
E como é que tudo funciona? É simples. Para melhor se entender, toca de aceder ao site de apoio em português aqui, assim será mais fácil compreender as siglas, a dinâmica do movimento, descarregar etiquetas, saber quando e onde há encontros e muito mais informações. O site de apoio, além de estar muito bem organizado e ter um grafismo atraente, proporciona-nos um encontro facilitado sem a barreira da língua inglesa. Depois impõe-se uma visita ao sítio internacional do BookCrossing, faz-se um registo com um endereço de correio electrónico, registam-se os livros no sítio, ganhando cada um deles o número de identificação a partir do qual vai ser possível acompanhar o percurso e viagem do livro e depois, libertam-se, emprestam-se, partilham-se. A partir de agora, há que tomar atenção, muita atenção, nunca se sabe se não vamos encontrar um livro à solta...

sexta-feira, janeiro 04, 2008

Receita de Leitura (3)

Dose de Amostra

Dei então por mim a conversar com o cão, sempre que estávamos sós. Digo bem: conversar. Porque se ele nunca chegava, como pretendia, à enunciação, não tenho dúvida de que compreendia a humana fala. Pelo menos a nossa. Falava-lhe das caçadas que podíamos ter feito e não fizemos. Tentei explicar-lhe a magia da pesca, mas isso foi coisa que ele nunca aceitou. Quando voltei a caçar, normalmente na companhia do meu filho do meio, contava-lhe as proezas de cada um. Também lhe falava de versos, é verdade,como às vezes não tinha ninguém a quem ler de imediato um poema acabado de escrever, lia-o ao cão. Ele gostava. Não sei se do poema. Mas de que lho lesse. Ou do ritmo, do som, fosse do que fosse. Não que uivasse como com a música de Albeniz. Mas creio que ele também gostava da música da poesia, da alquimia do verso, da litania e da celebração mágica que todo o poema é. Algo que os bichos talvez entendam melhor do que os especialistas de literatura.

Manuel Alegre, (2002), Cão como Nós, Lisboa, Caminho.

Composição
Cão como Nós de Manuel Alegre é uma novela sobre um cão, Kurika de seu nome, que fez parte integrante da família Alegre durante muito tempo e que, ao partir, deixou saudades profundas e este pequeno livro escrito pela mestria e sensibilidade do autor.

Indicações
Este livro está indicado para os devotos incondicionais de animais, especialmente de cães. Indivíduos com gosto por leituras breves mas carregadas de sensibilidade observaram significativas melhoras com a leitura deste livro. Está indicado para quem quiser conhecer uma outra faceta do autor, longe da poesia e do romance e quem tiver curiosidade sobre as vidas quotidianas do(s) escritor(es).

Precauções
Indivíduos obcecados por estereótipos em busca de um tratado sobre o comportamento canino devem ler este livro com muitas reservas, uma vez que no composto activo está presente um cão atípico, desobediente, e com manias de humano. Podem verificar-se pontualmente episódios de tristeza. Descontinue a leitura imediatamente, caso comece a chamar pelo Kurika, a esperá-lo pela calada da noite ou a deixar-lhe uma tigela com água. Podem ocorrer ocasionalmente ataques súbitos de carinho e ter vontade de se agarrarao pescoço dos caninos.

Posologia
Não foram reportados efeitos de sobredosagem. A leitura continuada potencia os efeitos positivos e uma segunda ou terceira leitura prolonga o bem-estar e estimula a imaginação.
Outras apresentações
Como complemento sugere-se a leitura de Amados Cães e de Amados Gatos de José Jorge Letria e Gatos e mais Gatos da mais recente laureada com o Prémio Nobel da Literatura, Doris Lessing.

Bom ano

Gosto muito de computadores. Facilitam-nos a vida de forma incomensurável, ligam-nos ao mundo fora e dentro de nós, mas, apesar disso, ou talvez por isso mesmo, quando nos faltam é um problema dos grandes. Foi isso que aconteceu ontem, quando regressei à Escola e à nossa Biblioteca/ Centro de Recursos. Queria postar os votos de um bom 2008, dar-vos as boas vindas ao ano e à escola e ao De Mês em quando. Contudo, devido a um problema na rede, não o consegui fazer. Aqui ficam, com atraso, mas sentidos, os votos de um belíssimo Ano Novo, cheio de leituras e experiências positivas e gratificantes na vida pessoal e profissional.

sexta-feira, dezembro 14, 2007

Uma Escola, muitas culturas

Longe vai o tempo em que a Escola se vestia apenas de uma cor, apenas de uma língua e apenas de uma forma de estar. Com o advento de novas realidades sociais, a escola tornou-se o cadinho de culturas onde a diferença convive saudavelmente e onde podemos aprender ainda mais sobre outros hábitos, culturas e países. A nossa Escola não é excepção, portanto, se querem saber mais, leiam os textos abaixo, recolhidos para o placard organizado pela patrona da nossa Biblioteca e que podem ler e contemplar à porta da Biblioteca/Centro de Recursos. Quem não pode cá vir ou já leu, tem agora a oportunidade de (re)ler os textos na íntegra aqui no nosso blogue.

Norwegian Christmas

You can say that the Christmas in Norway starts at the first of December. Because that’s when we start the “countdown” to the 24th of December, we start to decorate the streets with Christmas trees and Christmas decorations. We also start to bake Christmas cookies, hang up the Christmas calendar (a special calendar that starts at the 1st of December and counts down to the 24th of December, and every day you have to open the calendar and there you get a little gift, usually chocolate or candy). Also almost all of the TV canals start to send Christmas cartoons.
Then at the 23 of December the whole family is usually together, and we decorate the Christmas tree, and put all the presents under it.
Then on the 24th of December, we celebrate Christmas. We usually start the day by going to church (not everybody does that) and then go home and watch Christmas cartoons, and eat the candy from our Christmas stockings. At lunch it’s normal to eat a traditional Norwegian porridge. And we sometimes have a little game that is called “find the almond in the porridge”. We put only one almond in the porridge before serving the porridge, and then the person who get’s the almond in the porridge, wins a marzipan pig. It’s kind of an old tradition, so not many people really know why we do this.
Then at around 6 o’clock we have the traditional Christmas dinner, it usually consist of salted and dried rib of mutton, potatoes, sausages, mashed potatoes, and foxberry jam.
Then after the dinner we open all the presents, and then we have dessert. And the rest of the evening we have fun, enjoying the company of our family, and maybe watch a little bit TV. (it’s always a lot of Christmas cartoons and series on TV at Christmas, and a lot of them are series they send every Christmas, so it is kind of a tradition to watch some of them).


Ingvild Slevolden, 12º A, aluna do Programa Intercultura

O Natal do Brasil

O Natal do Brasil é diferente do de Portugal por razões variadas:
• no Brasil é verão;
• a noite toda é festa;
• a comida é variada com churrasco, maionese e arroz branco e com frutos secos que não podem faltar;
• há uma mesa com frutas variadas e decoradas: mamão, melancia, etc.;
O Natal no Brasil é uma época do ano que representa alegria e muita festa.
Na noite do dia 24 de Dezembro há muita alegria. O calor é motivo de grandes celebrações em todo o lado, em casa, na rua ou em casa dos amigos.
Os pratos principais são o churrasco e maionese (uma salada parecida com a salada russa). Come-se também pavê e panettone que é o bolo típico do Natal, muito parecido com o bolo-rei, e que não pode faltar na noite de Natal e na passagem de ano. À meia-noite há troca de prendas, como em Portugal, e depois continua-se com as danças. A festa continua até amanhecer.
Como se pode ver, o clima é o principal motivo de festa no Brasil, pois podemos escolher lugares ao ar livre, ao contrário de Portugal que, nesta época do ano, está muito frio e toda a gente está dentro de casa.
Mas, apesar de todas as diferenças, acreditamos nas mesmas coisas, o que torna o Natal parecido no sentido espiritual. É um período que tem como objectivo unir as famílias e os amigos.

Glicyan Lima, 12º G

Natal

Para confirmar o que é o Natal
Consultei há dias o dicionário
E lá estava… o que eu já sabia
É a festa do nascimento do filho de Maria
Que mais tarde… foi para o calvário.

Natal para mim… é família
É partilha… união… solidariedade
É olhar todas as crianças com Amor
É não ficar indiferente à dor
É dar as mãos aos de mais idade.

É não pensar só em si
É ter no outro… um irmão
É estar sempre inquieto
Enquanto houver alguém por perto
Que necessite de Pão.

E o Pão… não é só alimento
Não é só estômago aconchegado
É não estar só neste Mundo
É olhar p’ra dentro bem no fundo
É ser-se melhor … que no passado.

Mas Natal… também é esperança
É ternura… é sonho… é fé
Poderá ser ainda encanto e magia
Se acreditarmos no filho de Maria
E no Homem… que foi José…


Maria Lucinda F. Gomes Silva Santos, Auxiliar de Acção Educativa

Natal na Moldávia

A República da Moldávia tem as suas tradições muito variadas, ricas e originais, as mais interessantes são relativas aos feriados de Inverno.
Na Moldávia, os ortodoxos reúnem-se para celebrar o dia de Natal no dia 7 de Janeiro, enquanto os católicos celebram o Nascimento de Cristo nos dias 24-25 de Dezembro. No dia 7 de Janeiro fazemos um jantar diferente, trocando presentes entre as pessoas mais queridas e mais próximas da família. A árvore de Natal, que simboliza para nós a vida e saúde, também está presente nas casas. Normalmente é uma árvore natural.
Na noite do Fim do Ano, no dia 31 de Dezembro, reúne-se, por fim, toda a família e os amigos para comemorar a passagem do Ano. Nesta noite temos uma tradição especial onde as crianças andam nas casas das pessoas (vizinhos) a cantar "pluguşorul", o canto especial para Ano Novo a desejar às pessoas muita saúde e felicidades para o ano novo que está a chegar, às vezes usando a campainha e, em troca, recebendo doces e dinheiro.
Também temos o Avô Gelo (Moş Crăciun), que simboliza o Inverno e a velhice do ano que está a acabar. É ele que "deixa" os presentes para todos membros da família, com especial atenção as crianças. Há pessoas que se vestem de Avô Gelo. À meia-noite há fogo de artifício e as pessoas brindam ao Ano Novo.
O Ano Novo e o Natal são muito diferentes na Moldávia. Faz muito frio, chega aos 25-30° abaixo de zero, e fica tudo branquinho por causa da neve.
Como há muitos moldavos em Portugal e como estão a habituar-se a uma cultura diferente, passam cá dois Natais: um Natal português e outro moldavo.


Cristina Martnos
12º I

sexta-feira, dezembro 07, 2007

Boas notícias

Hoje, depois de década e meia de contenda entre a autarquia e o patrono da nossa Escola, José Saramago, o executivo da Câmara aprovou, por unanimidade, a atribuição da Medalha de Mérito Municipal ao escritor. Aqui no De Mês em Quando comemora-se mais uma vez a literatura!

Livros, claro!

E agora que o Natal se aproxima vertiginosamente de nada adiantará dizer que, infelizmente, a festividade se veste com todas as cores do consumismo. É uma verdade, mas um lugar-comum também, tão comum que poucos pararão para pensar e continuarão a fazer compras desmesuradamente, comendo além do razoável e praticando alguns excessos que nada têm a ver com o espírito cristão da época mas que tudo têm a ver com a prática que se foi instituindo ao longo do tempo.
Cá no De Mês em Quando, o Natal é sóbrio, sem excessos, mas obviamente não ficamos de fora e, portanto, aqui vimos fazer sugestões de presentes. E qual será o melhor presente nesta época? Livros, claro. Os livros não se esgotam numa leitura, não passam de moda, são um belíssimo antídoto para a solidão, uma maneira óptima de crescermos, viajarmos, aprendermos e, claro, de nos divertirmos também. É certo que o preço dos livros é o seu único senão. Estão caros, não há qualquer dúvida, mas se pensarmos que o podemos ler uma vez, deixar o pai ou mãe, um irmão ou uma irmã, fazê-lo também, a seguir emprestá-lo a um amigo ou amiga ou colega de escola para depois, se assim o entendermos, a ele voltar, o investimento compensa. O prazer imenso que um livro nos dá compensa logo à partida, já se sabe. Pensem nisto. Um livro é para sempre.

Boca do Inferno, por exemplo

Na sequência do post anterior, aqui uma das minhas sugestões e que estou certa agradará a muitos. Sou fiel seguidora das crónicas do Ricardo Araújo Pereira, sobejamante conhecido como um dos integrantes dos Gato Fedorento, na revista "Visão". Todas as quintas-feiras procuro avidamente a última página da revista e deleito-me com o humor e sarcasmo das crónicas. Os temas variam. Ora sobre o quotidiano ora sobre assuntos políticos da actualidade nacional ou internacional ou sobre futebol, as crónicas provocam sempre umas gargalhadas sonoras, um ingrediente fundamental para um quotidiano mais saudável e risonho. Agora as crónicas passadas encontram-se compiladas num só volume. O livro tem o título da crónica semanal Boca do Inferno e a edição é da Tinta da China. Se quiserem ler um bocadinho antes de se decidirem pela compra do livro, podem espreitar aqui.

quinta-feira, dezembro 06, 2007

Nikolaustag

ou seja Dia de São Nicolau. Na Alemanha, Áustria, Suiça e na Holanda hoje é o dia dedicado a este santo. Da história sabe-se que São Nicolau viveu no século IV, em Myra, na Antália, uma cidade da Anatólia, território pertencente hoje à Turquia, provinha de famílias abastadas e que se dedicou a ajudar os pobres. A lenda vai mais longe e conta que São Nicolau terá salvo abnegadamente três jovens mulheres de uma vida de mágoa, sacrifício e sofrimento. Do mito e da realidade nasceu o costume e o hábito de dedicar este dia às crianças. Espera-se que São Nicolau faça uma visita às crianças na noite de 5 para 6 de Dezembro. Se se portaram bem durante o ano, São Nicolau encarregar-se-á de as compensar e deixa-lhes nas botas, que as crianças colocaram para o efeito à porta do quarto, guloseimas. Mas nem tudo são rosas e se se portaram mal, Ruprecht, o ajudante de São Nicolau trata de as castigar, deixando, às vezes, um pau no lugar das esperadas guloseimas.
As semelhanças entre o Pai Natal dos tempos modernos e o São Nicolau são algumas: ambos se vestem de vermelho, são amigos das crianças e correm de casa a casa distribuindo alegria e presentes. Não obstante, cada um tem o seu lugar nas festividades de Natal que se aproxima e, nos países mencionados, hoje é um dia de grande alegria.

quarta-feira, novembro 28, 2007

Texto procura-se

O dia para trás das costas finalmente, o caminho tranquilo na direcção do ocaso laranja, uma tarja de mar inesperada no equinócio de Inverno iminente, o ziguezaguear pelas ruas da aldeia e, de repente, eis que me salta um texto ao caminho, pequeno é certo, as primeiras três palavras apenas, mas era um texto. Reconheci-o pela forma inesperada com que me surpreendeu. Sem aviso. Os textos não primam pela deferência. Aparecem sem se anunciar e saltam-me ao caminho em alturas pouco oportunas. Os textos fazem-me isto muitas vezes. Depois de passar as hortênsias do lado esquerdo, recompus a frase inicial, juntei-lhe mais uma palavra, agora com vírgulas a separar e, antes de chegar aos penachos do lado direito, já lhe tinha acrescentado um outro substantivo, características, talvez ou particularidades. Pisca para a esquerda, o ocaso alaranjado, viro à esquerda. Quando passei o chorão do lado direito ainda o sentia preso na imaginação, bem agarrado, como quando se segura um pássaro nas mãos, as asas em linha recta com o corpo distendido ao ritmo da respiração. Estava vivo, portanto. Chego a casa. Abandono-me ao ritmo que largo os livros me cima da mesa. Um suspiro profundo a recompor-me do dia e o texto soltou-se-me à primeira distracção. Ainda tentei agarrá-lo mas quando lhe deitei mão tinha-se libertado pela porta da sala entreaberta contra o crepúsculo lá fora. E foi assim que fiquei sem ele, esse tal texto que tinha na mão e em mim, esse que leriam agora caso não fosse tão rebelde e não me tivesse fintado ao pôr-do-sol.

Imagem daqui

sexta-feira, novembro 23, 2007

Buy Nothing Day

Comemora-se hoje nos Estados Unidos da América e amanhã em todo o mundo o Buy Nothing Day, que numa tradução livre, significa Dia de não comprar. Nestes dias, o apelo está contido na própria designação do dia: não comprar nada é o lema. Não comprar nada parece uma proibição Não faças, não digas, não compres, mas proibições à parte, o objectivo principal é alertar as consciências para o ímpeto consumista, que, do ponto de vista da protecção do ambiente, é um passo mais para a destruição dos recursos e uma fonte inesgotável de lixo e desperdício.
Longe das preocupações ambientais, fundamentais para uma atitude responsável face ao mundo em que vivemos, a preocupação centra-se no descontrolo consumista, à mercê do estado espírito e que, para além da satisfação imediata no acto de comprar em estados de espírito sombrios ou crepusculares, nada mais traz. Este impulso foi já considerado como uma desordem passível de ser tratada com fármacos específicos para reduzir a pulsão.
O Buy Nothing Day levanta uma outra questão interessante: e se hoje, em vez de acorrermos aos centros comerciais e lojas, descobríssemos uma forma alternativa de passar o tempo, longe do consumismo? A leitura, por exemplo, ou dar um passeio com os amigos. O mundo inteiro está recheado de alternativas bem mais profícuas e enriquecedoras do que nos encafuarmos em lojas, à procura daquela peça que naquele momento nos parece a melhor, a mais bonita, a absolutamente necessária, mas que, uma vez chegados a casa, não é mais do que apenas mais uma.
Se pensarmos que o Natal está aí à porta e que se tornou por excelência uma época de consumismo desenfreado, destituído de significado, esta será uma óptima altura para pensarmos um pouco mais e reduzirmos os gastos desnecessários. Os comerciantes não gostarão certamente, mas o ambiente e a carteira compreenderão. E se já compraste alguma coisa hoje, lembra-te que a felicidade é grátis e de que não depende do que compramos.


Mais sobre o Buy Nothing Day.

Imagem daqui

quinta-feira, novembro 22, 2007

Sistema operativo

25 anos do Memorial do Convento

No passado dia 17 passaram 25 anos sobre a primeira edição do Memorial do Covento. A data foi comemorada com um colóquio no Palácio Nacional de Mafra. Inicialmente estava prevista a presença de José Saramago, mas por motivo de doença não pode comparecer. O colóquio foi composto por várias palestras, alusivas à época histórica em que decorre o romance, bem como sobre o própio romance. As palestras decorreram numa das salas mais belas e envolventes do Palácio, a Biblioteca e, para muitos, esta comemoração não atingiu o seu auge, uma vez que o escritor não esteve presente. Com ou sem Saramago, foi um momento grande em que se homenageou a literatura portuguesa e uma das suas obras mais emblemáticas.

17 de Novembro 1982 - 17 de Novembro 2007

sexta-feira, novembro 16, 2007

85 anos

Parabéns, Saramago!


José Saramago completa hoje 85 anos de vida, mais de quatro décadas dedicadas à escrita, um Prémio Nobel, entre outros galardões, e muito romances para deleite dos amantes de literatura. Hoje é portanto uma data grande não só para o homem mas para o escritor, maior que o homem, e que ficará para sempre inscrito na história deste país e na história da nossa escola. E, porque no De Mês em Quando estamos atentos, aqui ficam os votos sinceros na passagem de mais um marco. Parabéns, José Saramago!

quinta-feira, novembro 15, 2007

Festival de Literatura Irlandesa

Começou ontem, em Lisboa, o Festival de Literatura Irlandesa. A iniciativa, a cargo da Casa Fernando Pessoa, da Fauldade de Letras de Lisboa e da Sociedade Guilherme Coussoul, tem como objectivo não só uma homenagem às letras irlandesas mas também dar testemunho das influências nas diferentes artes em Portugal. O Festival conta com a participação de escritores e claro, leitores, sem os quais a literatura não tem razão de ser, em debates e encontros. A entrada é grátis.

sexta-feira, novembro 09, 2007

Maioridade

João Ubaldo Ribeiro, 66 anos, brasileiro, natural de Itaparica, escritor, membro da Academia Brasileira de Letras. Wladimir Kaminer, 40 anos, russo, natural de Moscovo, escritor, jornalista, animador de rádio, fundador da Russendisko. Embora vinte e dois anos de vida e um continente apartado pelo Atlântico os separem, estes dois homens partilham entre si, além do labor da escrita, uma mesma cidade. Não há evidência de que alguma vez se tenham encontrado, desconhece-se se algum dia se terão cruzado na Ku´ damm ou em qualquer outra rua da urbe mais emblemática do século XX. E, mesmo sem se saber o seu paradeiro durante o longínquo ano de 1990, altura em que ambos partilharam a cidade, Berlim une os dois escritores. Assim conta a história de João Ubaldo Ribeiro, que a convite do DAAD passa quinze meses em Berlim e que a partir da sua vivência na cidade e do confronto com uma realidade que o esperava com todos os estereótipos do brasileiro da Amazónia, escreve um livro delicioso, cheio de humor e peripécias narrando as aventuras desses quinze meses em território germânico. Enquanto isso, Wladimir Kaminer, recém-chegado da Rússia politicamente em escombros e socialmente desvalida, talvez habitando já no Schönhauser Allee, também o título de um dos seus livros iniciais, vive Berlim de forma tão intensa e estranha quanto Ubaldo Ribeiro. O mesmo olhar de fora, crítico, irónico, sarcástico, focado na cidade em pleno processo de mudança, engalanada com todas as cores da liberdade, exuberante na esperançada transmutação.
João Ubaldo Ribeiro regressa ao Brasil, para trás a experiência de Berlim e a rua Storkwinkel, a morada berlinense que admite ter-lhe deixado saudades, e brindou-nos com um belíssimo livro, breve, mas prenhe das impressões de um brasileiro em Berlim e que acabaria por emprestar o título à obra.
Kaminer ficou. Berlim torna-se, entretanto, o cadinho fervilhante de que são feitos quase todos os seus livros. Kaminer assume-se como não berlinense no único livro que dedica abertamente à cidade, Ich bin kein Berliner, a paródia evidente a uma das afirmações mais simbólicas do século passado. A dúvida persiste, no entanto, e para saber fica, se este estatuto de forasteiro serve à escrita, à figura pública do escritor ou ao real sentimento de inadaptação que provou ser um dos ingredientes imprescindíveis e de sucesso nas obras de Kaminer, mais ainda se pensarmos que tem intenções de candidatar-se a Burgomestre da cidade.
E Berlim não é cidade mãe, materna e acolhedora. Não tem regaço nem colo. Não nos canta canções de embalar nos crepúsculos agitados. Berlim é o oposto da mãe: dispersa, áspera, desigual, imensa e indiferente. Em Berlim podemos ser anónimos eternamente, um entre muitos na multidão frenética, multicolor, multicultural, lançados à mercê dos humores da sua altivez e intensidade que congrega a ironia e contradição dos acontecimentos históricos e sociais mais transformadores da Europa do século XX. E duma cidade assim, a história inscrita em cada pedra e a espreitar a cada esquina, só podiam brotar muitos livros, possíveis pela comunhão com a cidade que 9 de Novembro de 1989 permitiu.

foto daqui

sexta-feira, novembro 02, 2007

Pão-por-deus

No dia de Pão-por-deus as portas de minha casa escancaram-se, um prolongamento evidente da alma risonha e desvelada. Espreito-os pela janela, depois do chilrear que habitualmente os denuncia. Descem a rua e encaminham-se decididos para a minha porta. Tocam à campainha. Abro-lhes a porta, dizem ao que vêm e, de saco aberto, pregam os olhos vivos e iluminados na mesa colorida com recipientes vários: rebuçados, chupa-chupas, moedas de chocolate e gomas. No olhar o sentido de justiça infantil e com ele escrutinam quantas moedas a um e a outro, quantos chupas e se todos levam em igual quantidade de cada uma das guloseimas ao dispor. De ano para ano o crescimento evidente. Alguns dispensaram, entretanto, a vigilância familiar e regressam mais confiantes à procura das moedas de chocolate ou das bolinhas, imprescindíveis neste dia de alma iluminada. Um beijo, uma festa na cabeça, agradecem felizes, com os sacos tilintando e os sorrisos inestimáveis. Até para o ano.

sexta-feira, outubro 26, 2007

Simpsonizem-se

E porque no De Mês em Quando a diversidade é importante, hoje não vamos falar de livros.
Marge, Homer, Maggie, Lisa e Bart.
Os Simpsons, claro. Quem não os conhece? E quem nunca deu umas boas risadas com as aventuras desta família em Springfield? Além do bom humor e das aventuras, os Simpsons distinguem-se pelo seu aspecto peculiar. Já pensaram se, em vez de sermos assim, como somos, cabelos castanhos, louros ou ruivos, tez clara ou escura, pudéssemos também nós ter aquele aspecto tão único? Foi isso que fiz. Vejam só, não estou aparecida?


Ousem e simpsonizem-se aqui.

quinta-feira, outubro 25, 2007

Receitas de Leitura (2)

DOSE DE AMOSTRA

Na família Diogo cada vez mais se desenhava diferença de atitude em relação a Carnaval da Vitória. Os dois miúdos tratavam o porco como membro da família. Limpavam o cocó dele, davam-lhe banho e, todos os dias, passavam nas traseiras do hotel a recolher dos contentores pitéus variados com que o bicho se jibóiava.
O suíno estava culto, quase protocolar. Maneirava vénias de obséquio com o focinho e aprendera a acenar com a pata direita, além de se pôr de papo para o ar à mínima cócega que um dos miúdos lhe oferecesse na barriga.
Pai Diogo aferia o porco de maneira diferente. Para ele era tudo carne, peso, contabilidade no orçamento familiar. Indisposto de engolir o peixe frito, os olhos dele bombardeavam direito no porco para um balanço da engorda: «Estás-te a aburguesar mas vais ver o que te espera», e com a mão no pescoço mostrava-se aos filhos na forma de como se corta uma goela, «faca! é o fim de todos os burgueses!».


Manuel Rui, (2007), Quem me dera ser onda, Lisboa, Caminho.

Composição
Quem me dera ser Onda de Manuel Rui é uma novela em torno da existência urbana de uma família em Angola pululante de episódios rocambolescos. Pai, mãe, dois filhos e um porco partilham o sétimo andar do apartamento, mau grado a oposição dos vizinhos.

Indicações
Este livro está indicado para quem gosta de viajar no tempo e no espaço. Recomenda-se no caso de indivíduos com gosto pela fantasia, por prosas coloridas, por metáforas e que sejam atreitos à sedução das leituras que não se esgotam numa primeira vez. É muito bem tolerado por quem tem apreço pelas letras de expressão portuguesa com o calor dos trópicos e a cor da paisagem africana, ainda que urbana.

Precauções
Não se recomenda a indivíduos sem capacidade de dar umas boas risadas ou que tenham alicerces demasiados profundos em quotidianos sombrios e realidades lineares desprovidas de imaginação, humor e sátira. Está desaconselhado para amantes de romances longos. Podem verificar-se pontualmente episódios de ansiedade. Caso comecem a ocorrer sonhos frequentes com o Carnaval da Vitória ou pensamentos inquietantes sobre o seu destino, a leitura deve ser descontinuada imediatamente.

Posologia
Recomenda-se a leitura diária de algumas páginas não se conhecendo efeitos de sobredosagem. Desconhecem-se efeitos secundários de uma segunda ou terceira leitura.

Outras apresentações
Caso tenham sido observadas melhorias com a leitura de Quem me dera ser Onda recomenda-se a incursão em Estórias de Conversa do mesmo autor e em Os da minha Rua de Ondjaki.
Depois da edição em papel desta Receita de Leitura no passado dia 22 de Outubro, em comemoração do Dia Internacional das Bibliotecas Escolares, aqui fica on-line. Entretanto, se gostaram desta e da outra vão aparecendo por aqui.

segunda-feira, outubro 22, 2007

Bibliotecas do mundo

As bibliotecas são um local de verdadeiro culto por um dos objectos mais amados da vida dos leitores: os livros. No silêncio que se deve observar para escutar as vozes das personagens e através das quais também o escritor dialoga com o leitor, existe uma comunhão que une leitor, escritor e obra escrita. Mas se algumas bibliotecas estão albergadas em sumptuosos edifícios, com as condições necessárias para a conservação dos livros, outras resignam-se à sua própria condição e nem sempre usufruem das melhores condições de funcionamento. Possuem, não obstante, o mais valioso ingrediente para o sucesso: a boa vontade, a determinação e o empenho. Assim é em São Gonçalo, na região metropolitana do Rio de Janeiro, Brasil. Um pedreiro, Carlos Luís Leite e a mulher, Maria da Penha Mello, resolveram utilizar uma das assoalhadas da sua própria casa para albergar uma biblioteca numa comunidade carenciada em São Gonçalo. A ideia surgiu quando Carlos Leite estava a fazer obras numa casa. O dono queria desfazer-se de seis volumes e o pedreiro pediu para ficar com eles. A partir daí nasceu esta enorme paixão, ainda maior se tivermos em conta que Carlos Leite teve de abandonar a escola muito cedo para trabalhar e que as letras lhe permanecem quase indecifráveis. A biblioteca funciona em sua casa, no Jardim Catarina, e, entretanto, os livros foram tomando o lugar dos seus guardiães que agora ocupam apenas uma ínfima parte da sua casa, literalmente empurrados pelos livros. Em 2005, a biblioteca comunitária contava com 5.000 exemplares, tendo o número duplicado entretanto. Todo o acervo da biblioteca foi doado e é mantido por Seu Carlos e Dona Penha. A biblioteca é gratuita e frequentada por muitas crianças que utilizam o espaço para seu proveito e para melhorar o seu aproveitamento escolar, bem como por adultos que respondem ao chamamento dos livros.
E esta estória daria um belíssimo argumento para um filme, dos que nos deixam o coração a sorrir muito depois de abandonarmos a sala de cinema. Contudo, ela é ainda mais bela e comovente porque é real e nos enche o coração de esperança que leva a acreditar que há sempre um caminho e que os livros podem surgir na adversidade para melhorar vidas.
Aqui fica a mais sentida homenagem a quem sem meios, sem nunca ter tido acesso a livros ou a um meio cultural que promovesse o contacto com livros, educação formal e cultura dita erudita, tem no seu âmago a mais bela e tocante das qualidades: uma generosidade tão genuína e abnegada que só pode encher de luz os corações dos amantes de livros neste Dia Internacional das Bibliotecas Escolares. Bem hajam, Seu Carlos e Dona Penha.

Ler mais aqui.
Imagem do mesmo sítio.

quinta-feira, outubro 18, 2007

Destaque

E, acabadinho de chegar, temos este placard em honra ao mais recente Prémio Nobel da Literatura, Doris Lessing, com a cortesia e talento da patrona da Biblioteca/ Centro de Recursos, Professora Maria Luisa Barros.


fotos: minhas

quinta-feira, outubro 04, 2007

Dia do animal

Human beings are the only animals of which I am thoroughly and cravenly afraid.

George Bernard Shaw

Os cães porque são meigos, fieis, jamais abandonam o dono, colam-se-lhe exigindo atenção mas retiram-se se repreendidos, obedecem, entendem claramente as faltas em que incorreram, abanam o rabo ao pressentirem os amigos, lançam olhares meigos a que ninguém com coração consegue resistir e retribuem sem contrapartidas a entrega de quem os quiser estimar. Os gatos porque são belos e magnéticos, elegantes e independentes, têm uma personalidade vincada e não influenciável, são territoriais, leais e gratos se bem lhes fizermos e, claro, quem resiste ao ronronar ternurento num dia de invernia à lareira, da rodilha de pelo felpudo em que se transformam nesses mesmo dias cinzentos, abrindo apenas uma fresta de olho para que nos saibamos vigiados? E depois há os pássaros, coelhos, hamsters, tartarugas, peixinhos multicolores, répteis inclusive. Perceberão, pelas palavras acima desenhadas, que sou uma amante confessa e irrecuperável de gatos, prefiro-os aos cães, e portanto não posso concordar mais com Mark Twain: "If animals could speak, the dog would be a blundering outspoken fellow; but the cat would have the rare grace of never saying a word too much.” Uma questão de gosto apenas, esta minha paixão pelos felinos, mas uma coisa é certa, gatos, cães, periquitos, cágados ou coelhos, os nossos amigos a que chamam irracionais são uma fonte inesgotável de prazer, um prazer a que alguns escritores não são de todo indiferentes. Miguel Torga relata abundantemente esta relação tão especial e enriquecedora entre o homem e os animais, Eugénio de Andrade confessou também magistralmente com as palavras o amor pelos gatos –como o compreendo- e Manuel Alegre escreveu o amor transformado em livro pelo seu cão, parte integrante da família, que nós, os amantes de animais, conhecemos por dentro mas seríamos incapazes de escrever com tanta excelência.
Dizia Mahatma Gandhi que a grandeza de uma nação e o seu progresso moral podem ser julgados pelo modo como os seus animais são tratados. Se assim fosse, muito haveria a dizer sobre Portugal e o constante abandono verificado mais evidente nos períodos de férias. Deixo-vos com estas palavras, hoje que se comemora o Dia do Animal.
foto: minha
Caso queiram ler os autores citados, já sabem onde os podem encontrar, na nossa Biblioteca, pois claro.

sexta-feira, setembro 28, 2007

Dos livros na escola

E o que podemos fazer mais na Escola para promover a leitura? Foi a partir desta premissa, do meu conhecimento do Bookcrossing e, acima de tudo, da Oficina de Formação sobre a qual versam os posts abaixo que cheguei a algumas conclusões.

Nós por cá

Antes que termine o ano civil e mergulhemos nas actividades deste ano lectivo, aqui ficam imagens do passado mês de Julho. Passaram dois meses, é certo, mas os bons momentos não devem ser esquecidos. Organizada pelas formadoras e professoras Jacqueline Duarte e Cristina Cruz, no âmbito da Oficina de Formação que teve lugar aqui na nossa Escola, foi levada a cabo uma visita à Biblioteca da nossa Escola e à Biblioteca da EB 2/3 aqui de Mafra.
Comecemos pelo início. O encontro das formadoras e formandas deu-se logo pela manhã do dia 11 de Julho. Fomos recebidos pela Coordenadora da Biblioteca/Centro de Recursos, professora Lurdes Fonseca, que nos levou a conhecer o espaço, bem como as actividades levadas a cabo ao longo do último ano, tendo traçado ainda um breve historial da Biblioteca da Escola. Aqui ficam algumas imagens:


fotos: minhas

Aqui tão perto

Depois de termos visitado o nosso Centro de Recursos/Biblioteca, rumámos até à E. B. 2/3 de Mafra para completarmos a visita. Fomos recebidos pela professora Júlia, uma verdadeira entusiasta das novas instalações da Biblioteca. Longe vão os tempos em que o frontispício da Biblioteca era assim:


Por muito estranho que pareça, temporariamente, a Biblioteca da E. B. 2/3 de Mafra esteve alojada num autocarro. A viagem vai começar. Toca a embarcar...


Então, mas isto não é um autocarro? Lá dentro, a curiosidade aumenta...


Isto parece-me familiar...

Mas os tempos mudaram e a Biblioteca também.

Arejada, cheia de luz, bem rechada de livros, um espaço óptimo de convívio entre os utentes da Biblioteca e os livros

Mas os livros arrumadinhos nas estantes sem ninguém que os manuseie, que os folheie, que os leia são livros mortos e claro que os amantes de livros não querem nunca que tal lhes suceda...

Devolvamos-lhes então a vida!


Fotos: minhas

quinta-feira, setembro 27, 2007

Lá dentro as cidades

Se o amor acabasse, pensaram saindo do táxi com as malas e partilhando ainda o mesmo guarda-chuva antes de partirem para destinos diferentes,
se o amor acabasse,
todas as cidades se tornariam ilegíveis.

Teolinda Gersão,(2007), A Mulher que prendeu a chuva, Lisboa, Sudoeste Editora.

Um homem solitário em Lisboa ouve a conversa de duas mulheres africanas, enquanto arrumam um quarto de hotel. Dois amantes com o corpo como ponto de partida deambulam por várias cidades europeias. Uma mulher tem um encontro imediato com um assassino em série nos transportes públicos em Berlim. São Francisco e Lisboa unidas pela similitude da ponte e uma família a braços com a crueldade de um cão descartável. Um viúvo reparte os seus dias rotineiros pela cidade de Lisboa. Um homem e uma mulher encontram refúgio em Roma. E, no entanto, A Mulher que prendeu a chuva, o mais recente livro de contos de Teolinda Gersão, não é um livro sobre cidades ou uma colectânea de contos de viagens. Crepuscular e sombrio, a única luz presente é a que ilumina o leitor pelas páginas do livro até ao fim, A mulher que prendeu a chuva move-se entre a morte, a partida literal e metafórica, a viagem pendular entre o eu e o(s) outro(s), a inquietude e a insatisfação, o desencanto do que ficou algures e ter-se-á perdido no labirinto de um tempo irrecuperável. Tudo isto em cidades. Cidades físicas, precisas, específicas, aquelas cidades e não outras. E as cidades, não determinando a acção, emprestam-lhe o carácter de cada uma delas. Um livro de partida para muitas viagens. Tantas quantas quisermos.

sexta-feira, setembro 21, 2007

Literatura em festa

Decorreu entre 14 e 16 de Setembro a sétima edição do Festival Internacional de Literatura de Berlim. Tendo como ponto de partida a partilha de universos literários diferentes na era da globalização, o festival contou com a presença de mais 100 autores e com mais de 300 eventos, um cadinho de experiências literárias certamente colorido, enriquecedor e estimulante.


A literatura portuguesa não foi esquecida e um dos momentos altos do festival foi a ovação a António Lobo Antunes, uma manifestação óbvia do entusiasmo e respeito com que um dos nomes grandes das letras portuguesas contemporâneas é recebido além fronteiras. António Lobo Antunes visivelmente emocionado, referiu o papel fundamental da Alemanha na sua matriz, um país ao qual se encontra ligado por via paterna.

Imagem: "Büchertisch" de Hartwig Klappert

quinta-feira, setembro 20, 2007

Cidades que a cidade tem

Cruzo-me com o mais recente trabalho dos Orishas, corro ao encontro de Mi sueño de Ibrahim Ferrer, e acabo por aterrar em O nosso GG em Havana de Pedro Juan Gutiérrez, o livro do escritor que inicia uma nova fase, encerrado que está o ciclo de Centro Habana. E assim é: a Havana dos Orishas não é a de Ibrahim Ferrer, a de Pedro Juan Gutiérrez não é a de Leonardo Padura, a de Zoé Valdés não é a de Ana Menéndez. Cada uma mais áspera do que a outra, mais suave, mais suja ou nostálgica, mas todas são Havana. Se, para Zoé Valdés, Havana é hoje um museu de vítimas complacentes, de oportunistas; para negociantes e turistas ignorantes*, para Pedro Juan Gutiérrez o melhor do mundo é passear pelo Malécon sem rumo, debaixo de um ciclone furioso** e à magia de Havana não fica indiferente Leonardo Padura porque quem conhecer a cidade tem de admitir que possui uma luz própria, a um tempo densa e leve, e um colorido exultante que a distingue entre milhares de cidades do mundo***.
E, pese embora a idiossincrasia de Havana, assim são todas as cidades: únicas no olhar de quem por lá passa, tantas quantos os turistas, tão diversas como os viajantes, ímpares como os seus habitantes, tanto mais coloridas quanto os seus artistas e escritores. As cidades são apenas o centro do caleidoscópio colorido por sons e letras de quantos a sentem, vivem e visitam e que, a cada visita, deambulação ou périplo, se transformam num mosaico colorido em permanente mutação.

*Zoé Valdés, (2002), Os Mistérios de Havana, Lisboa, Dom Quixote.
** Pedro Juan Gutiérrez, (2000), Trilogia Suja de Havana, Lisboa, Dom Quixote.
*** Leonardo Padura, (2005), O Romance da minha vida, Lisboa, Dom Quixote.


foto: prata da casa

quarta-feira, setembro 19, 2007

Aquilino Ribeiro no Panteão Nacional

Aquilino Ribeiro repousa desde ontem no Panteão Nacional. Considerado pelo Presidente da República com "um dos grandes prosadores da literatura portuguesa do séc. XX", a decisão de trasladar Aquilino Ribeiro não reuniu consenso e vários sectores da sociedade manifestaram o seu desagrado, nomeadamente por razões que se prendem não com Aquilino Ribeiro escritor mas antes com Aquilino Ribeiro homem e político. Divergências à parte, o escritor repousa agora entre outros escritores e nomes grandes do país, como a voz do fado, Amália Rodrigues, ou o General Humberto Delgado.

terça-feira, setembro 18, 2007

Ano Novo, Vida Nova

E eis que chega mais um ano lectivo.
À semelhança do ano passado, o De Mês em quando vai continuar a dar-vos sugestões,
(re)lembrar efemérides,
homenagear autores
ou apenas deixar-vos com uma imagem ou uma citação.
Agora desejo-vos a todos um bom ano lectivo
e, caso tenham sugestões, já sabem onde encontrar-me.
Bom ano e bom trabalho!

sábado, agosto 25, 2007

E a cultura mais pobre

Eduardo Prado Coelho, professor universitário, cronista, crítico literário, escritor, faleceu hoje em Lisboa. Longe de ser uma personagem consensual, Eduardo Prado Coelho deixa uma obra multifacetada e vasta e o panorama cultural e intelectual mais pobre.


Notícia e imagem daqui

domingo, agosto 12, 2007

Centenário

Cântico

Mundo à
nossa medida
Redondo como os olhos,
E como eles, também,
A receber de fora
A luz e a sombra, consoante a hora

Mundo apenas pretexto
Doutros mundos.
Base de onde levanta
A inquietação,
Cansada da uniforme rotação
Do dia a dia.
Mundo que a fantasia
Desfigura
A vê-lo cada vez de mais altura.

Mundo do mesmo barro
De que somos feitos.
Carne da nossa carne
Apodrecida.
Mundo que o tempo gasta e arrefece,
Mas o único jardim que se conhece
Onde floresce a vida.

Miguel Torga

12 de Agosto de 1907 - 12 de Agosto de 2007

Imagem daqui

sábado, julho 28, 2007

Estação Pateta

Cara Silly Season,

Portuguesmente falando, és apenas a Época Pateta. O nome inglês soa melhor, a retinir campainhas, a sibilar de assobios, a festa de guizos. Estrila muito mas significa pouco. Não tenho nada contra as guizalhadas, embora não seja um praticante entusiasta. Mas contra as carneiradas, tenho. Cresci numa saudável rebeldia contra o conformismo. Ora tu, Estação Tonta, és o exemplo mais acabado, retinto, e rebaixado desta tirania do banal que põe todos a dançar ao toque da mesma caixa. Sob a tua aura e protecção campeiam os estagiários de jornalismo, os militantes da chalaça, os bobos de ocasião. E vá de perguntinhas, e vá de expedientezinhos, e vá de entreter o pagode que só quer é rir, à torreira do sol, a sacudir a areia do croquete, enquanto as crianças chilreiam na praia. Pobre enfeitada Sazão Foleira, vê se percebes que, apesar do lastro de alarvidade que a tua teimosia quer preservar, já vai havendo muitos cidadãos que não têm pachorra para sandices.

Mário de Carvalho in "Visão" nº751, 26 de Julho de 2007


Mário de Carvalho foi recentemente galardoado pelo romance Um Deus passeando pela brisa da tarde. Um escritor a ler nas férias, por exemplo, ou quando regressarmos à escola, mas definitivamente a ler! Os livros? No sítio do costume, aqui na nossa Biblioteca/Centro de Recursos.

foto: da notícia (Público online)

sexta-feira, julho 13, 2007

A banhos?


Nada disso! Embora não nos importássemos de estar a banhos numa praia paradisíaca a sul e com o sotaque doce da nossa língua, eu e o De mês em quando estamos por cá os dois e assim vamos continuar, até porque esta é a forma de alunos, professores e funcionários não perderem o contacto com a nossa Biblioteca/ Centro de Recursos que, adianto para contar, foi visitado por um grupo em formação. Mas disso darei conta mais tarde... Vão estando atentos.
E serve isto tudo para dizer que, embora com menos frequência do que durante o tempo de aulas, aqui estaremos para dar notícias e aqui estamos para desejar boas férias a quem já está a gozá-las.

foto: (minha) Trancoso, Bahia, Brasil

sábado, julho 07, 2007

Live Earth

E porque nem tudo são livros e leituras hoje deixo aqui uma palavra especial a propósito do Live Earth. Numa iniciativa conjunta de vários países, irão ter lugar concertos em vários locais do planeta tão díspares com Inglaterra e Japão, Brasil e Austrália, para sensibilização sobre questões ambientais como o aquecimento global e as alterações climatéricas, consequências inequívocas da inconsciência e irresponsabilidade de todos nós. Aqui fica a mensagem: está nas nossas mãos parar com a destruição ambiental.


Mais sobre o Live Earth


Imagem daqui

sábado, junho 16, 2007

Bloomsday

Hoje a literatura está na rua em Dublin.
16 Junho de 1904, o dia em que se desenrola a acção de Ulisses de James Joyce, é comemorado pelos fãs do escritor também noutros locais do mundo e assinalado com eventos diversos no local do périplo de Leopold Bloom, a personagem central de um dos mais debatidos e famosos romances do século XX. Mais do que uma simples comemoração, o Bloomsday é a prova viva de que as efemérides também se fazem de livros que se tornam vivos e amados, ultrapassam as estantes ou mesas de cabeceira e que podem incluir actividades tão diversas como ouvir a leitura da passagem do romance, uma experiência gastronómica, como tomar um pequeno almoço irlandês ou beber uma Guinness, ou assistir a uma dramatização.
Imagem daqui

quarta-feira, junho 13, 2007

Homenagem

Fernando Pessoa
Lisboa, 13 de Junho de 1888

Gostara realmente,
De sentir com uma alma só
Não ser eu só gente
De muitos, mete-me dó.

Não ter lar, vá. Não ter calma
Está bem, nem ter pertencer.
Mas eu, de ter tanta alma,
Nem minha alma chego a ter.

Fernando Pessoa, Poesias Inéditas
foto: minha

terça-feira, junho 05, 2007

Mais talentos

Já aqui tivemos outros talentos, hoje é dia de vos apresentar um outro. A Margarida do 11ºI, além de ser uma excelente fotógrafa, também se aventura letras fora. Deixo-vos agora a sós com o poema. Boa leitura!

Corvos estivam o teu olhar


Esvoaças distante
O sol imigrou - hemisfério lunar
A lua arde - sussurro cortante

Ouvem-se passos de um sonhador
Sente-se o oceano inquieto
Avistam-se ruas de antigo futuro
Acham-se reflexos perdidos

O vento toca-me a face
Anunciando a tua chegada
Num monólogo resumido

E sigo o teu rasto
E sigo as pegadas
E guardo o teu beijo

Ana Margarida Cardoso, 11º I


segunda-feira, junho 04, 2007

Junho é mês de Lisboa

Aqui e além em Lisboa - quando vamos
Com pressa ou distraídos pelas ruas
Ao virar da esquina de súbito avistamos
Irisado o Tejo:
Então se tornam
Leve o nosso corpo e a alma alada

Sophia de Mello Breyner Andresen
foto: minha